
O pacote chegou sem aviso. Não havia nem remetente. Ele estava dentro de uma marmita ainda morna. Para qualquer pessoa, poderia parecer só uma entrega no endereço errado. No entanto, para Silvia Elena Moreira Batista, liderança extrativista do rio Manicoré, um afluente do rio Madeira, no sul do Amazonas, o gesto era um recado claro: “quando chegou a marmita, eu entendi na hora: não era comida, era um aviso. Era para dizer: ‘a gente está de olho em ti’”.
Silvia segurou a embalagem por alguns segundos antes de colocá-la sobre a mesa. Não comeu.
Ela, Maria Cleia Delgado Campino e Marilurdes Cunha da Silva são lideranças históricas do Território de Uso Comum (TUC) do Rio Manicoré. TUC é uma categoria fundiária criada no Amazonas para dar o mínimo de proteção fundiária e segurança social a moradores de comunidades tradicionais fora de áreas protegidas. Ele foi criado após os moradores locais conquistarem uma Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) coletiva, um instrumento jurídico por meio do qual o poder público autoriza um grupo ou comunidade a utilizar terras públicas, de forma gratuita ou mediante pagamento, por prazo determinado ou indeterminado.



Uma CDRU é como um título para vários donos da terra e é utilizada em processos de regularização fundiária, especialmente em áreas de uso comum. Essa concessão assegura a posse coletiva e o uso sustentável da área, sem transferência da propriedade do imóvel.
A categoria do TUC foi regulamentada pelo Decreto nº 50.941/2024 do governo do Amazonas. Esse tipo de território é inédito no Brasil — é resultado de uma luta pela proteção territorial que tirou a paz da comunidade por muitos anos e virou sinônimo de insegurança, especificamente para as mulheres.
Para Josinaldo Aleixo, técnico de campo do Programa Ordenamento e Governança Territorial na Amazônia (Ordam), do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), a experiência do TUC do rio Manicoré representa um avanço singular na disputa por direitos na Amazônia. Ele destaca o papel central das mulheres, que desafiaram padrões tradicionais de poder e revelaram um feminismo popular ligado à autonomia territorial.
“A análise conjunta indica que a experiência do TUC do Rio Manicoré não pode ser compreendida apenas como mais um de resistência territorial: ela está inserida em um contexto amazônico de conflitos intensos em que mulheres defensoras enfrentam obstáculos estruturais de violência e desigualdade. Ao mesmo tempo, a centralidade que elas ocupam na construção de um novo tipo de territorialidade autogestionada oferece pistas sobre como práticas locais de liderança feminina podem reconfigurar relações de poder tradicionais — mesmo em ambientes marcados por altos riscos de violência”, analisa o sociólogo.
A análise conjunta indica que a experiência do TUC do Rio Manicoré não pode ser compreendida apenas como mais um de resistência territorial: ela está inserida em um contexto amazônico de conflitos intensos em que mulheres defensoras enfrentam obstáculos estruturais de violência e desigualdade.
Josinaldo Aleixo, técnico de campo do Programa Ordenamento e Governança Territorial na Amazônia (Ordam)

Cinco anos de jornada
Acompanho como jornalista o rio Manicoré desde 2021, observando a luta para combater as invasões, as ameaças e todo o tipo de ilegalidade contra o lar dos cerca de 4.500 moradores da região, que abriga 15 comunidades. Em 2025, voltei ao TUC pela terceira vez. Flagrei o mesmo cenário: ausência do poder público, desmatamento e garimpo ilegais (leia mais em O Tracajá e o Pedral). Nesta reportagem, eu conto a história de três mulheres-chave dentro da resistência do território: as “mães” do TUC do Rio Manicoré.
Em Manicoré, a 390 quilômetros de Manaus — acessível apenas por água ou pelo ar —, as ameaças não vêm com bilhete, mas disfarçadas de cotidiano: uma fofoca na mesa de bar, um disse-me-disse na igreja, uma conversa informal entre amigos. Depois, elas desembarcam no território, nos ouvidos ou no celular dos destinatários. Elas não chegam aos berros. Chegam educadas, sorridentes, com um discurso cheio de promessas de dias melhores. Não anunciam violência com objetividade; é a tal da passividade agressiva que instala a angústia entre os alvos das ameaças e suas famílias.


“Eu vivo assim [preocupada], porque não posso deixar Manicoré para trás e me mudar para outra cidade”, me disse Silvia. “Minha família está toda aqui. Todo mundo sabe quem eu sou”, acrescenta. “A violência não precisa dizer que vai matar. Ela só precisa te deixar em alerta o tempo todo”, fala com a voz rouca e embargada.
Silvia nasceu na comunidade Três Estrelas, uma das 15 comunidades do TUC, em uma família de extrativistas que cortavam seringa, principalmente, mas também plantavam. Ela foi para a sede de Manicoré estudar e, depois, para Manaus. Construiu uma trajetória no serviço público, na gestão ambiental, inclusive de Unidades de Conservação. Hoje, atua no terceiro setor como secretária de Direitos Humanos do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).
“As ameaças não chegam direto. Elas chegam por terceiros, chegam pelos comentários, chegam pela família. Às vezes alguém vem e diz: ‘estão falando de ti’. Às vezes é um olhar atravessado. Isso vai criando um clima que não te deixa em paz”, relata Maria Cleia Delgado Campino, presidente da Central das Associações Agroextrativistas do Rio Manicoré (Caarim). “Eles não dizem que vão matar. Dizem que o nosso caixão já está pronto”, acrescenta a professora Marilurdes Cunha da Silva, outra liderança histórica do território.
Margens que se cruzam

Quando minha vida entrou no curso do rio Manicoré, em 2021, o Amazonas passava por um dos anos mais difíceis da história recente, no auge da pandemia de Covid-19. Todos se asfixiaram de muitas formas. Eu trabalhava na secretaria-executiva do Observatório BR-319, uma rede de organizações da sociedade civil que monitora o licenciamento da rodovia entre os estados do Amazonas e de Rondônia, e acompanhava denúncias da área de influência da estrada.
Como comunicadora socioambiental, essa foi uma das minhas primeiras missões: noticiar invasões de grilagem, retirada ilegal de madeira, abertura de ramais, dragas por boatos de ouro no rio Manicoré. Logo descobri que quase sempre as mulheres são as principais vozes dessas denúncias.
Eu, Izabel, me perguntava: “por que é tão difícil mandar fiscalização para lá?”. A resposta não estava na geografia amazônica, mas na política socioambiental do Brasil que, à época, estava sendo implodida em todas as esferas — municipal, estadual e federal. Era o governo de Jair Bolsonaro, com Ricardo Salles à frente do Ministério do Meio Ambiente.
Depois disso, nós queríamos entender o porquê que mesmo com a criação do TUC e com a área “no radar” do Estado, a situação persistia. Entre novembro e dezembro de 2025, na terceira vez que estive no TUC do Rio Manicoré, estava acompanhada da fotojornalista Marizilda Cruppe. Peguei um barco na sede de Manicoré, no rio Madeira, para adentrar o rio afluente.


Não demorou para as dragas de garimpo aparecerem em longas “fofocas” — o agrupamento de várias dragas enfileiradas uma ao lado da outra — na boca do rio Manicoré. Flagramos e fotografamos as áreas desmatadas, os pátios de armazenamento de madeira e até uma balsa carregada de toras rio a dentro. Foi assim, por causa dessas “velhas-novas” histórias, que conheci Maria Cleia Delgado Campino, a Caia, maior liderança do rio Manicoré.
Maria Cleia é baixinha, quase passa despercebida. Cabelos longos e pretos, pele avermelhada e esturricada de sol. Os olhos parecem secos — “eu não choro por nada”, ela garante —, mas sustentam uma mirada firme, daquela que não pisca. A voz é um pouco grave, sempre alta e clara. A dicção às vezes troca o “p” pelo “b” e vice-versa, mas nada comprometedor. “Oi, jornalista Izabel!”, ela dizia nas nossas primeiras conversas.



Perguntei por que ela defendia o rio Manicoré. A resposta: “Porque ele é nossa casa! Se ele deixar de existir, a gente também some! Ele que dá pra gente o peixe, o nosso alimento, a mandioca pra farinha, a água de beber. Os pais dos meus bisavós já moravam aqui. Isso aqui tudo é nosso.”
Não levou muito tempo para perceber que o seu tamanho era o próprio território; um território de mulheres ou de mulheres-território.
É assim que elas transcendem a linha de frente das associações comunitárias. Elas sustentam a ideia de pertencimento e de casa: convocam reuniões, enfrentam políticos, falam com promotores, assinam documentos, recebem jornalistas, lutam por políticas públicas e por conservação. Inspiram os demais.
“As mulheres do TUC do Rio Manicoré assumiram protagonismo decisivo na luta social do território. Esse protagonismo passou a ser atacado por opositores por meio de discursos machistas que as rotulam como atrevidas, histéricas e encrenqueiras. Trata-se de uma tentativa de deslegitimação baseada em gênero, já que comportamentos semelhantes são valorizados quando exercidos por homens”, avalia Josinaldo Aleixo, coordenador do Programa Ordenamento e Governança Territorial na Amazônia (Ordam), do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), e que também ajudou a criar o TUC.
“Quando a gente começou a lutar pela proteção do rio, eu não imaginava que ia chegar nesse nível”, me disse Caia. “Mas quando você mexe com terra, mexe com poder. Quando quem mexe com poder é mulher, a violência é maior”, disse Maria Cleia, resoluta.
Quando você mexe com terra, mexe com poder. Quando quem mexe com poder é mulher, a violência é maior.
Maria Cleia
Marilurdes, professora e “alma gêmea” de Maria Cleia na luta, fala disso com uma naturalidade que assusta. “Teve uma época que a gente ficou três dias trancada dentro de casa. Não podia sair nem pra comprar comida”. Dona Marilurdes, como a chamo, é emotiva como eu e nossos olhos logo se enchem de lágrimas. Ela pausa, respira, continua. “Mas a gente continuou. Mesmo sendo criticada, mesmo sendo perseguida, mesmo sendo ameaçada de morte”.

As ameaças contra essas mulheres começaram quando elas decidiram se unir e lutar por medidas mínimas de proteção ao território-casa, onde elas já estavam há gerações. O respeito e a liderança propriamente dita no rio Manicoré é como se fosse uma herança de família. Entre as que entrevistei, foi unanimidade que “meus avós, que não sabiam ler, eram respeitados porque sabiam rezar ladainha, sabiam rezar o terço, faziam via sacra”. A constituição de liderança pela Igreja Católica teve papel importante no desenho de autoridade que vemos hoje no rio Manicoré.
Entre o pertencimento e o papel
“A minha história de luta começou em 2006. Naquela época, a gente não sabia de quem era a responsabilidade pela área onde está o rio Manicoré: se era área estadual, se era federal. Então, em 2006, a gente montou a Caarim, para começar essa luta, principalmente para frear o desmatamento que já estava avançando pela região do km 180, do distrito de Santo Antônio do Matupi”, conta Caia.
Em 2009, após recorrerem ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), as lideranças descobriram que estavam em uma gleba estadual e entraram com o pedido de criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Manicoré. “Desde então, começou, de fato, a nossa luta. Na época, o pedido da RDS não foi atendido. O rio Manicoré tem muitas riquezas e também muita pressão de influências políticas. Naquele momento, essas forças eram contrárias à criação da RDS”, recorda Maria Cleia.
A ideia foi ganhando aderência entre os moradores e entre diversas comunidades com mobilização para conseguir assinaturas para a criação da RDS. Mas, segundo Maria Cleia, Marilurdes e Silvia Elena, políticos começaram a interferir no processo, incomodados com o movimento de criação de unidades de conservação na área de influência da BR-319. A ação fazia parte das medidas de ordenamento territorial da Área de Limitação Administrativa Provisória (Alap), que pretendia organizar a região para dar início ao processo de licenciamento do trecho do meio da rodovia. Então, os ânimos se acirraram.
“Quando a luta ficou visível, quando o pedido da RDS avançou e o território ganhou nome, a coisa ficou feia. Terra sem nome é convite. Terra nomeada vira disputa”, contou Silvia Elena. Nas ruas de Manicoré, corria à boca pequena que seria melhor os membros da Caarim desistirem da ideia da unidade de conservação, pois ela não agradava, principalmente, pessoas do distrito de Santo Antônio do Matupi ligadas a políticos de Manicoré. A localidade registra um dos maiores índices de desmatamento do Amazonas, fruto da expansão agropecuária.
Quando a luta ficou visível, quando o pedido da RDS avançou e o território ganhou nome, a coisa ficou feia. Terra sem nome é convite. Terra nomeada vira disputa.
Silvia Elena
Caia foi durante muitos anos uma Agente Comunitária de Saúde pela Prefeitura de Manicoré, mas, por causa de sua luta, foi exonerada pelo então prefeito Lúcio Flávio do Rosário (PSD) — um dos nomes que se revezam no comando do município há anos. O trabalho de Caia não se resumia à Caarim. Ela buscava melhorar a qualidade de vida no território, como a cobrança da execução do Programa Luz Para Todos, que levaria energia elétrica a todas as 15 comunidades.
Um marco para a RDS
Em maio de 2016, as intimidações eram tão graves que o Ministério Público Federal no Amazonas (MPF-AM) acionou formalmente o sistema de Segurança Pública do estado. O órgão pedia a proteção de Silvia Elena, então suplente na Secretaria de Mulheres do CNS; de Marilurdes, como integrante da Caarim; de Aroldo da Silva, morador da comunidade Terra Preta e apoiador da luta pela RDS; e de Maria Cleia, como moradora do território. A justificativa do MPF, baseada em denúncias apresentadas pelo CNS, foi a de que as lideranças haviam recebido ameaças de morte “em retaliação às suas ações de organização social e política no processo de criação de unidades de conservação”.
As lideranças rejeitaram o acompanhamento permanente de policiais militares sob a alegação de que não se sentiriam seguras. Até hoje, ninguém foi punido pelas ameaças.
“Teve um período em que a gente mudou completamente a rotina. A gente não ia mais em festa, não saía com qualquer pessoa, não pegava qualquer moto táxi. Era orientação do Ministério Público. Isso não deixa de ser uma prisão”, relembra Maria Cleia.
“Teve gente que falou abertamente que um de nós tinha que morrer para a reserva não sair. Isso foi dito em espaço público, em reunião, na cidade”, contou Silvia Elena. “No período mais intenso das ameaças no rio Manicoré, eu estava sendo ameaçada por um vereador. Ele já tinha ido armado ao escritório (do CNS) para me intimidar. Me perseguia à noite quando eu saía da escola. Na época, eu estava fazendo um curso técnico e, várias vezes, ele tentou me atropelar”, completa, com a voz embargada.
No período mais intenso das ameaças no rio Manicoré, eu estava sendo ameaçada por um vereador. Ele já tinha ido armado ao escritório (do CNS) para me intimidar. Me perseguia à noite quando eu saía da escola. Na época, eu estava fazendo um curso técnico e, várias vezes, ele tentou me atropelar.
Silvia Elena
Fim da RDS, chegada do TUC
Em 9 dezembro de 2021, a Caarim foi comunicada, em reunião na Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Amazonas (Sema-AM), que o processo de criação da RDS tinha sido arquivado, sem aviso às comunidades. Houve choro coletivo, quase briga generalizada. Mas foi ali que nasceu o embrião do Território de Uso Comum (TUC).
Eu estava nessa reunião.
Desci no mesmo elevador com outras pessoas e Marilurdes, que chorava copiosamente e esbravejava que o rio Manicoré havia sido traído. “Fizeram pouco caso da nossa luta! Viemos aqui pra nada!”, dizia, com os olhos vermelhos.
Àquela altura, o procurador-geral do Amazonas, Daniel Pinheiro Viegas, e o procurador da República, Fernando Merloto Soave, articularam uma reunião com o secretário de Estado das Cidades e Territórios (Sect), João Coelho Braga, o Braguinha, para discutir uma solução mínima de proteção ao território: uma Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) coletiva, que regulariza terras de domínio público estadual destinadas a povos e comunidades tradicionais. Era a brecha possível dentro de um Estado que parece estar sempre contra o movimento socioambiental.


As lideranças do rio Manicoré também foram recebidas por Braguinha, em 9 de dezembro de 2021. Na ocasião, foi acordado que instituições parceiras da Caarim reuniriam informações de estudos já realizados sobre o território para auxiliar na reabertura do processo de criação da RDS. Mas, para todos os presentes, aquilo soou como um “deixa disso”. Então, o processo parou entre a falta de recursos e a burocracia.
Organizações como Rede Transdisciplinar da Amazônia (Reta), IEB, Greenpeace Brasil, Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces) e Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) reuniram esforços para publicar uma nota técnica sobre a criação da RDS Rio Manicoré, produzida em tempo recorde. O objetivo era cumprir o acordado com a Sect e evitar que a Caarim tivesse que retroceder em etapas importantes, como o levantamento de informações sobre o território.
É importante explicar que a ideia da CDRU só foi possível porque, em 2021, uma mudança na legislação do Amazonas sobre a destinação de terras públicas passou a prever a Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) na modalidade coletiva e por prazo indeterminado. A medida abriu caminho para a regularização fundiária de terras públicas estaduais ocupadas por povos e comunidades tradicionais por meio da Lei nº 5.536/2021.
Com isso, pela primeira vez, o Estado reconheceu oficialmente os direitos territoriais de comunidades tradicionais que vivem fora de áreas protegidas, por meio da CDRU coletiva. Esses territórios passaram a ser chamados de Territórios de Uso Comum (TUCs), mas esse novo modelo de concessão fundiária só foi regulamentado pelo governo do Amazonas três anos depois pelo Decreto nº 50.941/2024.
Voltando ao rio Manicoré, então, em 17 de março de 2022, a Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) do Rio Manicoré foi assinada pelo governador Wilson Lima (União Brasil), em Manaus. Estávamos nervosos: no microfone, anunciaram entregas de várias concessões para unidades de conservação, menos a do rio Manicoré. Foi quando me levantei da plateia e fui até o local onde imprimiam os documentos para ter certeza de que a assinatura do governador estaria em uma CDRU para o rio Manicoré. Só saí para chamar Maria Cleia para a assinatura do documento.
“A CDRU é um passo importante para a retirada dos invasores da área de uso tradicional e para concluir a criação da unidade de conservação, que vai garantir a atuação dos órgãos de proteção no território. Mas o que vemos é que o Estado não tem agido nessa parte do processo para garantir a proteção desses povos”, me disse, na ocasião, a agrônoma e pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Jolêmia Chagas, da Rede Transdisciplinar da Amazônia (Reta), uma das mulheres engajadas na defesa do rio Manicoré.
O “pai” do TUC — que não gosta de ser chamado assim —, o procurador Daniel Pinheiro Viegas, explica que a CDRU não era a solução final e nem bala de prata. “Ela é uma primeira camada de proteção territorial. É o que dá para fazer quando o Estado se recusa a criar uma unidade de conservação, mas também não pode fingir que aquelas comunidades não existem”, disse.
“Isso muda tudo, porque dá um mínimo de segurança jurídica num contexto de conflito permanente. O que aconteceu no rio Manicoré não encerrou o conflito. Apenas criou uma trincheira mínima para que as comunidades não sejam esmagadas enquanto o Estado decide o que fazer”, acrescentou.
“A CDRU do rio Manicoré foi uma solução emergencial para conter as invasões. Não era o ideal, mas era o possível diante de um governo que dizia abertamente que não criaria uma unidade de conservação’, me disse recentemente.

Viegas reconhece que, apesar de a CDRU não ser a etapa final de proteção ao território, mudou o “jogo político e jurídico da disputa”: “Com a CDRU, o discurso muda. A comunidade passa a dizer: ‘o território já é reconhecido, agora queremos a RDS’. Antes, ela só estava pedindo”.
Ele explica que a concessão de direito real de uso é importante porque ela não privatiza a terra, que continua pública, mas passa a ser reconhecida como das comunidades, como se ela tivesse vários donos — e tem. Sobre o seu papel no apoio às mulheres-lideranças do território, ele faz questão de destacar: “Eu não sou pai de nada. O rio Manicoré tem mães e é aí que reside a beleza dessa luta. Se o território tem alguma filiação é das mulheres do rio Manicoré. Eu fui instrumento jurídico de uma vontade que já existia”.
“A ideia de ‘territórios de uso comum’ é fruto de um longo processo de pesquisa científica realizada pelo Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA), coordenado pelo antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida em diversas universidades públicas brasileiras”, explica Viegas.
Com a CDRU, quase 400 mil hectares do rio Manicoré passaram a ter uma posse coletiva no papel, como se os 4.500 moradores fossem vários donos da terra. Mas o conflito não acabou. “A gente ganhou o documento, mas não ganhou o sossego”, resumiu Marilurdes. “A invasão continua e a estrada do km 180 até o território continua abrindo.” Mas ela está sendo aberta. Já tem até nome: Estrada Milton Mayer. A reação à CDRU veio forte.
Mais ataques
Pouco mais de um mês após a entrega da CDRU, agora como secretária de Direitos Humanos do CNS, Silvia Elena Batista Moreira sofreu uma tentativa de agressão física e ameaças — gritos cara a cara — por parte dos vereadores Charles Meireles (MDB) e Newton Cabral de Azevedo Neto (PSD), de Manicoré, durante uma reunião com o MPF — na presença de procuradores —, para esclarecimentos sobre a CDRU.
A agressão só não se concretizou porque alguns participantes contiveram os parlamentares e fizeram um escudo humano na frente de Silvia. O fato só repercutiu porque eu e outros colegas jornalistas de ONGs, que integravam a rede do Observatório BR-319, insistimos com a imprensa sobre a gravidade da situação.
Depois, em um evento organizado por ruralistas contrários à criação da RDS em Manicoré, o governador do Amazonas, Wilson Lima, atacou organizações ambientais e declarou que “iria barrar o pedido das comunidades tradicionais”. “Tem gente levantando a ideia de que se vai criar uma Reserva [no rio Manicoré]. Esqueça que não há a menor possibilidade disso acontecer. Eu vou lutar contra quem quiser fazer isso. Eu vou até às últimas consequências”, afirmou, justificando sua posição pela existência de riquezas como madeira e supostamente ouro no território.
“A violência não acabou depois da CDRU. Ela só mudou de forma. Hoje, ela aparece mais na intimidação, na deslegitimação, no constrangimento público. É como se o território tivesse sido reconhecido no papel, mas a nossa vida continuasse em disputa”, diz Silvia Elena.
Os conflitos territoriais localizados no sul do Amazonas revelam a sobreposição de interesses econômicos, relações de poder e desigualdades de gênero, conforme aponta o antropólogo Cloves Pereira: “quando um território é delimitado, nomeado e reivindicado coletivamente, deixa de ser invisível e passa a existir no campo das disputas de poder”, afirma. “São as mulheres que sustentam o cotidiano da vida comunitária: o quintal produtivo, a roça, as sementes, a alimentação. Esse trabalho é central para a segurança alimentar, mas historicamente invisibilizado e sem política pública”, completa.
Quando mulheres como Maria, Silvia e Marilurdes extrapolam os espaços tradicionalmente associados a elas — a casa e o quintal — e assumem posições de liderança política, denúncia e articulação institucional, ocorre um deslocamento profundo nas relações de poder. “Elas passam a ocupar espaços que sempre lhes foram negados, e esse deslocamento provoca reações violentas; tornam-se alvos preferenciais de violências físicas, simbólicas e institucionais, usadas para deslegitimar e silenciar a luta territorial”, afirma Pereira.
Essa violência está contabilizada e documentada em relatórios do Instituto Igarapé, da Global Witness e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que revelam como mulheres defensoras ambientais da Amazônia estão expostas a conflitos territoriais, interesses econômicos e desigualdades de gênero. Estudos que mapeiam a Bacia Amazônica — incluindo Brasil, Colômbia e Peru — mostram que a taxa de violência contra mulheres na região é quase o dobro da registrada no restante desses países.
Os conflitos que atingem o rio Manicoré não são exceção. “O Brasil figura de forma recorrente entre os países mais perigosos do mundo para defensores e defensoras da terra e do meio ambiente, enquanto a América Latina permanece como a região mais letal do planeta. As mulheres defensoras desempenham um papel fundamental na defesa da terra, através de um extenso trabalho ‘invisível’, que permanece não reconhecido dentro de sistemas patriarcais”, afirma Laura Furones, autora principal do relatório da Global Witness, lançado em 2025.
No Brasil, de acordo com a CPT, as mulheres representam pouco mais de 38% das vítimas de violência contra a pessoa em conflitos no campo, desconsiderando os casos sem identificação de gênero. Os estados com maior número de registros são Pará, Maranhão e Mato Grosso do Sul. As principais violências sofridas incluem contaminação por minério, intimidação e ameaças de morte, além de criminalização, prisões e tentativas de assassinato. A CPT alerta que a ausência de registros de estupro não indica inexistência do crime, mas alta subnotificação, realidade comum também fora do contexto agrário.
Na Amazônia, segundo relatório mais recente da CPT, foram identificadas 184 mulheres vítimas de violência no campo em 2024, frente a 273 homens, além de um número expressivo de casos sem identificação de gênero. Entre as mulheres, predominam os registros de contaminação por minérios (102), seguidos por intimidação (27), criminalização (19), ameaças de morte (16), prisões (10) e tentativas de assassinato (3).
Para Cecília Gomes, coordenadora nacional da CPT, a violência contra mulheres defensoras tem raízes históricas na formação do território brasileiro e atinge de forma especial as indígenas, para quem a destruição ambiental representa uma agressão direta aos seus corpos e modos de vida. “As mulheres não se sentem parte da natureza, elas se sentem natureza”, afirma.
Vida que resiste

Agosto de 2022, cinco meses após a comemoração da assinatura da CDRU, veio a cereja amarga do bolo: um incêndio de cerca de 2 mil hectares em área recém-desmatada no Tracajá, acesso a Santo Antônio do Matupi. A queimada, denunciada previamente por organizações socioambientais, avançava sobre a floresta do rio Manicoré. A denúncia foi encaminhada pelo MPF ao Ministério Público do Estado do Amazonas (MPE-AM), que, meses depois, a arquivou.
Já em 2025, durante a nossa nova visita, presenciamos como as mulheres continuam semeando a vida, mesmo após as tragédias. Estivemos no rio Manicoré, hospedadas na casa de Caia, na comunidade Mocambo, um pequeno paraíso onde ela e a família vivem e produzem. A roça cultivada por Maria Cleia é um retrato da diversidade que sustenta a vida. Ali, a mandioca não é uma só. São muitas mandiocas, cada uma com seu tempo, seu uso, seu gosto e sua exigência.
“Mandioca não é tudo igual. Cada uma tem seu jeito e a gente aprende isso vivendo com elas”, explicou.


Maria Cleia limpa, planta e cuida. A roça fica em um terreno íngreme, acima da casa, com acesso por um tucumanzal. A terra é fofa, macia, escura e tem cheiro bom. Ao redor, tem uma capoeira alta que protege o roçado. “Essa roça aqui é meu trabalho e meu orgulho”, diz Cleia. “Isso aqui garante comida, farinha e que a gente não dependa de ninguém”, conta.
Além da mandioca, a pesca é fundamental para as famílias do rio Manicoré, garantindo peixes de diversas espécies nos lagos, igarapés e no leito do rio — parte deles é destinada para consumo, parte para venda na cidade. A agricultura familiar complementa essa base alimentar da população, com roçados que seguem o ritmo do clima e produzem, também, frutas, grãos e hortaliças, que também asseguram renda extra.
A isso, soma-se o extrativismo de produtos como castanha-da-amazônia, açaí, buriti e óleos medicinais, coletados com base no conhecimento tradicional, comercializados em pequena escala.
O Tracajá e o Pedral
Também no final de 2025, acompanhada da fotojornalista Marizilda Cruppe, vi de perto o que, até então, aparecia em mapas, alertas de satélite e denúncias formais. Percorremos o território por rio e por terra. O que encontramos foi um cenário de violação contínua, incompatível com qualquer ideia de proteção territorial efetiva. Não vimos nenhum órgão de fiscalização ou sinal da presença deles.

Acordamos de madrugada e seguimos até Tracajá, o local da queimada de 2022. Chegamos debaixo de chuva, que só piorava, e subimos pela estrada aberta para dar acesso a um imenso desmatamento. No chão, toras abandonadas empilhadas em pátios improvisados, marcas aparentemente frescas de máquinas pesadas, lama revolvida. Não parecia um desmatamento antigo, porque, com as fortes chuvas da época, o lixo deixado por quem esteve ali já deveria ter desaparecido. Parecia uma atividade em curso, com circulação de pessoas e equipamentos.
Maria Cleia nos acompanhou em silêncio. Caminhou pela estrada aberta no meio da floresta e apontava o que já não estava mais ali. Falava irritada. “Esse caminho aqui que dá acesso à estrada do desmatamento destruiu todo o castanhal do Seu Lazarino, lá da comunidade Lago dos Remédios, dentro do TUC do Rio Manicoré. Ele coletava neste local. Hoje não existe mais o castanhal. Todo esse desmatamento está dentro do território de uso comum e vem prejudicar as populações do rio Manicoré, as comunidades que vivem aqui”.
O castanhal, explicou, era fonte de renda, de alimento e de continuidade para uma família inteira. Foi derrubado para abrir caminho para o desmatamento avançar.
Entre as toras empilhadas, latas de cerveja espalhadas pelo chão indicavam a passagem recente de pessoas na área. Nada parecia improvisado. Não adentramos mais a estrada aberta porque chovia muito e o chão era de um barro ensaboado.
Questionada pela reportagem, a Sema se isentou de responsabilidade em relação ao desmatamento da área: “A formalização dos TUCs é de competência da Secretaria de Estado das Cidades e Territórios (Sect). No caso do TUC do Rio Manicoré, a Sema prestou apoio técnico em etapas complementares, como a elaboração do plano de gestão, publicado em 2025”.
A secretaria também afirma, em nota, que formou “instâncias de governança comunitária e a concessão do Contrato de Direito Real de Uso (CDRU), efetivada em 2022”.
Sobre os crimes ambientais flagrados, a Sema diz: “as ações de fiscalização ambiental relacionadas a desmatamento ilegal, garimpo e pesca irregular são de competência do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam)”, completou. Procurado até o fechamento desta reportagem, o órgão fiscalizador não se pronunciou.
O conflito acontece agora, em tempo real, e não é abstrato. Ele acontece diante da ausência de fiscalização permanente e da lentidão deliberada do Estado. O território foi reconhecido. A proteção, não.
Este conteúdo faz parte da Rede Cidadã InfoAmazonia, iniciativa para criar e distribuir conteúdos socioambientais da Amazônia. A reportagem foi realizada em parceria com O Varadouro.
A produção contou com o apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, dentro do projeto Defensores Ambientais. Também é apoiada pela Agence Française de Développement. As ideias e opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem necessariamente as opiniões da Agence Française de Développement.