A chegada de Lula ocorre em meio à articulação por um roadmap para abandonar petróleo, gás e carvão. Na véspera, ministros de vários países apoiaram a proposta, que já conta com a adesão de mais de 80 nações.

O presidente Lula (PT) desembarcou em Belém, no final da manhã desta quarta-feira (19), com a missão de colocar seu capital político em campo e tentar realinhar o apoio internacional ao Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis, a principal aposta diplomática brasileira na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30).

A chegada de Lula ocorre em meio a uma intensa articulação entre países favoráveis à construção de um roteiro global para abandonar petróleo, gás e carvão. Na véspera, ministros de diversos países manifestaram apoio público à proposta, e fontes do governo brasileiro estimam que mais de 80 nações já haviam aderido. O número ainda não garante uma mudança de rota nas negociações, mas é considerado suficiente para recolocar o tema no centro das mesas.

Lula terá agora o desafio de convencer sobretudo países árabes, Índia e Japão, que, segundo fontes consultadas pela InfoAmazonia, seriam os mais resistentes à inclusão do roadmap no texto final de Belém. Para driblar essa dificuldade, a presença do presidente poderá indicar um caminho alternativo, como a inclusão dessa meta nas NDCs dos países.

“Nunca estivemos tão perto de termos uma decisão sobre como o mundo irá gradualmente abandonar o petróleo. A questão agora é garantir que os opositores sejam encurralados pela vontade geral e pela melhor ciência disponível”, explica Caio Victor Vieira, especialista em Políticas Climáticas do Instituto Talanoa.

Para o Observatório do Clima, o momento é estratégico. “O presidente Lula foi claro: esta COP precisa entregar um roteiro para o fim dos combustíveis fósseis. Agora é hora de transformar apoio político em resolução no texto final”, disse o secretário-executivo Márcio Astrini.

Marina Silva discursa em coletiva de imprensa no dia 17 de novembro, na COP30. Foto: Luis Ushirobira/InfoAmazonia

COP30 prepara pacote político

O governo brasileiro trabalha para aprovar, até o fim da conferência, uma primeira versão do Mutirão Global, conjunto de decisões políticas que pode estruturar o roteiro internacional de descarbonização. O texto-base já orienta reuniões paralelas, encontros ministeriais e negociações bilaterais.

Em carta enviada aos países, o presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, afirmou que pretende apresentar até esta quarta-feira uma primeira versão do Pacote de Belém, seguido de um documento mais técnico na sexta-feira (21).

“Propomos concluir parte significativa do nosso trabalho para que uma reunião plenária sobre o pacote político de Belém possa ocorrer até o meio da semana”, disse. 

O texto-base disponibilizado pela presidência apresenta 21 opções de redação distribuídas em quatro temas centrais: novas metas climáticas (NDCs), distribuição dos US$ 300 bilhões prometidos para financiamento climático, barreiras comerciais e mecanismos de transparência.

Para Jasper Inventor, diretor adjunto de programas do Greenpeace Internacional, o desafio agora é “eliminar as opções que prolongam atrasos e ignoram a urgência da ação”.

Presidência da COP30 reflete o que passa nas negociações

Apesar da mobilização brasileira, a postura do presidente da COP30 revela o peso das resistências dentro da conferência. O papel de Corrêa do Lago é o de conduzir a conferência “sem advogar por nenhuma causa”, como explica um interlocutor do Itamaraty — e isso tem se refletido nas suas declarações públicas.

Na semana passada, ele afirmou que o roadmap brasileiro ainda precisava “encontrar um lugar” nas negociações da COP30: “o assunto já foi debatido em Baku [COP29]. É um tema importante, sem dúvida, mas como não há acordo, sabemos que são discussões abertas. Não é o foco das discussões atuais.”

No mesmo encontro, disse que o mapa para o fim dos combustíveis fósseis é, por ora, “uma meta brasileira”. Questionado pela InfoAmazonia se suas declarações enfraquecem o esforço diplomático do país, Côrrea do Lago preferiu não responder.

Fontes que acompanham as negociações apontam que países árabes produtores de petróleo, Índia, grande produtora de carvão, e o Japão, lideram o bloco contrário à inclusão do roadmap no texto final do Pacote de Belém.

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Fábio Bispo

Repórter investigativo da InfoAmazonia, com foco em cobertura política, transparência pública, jornalismo de dados e questões socioambientais. Com mais de uma década de experiência, já colaborou...

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