Análise exclusiva da InfoAmazonia revela que parte dos projetos de carbono florestal operam em áreas da Amazônia Legal onde há processos ativos de mineração — legal ou em fase de requerimento — criando um conflito direto de uso do solo.

Nos últimos anos, iniciativas de REDD+ — que visam gerar créditos de carbono com a promessa de preservar a floresta e beneficiar comunidades locais — têm se multiplicado na Amazônia. Ao mesmo tempo, cresce também o interesse por extração mineral em regiões remotas e sensíveis do bioma.

A hipótese que guiou esta investigação era de que diversos projetos de carbono ocupavam áreas que também estariam sob influência de processos minerários, autorizados ou requeridos junto ao governo federal. A coexistência dessas duas atividades, com finalidades e impactos ambientais opostos, levantaria dúvidas sobre a efetividade da conservação e a integridade dos créditos gerados.

Essa hipótese foi confirmada: a InfoAmazonia identificou dezenas de sobreposições entre projetos REDD+ registrados e processos minerários ativos na Agência Nacional de Mineração (ANM), abrangendo desde requerimentos para pesquisa até licenças de lavra. Leia a reportagem aqui.

Metodologia

Para essa análise, foram utilizadas diferentes bases de dados espaciais públicas, cruzadas entre si:

  • Projetos de carbono: a equipe utilizou a base compilada pelo projeto Carbono Opaco, que reúne os polígonos geográficos e informações sobre as empresas envolvidas com projetos REDD+ registrados nas plataformas Verra e EcoRegistry até 2024.
  • Processos minerários: Os dados foram obtidos do sistema SIGMINE da Agência Nacional de Mineração (ANM), contendo os limites e a classificação dos processos minerários ativos na Amazônia Legal.

Para identificar os conflitos, consideramos como “sobreposição” qualquer intersecção espacial entre os polígonos dos projetos de carbono e os dos processos minerários. Isso inclui sobreposições parciais, totais ou situações em que os limites das áreas apenas se tocam.

A análise considerou toda a extensão da Amazônia Legal, e todos os tipos de processos minerários, independentemente da substância mineral ou da fase do processo administrativo. Além disso, para contextualizar o cenário de pressão ambiental, foram integrados à análise dados de:

Essas informações ajudam a compreender se as áreas em conflito apresentam sinais de deterioração florestal, o que pode comprometer a qualidade ambiental dos créditos gerados.

Processamento dos dados

O cruzamento geoespacial foi feito utilizando a biblioteca sf, que faz parte da linguagem de programação R — uma linguagem amplamente utilizada para análise de dados —, e foram desenvolvidos scripts específicos para:

  • Carregar e padronizar os dados geográficos (projetos REDD+ e processos da ANM);
  • Identificar todas as sobreposições espaciais;
  • Classificar os conflitos por tipo de processo minerário (requerimento, autorização, licenciamento etc.);
  • Cruzar as áreas em conflito com dados de desmatamento e degradação.

Fontes

NomeRepresentaçãoLink
Marcela Vecchione GonçalvesNúcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (UFPA), consultora científicaLattes
Andreia Macedo BarretoDefensoria Pública do Estado do ParáLattes
Fabrina FurtadoUniversidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)Lattes
Anne ThielPorta-voz da certificadora VerraSite institucional
Agência Nacional de Mineração (ANM)Órgão regulador federal de mineração no BrasilSite institucional

Parcerias e acesso público

A série é parte de um esforço contínuo da InfoAmazonia para fiscalizar e promover transparência sobre os mercados de carbono na Amazônia. Todos os dados utilizados na investigação — assim como os scripts de análise — estão disponíveis neste repositório público, para que outras organizações, jornalistas e pesquisadores possam replicar, auditar ou expandir o trabalho.

Este especial contou com a colaboração de especialistas ambientais e pesquisadores convidados, que auxiliaram na interpretação dos dados e revisão das hipóteses.

Sobre o autor
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Fábio Bispo

Repórter investigativo da InfoAmazonia, com foco em cobertura política, transparência pública, jornalismo de dados e questões socioambientais. Com mais de uma década de experiência, já colaborou...

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Renata Hirota

Jornalista e estatística, faz parte da Unidade de Geojornalismo da InfoAmazonia. Trabalha com jornalismo de dados desde 2017, analisando dados ambientais, sobre política e tecnologia.


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