Postado emOpinião / Desmatamento

Um manual da comemoração consciente da taxa de desmatamento

Nesta quinta-feira (30), saiu o novo dado do Prodes, que traz a taxa anual de desmatamento da Amazônia. É a terceira menor área desmatada da história, uma queda de 11% em relação ao ano anterior. Como jornalista, no entanto, é minha função explicar que nem tudo são flores. Ou melhor: mais de 5 mil km² ainda é muito desmate e ainda tem uma indústria do petróleo com licença para avançar.

Pássaros na comunidade pesqueira do Sucuriju, primeira a ser impactada em caso de vazamento de petróleo na margem equatorial brasileira. Foto: Victor Moriyama/InfoAmazonia Crédito: Victor Moriyama

Caro leitor da InfoAmazonia, se você vivenciou os anos de boiada, com mais de 10 mil km² anuais de desmatamento na Amazônia e a criação de inovações crueis como o “Dia do Fogo”, é seu direito comemorar nesta quinta-feira (30) a terceira menor taxa de desmatamento desde 1988. 

O governo federal divulgou a nova taxa do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que traz a contabilização oficial anual da região. Foram 5,8 mil km² de área desmatada entre agosto de 2024 a julho de 2025, contra os 6,5 km² no mesmo período anterior, entre 2023 e 2024. Uma queda de 11%. 

É a terceira menor taxa da série histórica, perdendo apenas para os anos de 2012 (4,5 mil km²) e 2014 (5 mil km²). Não vou ser chata de galocha e ficar só falando do que ainda pode melhorar; também quero comemorar junto. Isso é resultado de uma mudança estrutural no governo, com a retomada das ações do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama, novas ações de desintrusão em terras indígenas, a criação histórica de um Ministério dos Povos Indígenas, entre outras medidas que com certeza fortaleceram a proteção da floresta.

Mas como bem se posicionou Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima hoje, o governo dá com “uma mão e tira com a outra”. O título dessa coluna é “um manual da comemoração consciente da taxa de desmatamento” para o leitor não virar um eleitor cego, como tantos por aí. Por isso, pode abrir a latinha de cerveja, mas ainda assim:

  1. Os 5,8 mil km² estão mais próximos do desmatamento zero do que os 13 mil km² registrados no governo Bolsonaro, mas ainda muito distantes dessa meta. O Brasil continua sendo o maior emissor de gases de efeito estufa da América Latina por causa do desmatamento. São quase quatro cidades de São Paulo em apenas um ano. 
  2. Enquanto reduz o desmatamento, o governo federal libera a exploração de petróleo na bacia da Foz do Amazonas. Não há como defender, em plena era de emergência climática, mais emissões por gases de efeito estufa. Ou seja: se o Brasil reduz um pouco por desmatamento, passa a contribuir de outra forma.
  3. Apesar da redução do desmatamento, a eliminação parcial e gradual da vegetação da Amazônia — processo conhecido como degradação — disparou em 2024, com alta de 597% em relação ao ano anterior. Mais de 36 mil km² de floresta foram impactados, principalmente pelo fogo, contra 3,7 mil km² em 2023, segundo o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). O tema, no entanto, não vem sendo divulgado nem analisado com a seriedade que o caso exige do governo federal.
  4. Por último, mas não menos importante, o governo subiu a rampa ao lado do cacique Raoni e gerou expectativa quanto à retomada das demarcações de Terras Indígenas. Está comprovado que as áreas protegidas são fundamentais para conservar a floresta. Espero que, em 2026, Lula assine as demarcações que ainda faltam, uma medida concreta para ampliar os resultados alcançados neste ano.

Bom, jornalismo não é publicidade. Acho que é minha função lembrar que a vida segue. Seguimos juntos! Vou ali abrir a minha cerveja. 

Sobre o autor
Avatar photo

Carolina Dantas

Carolina Dantas é editora da InfoAmazonia e jornalista ambiental desde 2015. Anteriormente, trabalhou na Folha de S.Paulo, Globo e Grupo RBS. Em 2022, recebeu o título de alumni do Departamento de Estado...

Ainda não há comentários. Deixe um comentário!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gift this article