Nos primeiros dias de 2026, a fronteira com o Brasil recebeu menos pessoas do que no mesmo período do ano passado. Organizações apontam que muitas pessoas seguem na Venezuela ‘tentando entender o que vai acontecer e quais vão ser os próximos passos’.

Após vinte dias da invasão dos Estados Unidos à Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro, o cenário é de incerteza para a migração venezuelana em Roraima. Para organizações e especialistas, muitas pessoas ainda avaliam se haverá mudanças econômicas e sociais concretas antes de tomar decisões, diante de um contexto de instabilidade política, medo de novos conflitos e ausência de informações claras sobre os rumos do país.

Há mais de dez anos, o estado do extremo Norte se consolidou como a principal porta de entrada no Brasil, terceiro país da América Latina que mais acolhe migrantes e refugiados, segundo a Plataforma de Coordenação Interagencial para Refugiados e Migrantes da Venezuela (R4V). 

De acordo com Giovanna Kanas, assessora nacional da Cáritas Brasileira, organização que atua em Pacaraima e em Boa Vista com a distribuição de refeições e serviços de água, saneamento e higiene para a população em situação de rua, o relato de migrantes e refugiados que buscam os serviços é de “incerteza” sobre o futuro do país.

“A gente tem percebido e dialogando até com pessoas da equipe que são venezuelanas e as próprias pessoas participantes do projeto, que muitas pessoas estão na Venezuela tentando entender o que vai acontecer e quais vão ser os próximos passos. Então, talvez o movimento para o Brasil passe a ser progressivo a partir da avaliação das pessoas que estão na Venezuela de como vai ser esse novo cenário”, disse.

Com o novo cenário geopolítico, os dados da fronteira indicam uma mudança no fluxo migratório: nos 13 primeiros dias de 2026, Pacaraima registrou 1.014 entradas de venezuelanos, abaixo do observado no mesmo período de 2025, quando 2.121 entraram no Brasil. Em 2024, foram contabilizadas 2.161 entradas. Os números foram divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento Social. 

A migração venezuelana é motivada pela falta de medicamentos, de serviços de educação e saúde e preços altos dos alimentos, em um contexto de dolarização da economia. Dados da Plataforma R4V indicam que, até 2024, ao menos sete milhões de venezuelanos deixaram o país.

A Venezuela enfrenta uma crise econômica e social, agravada por sanções econômicas internacionais e instabilidade política. No Brasil, venezuelanos buscam alternativas para se estabelecer e fugir da crise. 

A percepção de incerteza com o novo momento político é compartilhada pela artesã do povo indígena venezuelano Warao Karlina Maria Gonzales Torres, de 36 anos. Ela mora há 10 anos no Brasil na ocupação espontânea Yakera Ine, localizada na periferia de Boa Vista (RR), que abriga 42 famílias indígenas do mesmo povo. Karlina veio para Roraima em busca de atendimento médico para a filha, pois não havia medicamento na rede de saúde de sua comunidade e desde então mora em Roraima.

À InfoAmazonia, a artesã revela que não pensa em voltar para o país de origem, mesmo com a saída de Maduro do poder. “O aumento do dólar segue avançando do mesmo jeito. Por enquanto, [meus familiares] dizem que não há mudanças. As coisas estão todas paralisadas, tudo está congelado, e não sei realmente o que pode acontecer num futuro próximo”, disse.

As coisas estão todas paralisadas, tudo está congelado, e não sei realmente o que pode acontecer num futuro próximo.

Karlina Maria Gonzales Torres, artesã do povo Warao.

Karlina faz parte dos mais de 9 mil migrantes indígenas que deixaram o país na última década. No total, 13 povos indígenas originários da Venezuela vivem em estados do Brasil. O número ainda pode aumentar, isto porque, segundo o líder da ocupação Euligio Baez, de 40 anos, há famílias indígenas que ainda planejam vir para o Brasil. Aqui, os Warao ganham a vida com artesanato e reciclagem.

“Por enquanto não recebemos novos moradores [na ocupação], mas os parentes também já querem vir. Possivelmente, vão chegar neste próximo período [fevereiro] porque a situação não melhorou”.

O professor e pesquisador em migrações da Universidade Federal de Roraima (UFRR), João Carlos Jarochinski, afirma que, a partir de informações obtidas por fontes indiretas, uma das principais preocupações dos povos indígenas que permaneceram na Venezuela é a possibilidade de invasão de seus territórios.

“Há esse receio de uma possibilidade de algum episódio de violência, de gente querendo invadir as terras, tentando começar a garimpagem. Então, é o que a gente tem, mas o movimento desses grupos a gente não teve nenhuma uma dinâmica de alteração também”.

Cortes para ajuda humanitária

As mudanças geopolíticas ocorrem em um momento em que serviços que atendem migrantes são afetados devido ao corte de verbas dos EUA para ajuda humanitária em todo o mundo. Em Roraima, após financiadores encerrarem o contrato, a Cáritas deve paralisar as atividades de distribuição de refeições ainda em janeiro e em março as ações de água, saneamento e higiene. A organização pretende atuar por meio de doações e busca novos financiamentos.

“Os outros atores humanitários já estão trabalhando sob pressão, e a gente não quer que mais desse serviço deixe de ser oferecido para as pessoas que precisam. O Brasil tem uma política de acolhida elogiada internacionalmente pela forma como coordena os diferentes esforços humanitários, mas até o momento isso ainda não se traduziu em nenhum apoio direto”, explica Giovanna Kanas.

Migrante usa instalação sanitária com banheiros, em Boa Vista. Foto: Allan Denizard/Acervo Cáritas Brasileira

Os cortes na ajuda humanitária foram anunciados em março do ano passado e tiveram como principal alvo a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), que financiava projetos de organizações em todo o mundo. A redução de orçamento também foi sentida pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), que atua desde o acolhimento, proteção e empoderamento de migrantes.

Ofensiva de Trump contra Venezuela 

Desde o início do segundo mandato, em 2025, o presidente estadunidense Donald Trump aumentou a tensão contra a Venezuela. Ele acusa Nicolás Maduro de “narcoterrorismo”. Antes da captura do presidente, os EUA chegaram a bombardear barcos no mar do Caribe sob a justificativa que se tratavam de traficantes.

Após a escalada de tensão, as forças militares dos EUA bombardearam a cidade de Caracas, onde Maduro e a esposa Cilia Flores foram capturados. O bombardeio deixou cerca de 100 mortos, entre militares e civis. Desde então, Nicolás e a esposa estão presos em Nova York.

Após a invasão, Trump tem deixado claro o interesse dos Estados Unidos na indústria petrolífera da Venezuela. Atualmente, a Venezuela tem como presidente interina a ex-vice de Maduro, Delcy Rodríguez. 

No Brasil, o presidente Lula (PT) usou as redes sociais para condenar o ataque e cobrar a ONU para que tomasse providências sobre a invasão estadunidense. “A ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz. A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio”, publicou em 3 de janeiro.

Até o momento, o governo brasileiro não divulgou novos posicionamentos mais incisivos sobre o episódio. Em visita a Roraima na semana passada, o ministro do Desenvolvimento Wellington Dias disse que o governo acompanha “desde o início dos momentos de tensão dos Estados Unidos com a Venezuela”.

Futuro da migração venezuelana

Dados da Polícia Federal indicam que 743 mil venezuelanos estabeleceram residência no país. O Brasil se torna uma opção devido à política de acolhimento e uma infraestrutura para receber refugiados e migrantes, iniciativa liderada pelo Exército Brasileiro através da Operação Acolhida. Desde 2018, os militares trabalham no ordenamento da fronteira e estratégias de interiorização dos migrantes, junto a agências e organizações internacionais.

Atualmente, Boa Vista possui seis abrigos, dos quais três são voltados ao acolhimento de indígenas venezuelanos. Um deles, o abrigo Rondon 1, é o maior da América Latina. Além disso, há dois alojamentos de trânsito: um na capital e outro em Pacaraima (RR). Para se regulamentar no Brasil, os venezuelanos precisam passar pela Polícia Federal e atualizar a carteira vacinal.

“Carpas”, estruturas montadas nos abrigos federais onde venezuelanos são acolhidos. Foto: Roberta Aline/MDS

João Carlos Jarochinski, analisa que ainda não é possível cravar uma mudança no perfil dos venezuelanos que chegam ao Brasil por Pacaraima, mas sim uma manutenção do que era visto antes: encontro com a família que já está no país e em busca de tratamento de saúde.

Com o novo cenário geopolítico, ele indica três possíveis saídas para a migração: um aumento imediato de pessoas caso a violência e a instabilidade aumentem devido à guerras civis ou ação externa; um crescimento da migração no curto e médio prazo se a crise econômica continuar, com inflação e dificuldade de acesso a alimentos; e um possível retorno de venezuelanos ao país se houver melhora gradual da economia e das condições de vida, especialmente diante das dificuldades enfrentadas por migrantes em países como os EUA.

“São esses os três cenários que a gente enxerga, mas essa retomada também não é imediata. Precisa uma avaliação de quem está lá, apresentar um quadro de melhoria de vida e parte desse retorno se daria pelas condições precárias e vulneráveis que muitos encontram em outros países”, explica.

Posto de Triagem (PTrig), em Boa Vista, onde migrantes e refugiados regularizam documentos. Foto: Samantha Rufino/InfoAmazonia

Procurado sobre possíveis aumentos no fluxo migratório e como atua na situação, o Ministério do Desenvolvimento Social disse que “tem repassado recursos de cofinanciamento emergencial para estados e municípios que solicitam apoio para acolhimento do público em pauta, possibilitando a ampliação da interiorização. Desde 2017, foram repassados mais de 130 milhões de reais para entes federativos em todo o Brasil.”

A InfoAmazonia também procurou a Operação Acolhida, Casa Civil, a Polícia Federal e Ministério da Justiça para saber como devem atuar caso o fluxo aumente na fronteira, mas não foi respondida até a última atualização da reportagem.


Imagem de abertura: Fronteira entre Brasil e Venezuela, entre as cidades de Santa Elena de Uairén e Pacaraima (RR), em setembro de 2025. Foto: Samantha Rufino/InfoAmazonia

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Samantha Rufino

Jornalista roraimense formada pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e editora-assistente no InfoAmazonia. Atua em jornalismo ambiental, com experiência em reportagem e comunicação comunitária.

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