De um total de 3.150 sítios em áreas desmatadas analisados pela reportagem, 12,5% (394) localizam-se em Unidades de Conservação, Terras Indígenas ou Quilombolas.
A seca que assolou o Amazonas no ano passado não apenas comprometeu a fauna, a flora e a sobrevivência da população, como também atingiu parte da história humana ancestral da Amazônia. A baixa dos rios trouxe à luz pelo menos três sítios arqueológicos antes desconhecidos, um fenômeno que pode se repetir em 2024. Com a continuação do El Niño até fevereiro deste ano, a previsão é de uma estação chuvosa amazônica mais fraca e que pode atrasar ainda mais o reabastecimento da água dos rios.
Com indícios de presença humana que remontam mais de 10 mil anos, a Amazônia Legal possui um total de 6.178 sítios arqueológicos cadastrados no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão do Governo Federal (SICG) do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), segundo os dados coletados até setembro de 2023. Essas áreas emergem nas paisagens como espaços vivos de memória e identidade. São fontes dinâmicas de conhecimento, onde gerações de pessoas teceram suas existências e construíram suas vidas através do tempo, e que ressoam nas com práticas culturais e ambientais contemporâneas.
Dentre esses mais de 6 mil sítios, 4.415 estão em áreas de floresta – dentre eles, 71% (3.150) estão em áreas de desmatamento e já foram impactados pelo problema. Esses dados são resultado de um levantamento exclusivo da InfoAmazonia, com base no SICG e nos dados de desmatamento para toda a série histórica disponível (1988 a 2022) do Prodes, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que produz a taxa de desmatamento anual da região.
A escalada da perda de cobertura florestal aliada à extração desenfreada de recursos, sobretudo na Amazônia, pode estar ameaçando todo esse patrimônio arqueológico, impactando na perda de contextos arqueológicos que ainda não foram integralmente descobertos e/ou estudados em pesquisas científicas e pelas comunidades locais.
Segundo informações do Prodes, são consideradas áreas desmatadas aquelas onde houve “a remoção completa da cobertura florestal primária por corte raso”. Essa técnica se dá quando, em uma determinada área, todas as árvores (ou a maioria delas) são derrubadas ao mesmo tempo e, em geral, de maneira uniforme. O estado do Acre é o que tem uma quantidade excepcionalmente alta de sítios em áreas desmatadas, atingindo o percentual de 97% em 2023. Em seguida, vem os estados de Mato Grosso, com 79%, Rondônia, com 76%, e o Maranhão, com 73%. Pará fica com 66%, enquanto Roraima e Tocantins despontam com as menores taxas em áreas florestais, de aproximadamente 36% e 40%, respectivamente.
dados e transparência
Como forma de garantir a transparência, compartilhamos aqui o texto de análise e os dados utilizados nesta reportagem.
Arqueologia, sistematização e fiscalização
Todos esses números lançam luz a um fenômeno já conhecido por cientistas: a relação intrínseca entre o desmatamento, a ocupação urbana e a descoberta de sítios arqueológicos. Dada a natureza enterrada ou semienterrada de muitos desses locais, áreas desmatadas e/ou ocupadas, geralmente, revelam vestígios do passado. Contudo, é essencial considerar que o desmatamento na Amazônia é uma questão complexa e multifacetada.