Com o início da construção da rodovia Perimetral Norte BR-210 na década de 1960, a cobiça pelo ouro levou ao povo Yanomami um rastro de epidemias, violências e massacres que ainda hoje repercutem em suas aldeias.

Explosão de casos de malária. Desnutrição. Violência e estupros. São todos elementos que compõem o atual estado de calamidade vivenciado pela população Yanomami, que vive entre os estados brasileiros de Roraima e do Amazonas, e também do outro lado da fronteira, em território venezuelano. Essa situação decorre da intensa atividade garimpeira que assola as formas de vida Yanomami, cuja origem está nos planos de “desenvolvimento” que a Ditadura Militar elaborou para a região.

Sobrevoo regista áreas de garimpos ilegais dentro da Terra Indígena Yanomami, em Roraima, em abril de 2021

Aos 85 anos, o missionário católico da Instituto Missionário da Consolata, Carlo Zacquini, tem uma memória espantosa. Manteve diários do que vivenciou e testemunhou entre os Yanomami desde a década de 1970. Italiano, Zacquini estava no território Yanomami, junto à fotógrafa Claudia Andujar, mais precisamente na missão Catrimani, no ano de 1974, quando um avião pousou na pista de terra batida utilizada pelos missionários. Os passageiros, ao descerem, avisaram a Carlo que as empresas iriam chegar e começar a estrada, a Perimetral Norte (BR-210). Que não passaria muito longe dali. “Fiquei muito perplexo, quase sem acreditar”, relembra o missionário.

Poucos dias depois, começaram a chegar, a pé, homens doentes, com enfermidades adquiridas ao longo de dias caminhando dentro da floresta. Era uma equipe de topografia. “Na hora, a gente tentou tratar bem as pessoas que chegaram, com pena deles”, rememora Zacquini. “Foram embora, depois outros pediram para fazer uma espécie de barraco, para os homens que vieram atrás desta primeira equipe, desmatando”. Eram pequenos grupos, de duas, três ou quatro pessoas que desmatavam trechos de floresta: “na prática, fizeram picadas, traçando o rumo da estrada”.

“A gente soube que ia fazer a estrada, quando a estrada chegou”, reflete Zacquini. A Perimetral Norte (BR-210) passou a fazer parte do projeto de colonização da Amazônia criado no bojo do Plano de Integração Nacional (PIN), elaborado pelo ditador Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) junto a outros projetos de infraestrutura, como a Rodovia Transamazônica (BR-230) e a Rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163), e que, em paralelo, previa também a construção usinas hidrelétricas, como Belo Monte e Tucuruí.

A gente soube que ia fazer a estrada, quando a estrada chegou

Carlo Zacquini, indigenista

A obra da Perimetral Norte ficou a cargo da empreiteira Camargo Correia, que, por sua vez, contratou subempreiteiros para tocarem parte do trabalho. Zacquini conta que eram homens que vieram de outros estados e que, uma vez chegando a Boa Vista (RR), “entravam no mato, assim a pé, com o machado e quase todos tinham uma espingarda: comida arrumavam no mato, porque para pagar a alimentação no subempreiteiro, significava um preço salgado”, reflete o missionário.

De acordo com Zacquini, esses trabalhadores derrubaram 35 metros de mata de cada lado do traçado feito pela empreiteira.

Para Alcida Ramos, antropóloga que trabalhou como pesquisadora junto aos Yanomami e defensora de seus direitos desde a década de 1960, “o governo militar fazia o cerco à Amazônia, atingindo em cheio povos indígenas inteiros que, sem contato anterior, se viam atropelados pela abertura de estradas, pelo avanço de mineradoras, madeireiras e toda sorte de intrusões, levando a mortalidade a índices alarmantes”, afirma.

A chegada do Sarampo

A chegada dos trabalhadores obrigou os Yanomami a se deslocarem para outras áreas, e gerou uma crise humanitária e sanitária, com transmissão de doenças e graves casos de desnutrição – situação dramática que foi acirrada, na década de 1980, com a invasão garimpeira. Zacquini lembra que com a chegada dos trabalhadores, “não demorou muitos dias, o primeiro foi buscar remédios andando com as pernas bem abertas, e dizendo que estava com muita coceira, mas já tinha contaminado outros. Depois de alguns dias, todo mundo estava com essa coceira. Era só encostar, porque era muito contagioso: escabiose”, ou seja, sarna.

O missionário relata com precisão a chegada do sarampo, nos últimos dias de 1976, que explodiu ao longo do ano seguinte. “Um dos peões que ficou cuidando da cantina, perto da pista do avião, estava com sarampo. E, quando foi descoberto, o sarampo já tinha passado para os Yanomami. Tinham poucos Yanomami, e conseguimos tratar praticamente todos os que ficaram infectados”, relembra ele. “E eu já tinha pedido [à Funai] várias vezes vacina de Boa Vista, para sarampo. E eu continuei pedindo, e nada”.

Jornal do Brasil, setembro de 1979 Credit: Reprodiução/Armazem memória Credit: Reprodiução/Armazem memória

“Até que, há mais de um ano que a estrada tinha chegado, e já era transitável, um Yanomami foi caminhando até Boa Vista porque estava doente, e acabou trazendo de volta o sarampo. E a epidemia se espalhou por muitas aldeias”, relembra Zacquini. O missionário rememora que, na aldeia Hwayau, que visitou com Claudia Andujar, estavam reunidos os sobreviventes: “nela e nas três grandes malocas ao seu redor, morreram cerca de 70 pessoas”.

“Encontrei uma situação terrível! A criança menor que tinha, devia ter entre 6 e 7 anos, e era um esqueleto. E as outras menores tinham morrido. Os velhos, tinham morrido. Foi um massacre mesmo”, relembra Zacquini. Ele menciona também um quadro de depressão generalizada entre os sobreviventes: “tinha um xamã deprimido. Ele era um xamã muito bom mesmo, que estava dizendo que ele não acreditava mais nos seus espíritos, que não servem para nada, que não conseguiu fazer nada”, diante do sarampo.

Denúncia publicada no Jornal Porantim (CIMI) em dezembro de 1979 Credit: Reprodução Credit: Reprodução

Caminhando até a aldeia Hwayau, relata que foram encontrados “esqueletos na beira do caminho, de Yanomami que, andando na beira do mato, acabaram morrendo, e outros parentes acabaram morrendo. Nunca tinha visto isso. Foi uma coisa muito chocante”, relata Zacquini, acerca dos impactos da epidemia de 1977.

Alcida Ramos avalia que a Perimetral, desativada, transformou-se numa trilha mais adequada ao tráfego entre as aldeias. No entanto, “a vida das comunidades afetadas por ela nunca mais foi a mesma. Nas cabeceiras do Catrimani, região do rio Lobo d’Almada, uma epidemia de sarampo aniquilou quatro aldeias em 1977. Com a facilidade de locomoção que a estrada proporcionava, uma epidemia de sarampo, iniciada num hospital em Boa Vista, rapidamente se alastrou pela floresta, matou metade de seus 133 habitantes e dispersou os sobreviventes”. 

Zacquini relembra com tristeza que, “anos depois descobri lugares muito longes, que o sarampo tinha chegado e tinha causado vítimas. Só não consegui saber quantas”.

A chegada do Garimpo

“Ainda sofrendo os efeitos da construção da Perimetral Norte, os Yanomami começaram a sentir os primeiros sinais da corrida do ouro, consequência previsível da divulgação dos achados do projeto Radambrasil e dos caprichos do mercado internacional que, em 1980, cotava cerca de 30 gramas de ouro a 850 dólares. Uma avalanche de 40 mil invasores assolou boa parte do território Yanomami, sem se limitar à fronteira internacional”, afirma Alcida Ramos. Iniciado em 1970, o projeto Radambrasil operou no âmbito do Ministério de Minas e Energia, mapeando recursos naturais de diversas regiões do país e, em especial, da Amazônia.

Carlo Zacquini estava no território Yanomami quando, em 1971, o projeto Radambrasil: O Projeto Radam (Projeto Radar da Amazônia, após 1975, Projeto RadamBrasil), operou entre 1970 e 1985 , foi dedicado à cobertura de diversas regiões do território brasileiro (em especial a Amazônia) por imagens aéreas de radar, captadas por avião começou a fazer a prospecção de riquezas na área, com a atuação de geólogos fazendo análises de amostras de solo. “Entre eles, provavelmente havia garimpeiros. Provavelmente esses do trabalho manual, mas não é de se excluir que houvesse algum geólogo entre eles que não fosse honesto e cumpridor das normas”, reflete. Com a circulação da informação de que haveria ouro no território Yanomami, a partir deste momento começaram a surgir grupos de garimpeiros em diversas partes do território. Até que muitos garimpeiros passaram a se instalar na região do Paapiú, por lá existir na época uma pista de pouso aberta por missionários evangélicos.

Zacquini relembra que a Fundação Nacional do Índio (Funai) tinha uma estrutura muito precária, e de pouca assistência de saúde para os Yanomami, com apenas um médico e funcionários que faziam as vezes de enfermeiros, embora não tivessem formação. Enquanto isso, a CCPY (Comissão pela Criação do Parque Yanomami), ONG na  qual Zacquini atuava, tinha três médicos e um dentista. Até que, na região do rio Couto Magalhães, houve um desentendimento entre os indígenas e garimpeiros: os indígenas tentaram expulsá-los, e os garimpeiros, todos armados, se juntaram, e assassinaram quatro Yanomami, relembra o missionário.

O próprio governador de Roraima tinha patrocinado a ida de garimpeiros para essa área. Aí, quando a coisa pegou esse vulto, de matança, a Funai, comandada na época pelo (ex-senador) Romero Jucá, expulsou todos os médicos, a CCPY e missionários de algumas missões, como o Catrimani

Carlo Zacquini, indigenista

“O próprio governador de Roraima tinha patrocinado a ida de garimpeiros para essa área. Aí, quando a coisa pegou esse vulto, de matança, a Funai, comandada na época pelo (ex-senador) Romero Jucá, expulsou todos os médicos, a CCPY e missionários de algumas missões, como o Catrimani”, relembra Zacquini.

Arquivo Pessoal
Carlo Zacquini ao lado de crianças yanomami (1989)

Junto com os garimpeiros, a crise humanitária, sanitária e de desnutrição causada pela abertura da Perimetral Norte se acentua: “a chegada dos garimpeiros acabou diminuindo enormemente o número de caça. Desapareceram todos os tipos de queixada (porco do mato), que, quando são numerosos, são centenas de porcos. Não sei por quantos anos, simplesmente não teve mais queixadas”, relembra o missionário.

“Foi uma coisa que todo mundo ficou perplexo. As queixadas eram fonte importante de proteína para eles. Mesmo que não fosse coisa de todo dia, mas quando encontrava um bando era uma festa nas aldeias. A situação piorou tanto, que os Yanomami começaram ficar doentes, pela malária que se espalhou por todos os lados, ficou endêmica. Não havia microscópios, nem microscopistas lá”. 

Zacquini afirma que os garimpeiros são portadores de malária, e que a tratam, de forma empírica, por ingenuidade, e sem conhecimento apropriado, o que acaba propagando ainda mais a doença. Como desmatam e cavam o solo para buscar o ouro, os garimpeiros criam grandes focos de mosquitos transmissores de malária com a água parada.

Genocídio: Massacre Haximu

Desnutrição e doenças são apenas dois dos problemas gerados pela intrusão de garimpeiros no território Yanomami entre os anos 1970 e 1980, que chegou a ter cerca de 40 mil invasores. A violência e a violência sexual contra mulheres Yanomami foram, durante este período, e são novamente hoje, com o retorno dos garimpeiros, os outros dois elementos que compõem a grave situação vivenciada pelos Yanomami.

Zacquini relembra que estava em Boa Vista, quando, aos poucos, começou a receber informações confusas sobre o massacre de indígenas Yanomami na fronteira com a  Venezuela, em Haximu. “Alguns desses habitantes [Yanomami] do Haximu iam visitar os acampamentos dos garimpeiros. E visitavam um acampamento específico, de modo especial. Iam lá e pediam coisas, e os garimpeiros davam uns presentes, umas mixarias. Em geral, era mais uma coisa de comida e farinha de mandioca. Umas coisas bem fáceis de arrumar”, afirma o missionário.

“Os garimpeiros acharam que eles estavam abusando, ficaram irritados. Um belo dia, pegaram um grupo deles e falaram: “vamos caçar juntos?”. E mandaram os Yanomami na frente, para abrir caminho, e um certo momento atiraram nos Yanomami”, relata o missionário.

Com isso, alguns Yanomami se revoltaram, e tentaram assassinar os garimpeiros, terminando por balear um. Estes, por sua vez, se organizaram, chamaram outros garimpeiros de outros acampamentos, e organizaram uma ida à maloca. Mas, ao chegarem lá não tinha mais nenhum Yanomami, relata Zacquini, que afirma que eles teriam ido para uma festa em outra aldeia. 

Algumas mulheres, indígenas mais velhos e crianças, estavam fazendo coleta de alimentos, em um acampamento. Os garimpeiros seguiram os rastros e assassinaram dez indígenas que morreram ali na hora. Outros ficaram baleados e fugiram – entre eles, uma menina de cerca de 9 anos, baleada na cabeça, conseguiu correr, mas morreu na fuga.

Do grande caos que envolveu muitas comunidades, sobressai o massacre de 1993 em Haximu, do lado venezuelano da fronteira, que deu ao Brasil um dos primeiros casos comprovados de genocídio

Alcida Ramos, Antropóloga

Os relatos dos sobreviventes Yanomami falam em cerca de 25 garimpeiros participantes do massacre, mas apenas quatro foram encontrados, processados e condenados pelo crime de genocídio. O massacre é considerado um marco no direito relativo a crimes cometidos contra povos indígenas. “Do grande caos que envolveu muitas comunidades, sobressai o massacre de 1993 em Haximu, do lado venezuelano da fronteira, que deu ao Brasil um dos primeiros casos comprovados de genocídio”, analisa Alcida Ramos.

Desintrusão e retorno dos garimpeiros

Poucos meses antes da demarcação e homologação do território Yanomami, que ocorreu em 1992, tamanha era a repercussão dos casos de desnutrição, adoecimentos e violência, a pressão dos grupos de Direitos Humanos e o momento de redemocratização, que o governo brasileiro resolveu agir. “O escândalo da letalidade Yanomami provocada pela corrida do ouro atingiu o governo Sarney e vazou para o seguinte, do presidente eleito Fernando Collor de Melo. Um dos seus atos foi decretar a demarcação da Terra Indígena Yanomami em 1991 e sua homologação em 1992”, reflete Alcida Ramos.

“O Collor era metido a coisas sensacionais, e achou muito interessante mandar dinamitar, bombardear pistas de pouso dos garimpeiros. Foi a única vez que vi a Polícia Federal agindo com firmeza, por causa de um delegado chamado Raimundo Cutrim. Nunca vi outro da Polícia Federal assumir com tanta seriedade e firmeza.”, afirma Zacquini.

O missionário relembra, com tristeza, o quadro dramático que encontra, após a expulsão dos garimpeiros. “Vi aldeias extremamente reduzidas em população, apresentavam quadro de desnutrição geral. Havia aldeias em que os Yanomami não tinham nem força para ir ao mato tirar lenha para se esquentar. Não tinham nem a força para ir buscar água”, relata Zacquini.

Uma situação de violência, estupros, desnutrição e doenças que volta a se repetir, com frequência, em um território Yanomami hoje novamente invadido pelo garimpo. Estima-se que 30 mil garimpeiros ilegais estejam em atuação, incentivados pela alta do valor internacional do ouro e pelo enfraquecimento dos órgãos de proteção ambiental e da Funai durante o governo Bolsonaro.  A cobiça pelo ouro permanece gerando tragédias entre este povo no extremo norte do País. O projeto de “desenvolvimento” criado pela Ditadura Militar para o território habitado pelo povo Yanomami, não cessa de gerar mazelas, violências e destruição. 


Esta reportagem faz parte da série ‘Memória Interétnica’, com conteúdos que retomam casos de violações contra indígenas documentados por Centro de Referência Virtual Indígena e Cartografia de Ataques contra Indígenas, conectando-os aos temas da atualidade. O projeto é uma realização do Instituto de Políticas Relacionais em parceria com o Armazém Memória e tem apoio da Embaixada Real da Noruega em Brasília.

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Fábio Zuker

Fábio Zuker é jornalista freelancer, antropólogo e ensaísta. É autor de "Em Rota de Fuga: ensaios sobre escrita, medo e violência" (Hedra, 2020) e “Vida e morte de uma Baleia-Minke no interior...

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