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Do garimpo aos peixes: o caminho do mercúrio até contaminar os Munduruku

Peixes carnívoros estão entre os mais consumidos pelos Munduruku e os mais contaminados pelo mercúrio. O metal tóxico encontrado no organismo dos indígenas é suspeito de afetar gravemente a saúde de adultos e crianças, que têm nascido com malformações e atrasos no desenvolvimento. Mulheres Munduruku já evitam engravidar.

Na cosmologia Munduruku, o rio Tapajós foi criado pela divindade Karosakaybu, a partir do leite do tucumã, como uma espécie de paraíso. Na bacia desse que é um dos maiores corpos de água da Amazônia, Karosakaybu criou os Munduruku e, para garantir alimento para o povo, transformou indígenas em animais. 

O matrinxã, peixe facilmente encontrado em igarapés na região, foi transformado a partir de mulheres Munduruku, e por isso ele é pescado com exclusividade para uma festa tradicional que costuma ocorrer todo mês de setembro. Na ocasião, pescadores utilizam o timbó, planta venenosa jogada na água para deixar os peixes atordoados, e por semanas os indígenas só se alimentam da espécie.

“A gente faz uma brincadeira que alegra os peixes. Os meninos brincam aqui na aldeia e os peixes brincam na água”, conta Juarez Saw Munduruku, cacique da aldeia Sawré Muybu, localizada no território de mesmo nome situado no médio Tapajós, entre os municípios paraenses de Itaituba e Trairão. “O matrinxã foi feito de gente, foi transformado de gente Munduruku. Por isso que essa pescaria não é como as outras”, explica. 

Segundo Juarez, muitos peixes têm histórias de origem semelhantes na cosmologia Munduruku. A pesca é o principal meio de subsistência do povo, mas, nos últimos anos, o consumo de peixes tem gerado preocupação entre a população devido às altas concentrações de mercúrio encontradas em algumas espécies. O matrinxã não está entre os mais contaminados, mas em outras espécies que estão entre as preferidas dos Munduruku as concentrações de mercúrio são preocupantes.

O alerta surgiu a partir de estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), publicados em novembro de 2021, que constataram que todos os indígenas de três aldeias da Terra Indígena Sawré Muybu tinham mercúrio no organismo, dos quais 60% apresentaram níveis do metal tóxico no organismo acima do limite tolerado: A OMS considera que o limite de segurança para níveis de mercúrio em fios de cabelo humano, biomarcador utilizado pela pesquisa da Fiocruz, é de 6 μg/g (microgramas por grama) pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O uso do metal na separação do ouro por garimpeiros da região seria um dos principais responsáveis pelo resultado.

De acordo com a OMS, os sistemas nervoso central e periférico são os mais afetados pela contaminação por mercúrio. Os fetos, quando expostos ao metal durante a gestação, são o principal grupo de risco, suscetíveis a desenvolver sintomas neurológicos na primeira infância como atraso cognitivo, dificuldade de atenção e atraso no desenvolvimento motor e de linguagem. Entre jovens e adultos, os principais sintomas são impactos na coordenação motora, perda de audição e de sensibilidade nos membros, além de dor de cabeça e alterações no sono. 

Os estudos da Fiocruz foram baseados em coletas de amostras de cabelo dos indígenas realizadas no final de 2019. A escolha do biomarcador: Ferramenta de medida utilizada em estudos epidemiológicos. Indica normalidade ou anormalidade no funcionamento do organismo. envolveu o entendimento de que o consumo de pescados seria o principal fator de contaminação. Por meio desse consumo, o metal entra no organismo humano, passando pelo sistema digestivo, caindo na corrente sanguínea e então passando a ser absorvido por todos os sistemas e órgãos do corpo humano.

Desde os anos 1950, as regiões do alto Tapajós: Região de origem do Tapajós, a partir da confluência dos rios Juruena e São Manuel, na divisa entre Mato Grosso e Pará e médio Tapajós representam uma das principais localidades da atividade garimpeira no Brasil. A atividade cresceu em dois momentos: nos últimos anos da ditadura militar, início da década de 1980, absorvendo os garimpeiros que deixavam Serra Pelada, e nos últimos anos, impulsionada pelo governo Bolsonaro e suas sucessivas tentativas de flexibilização da legislação de mineração em áreas protegidas no país.

Ciclo de absorção do mercúrio

Mas de que forma o mercúrio utilizado pelos garimpeiros chega aos peixes e ao corpo humano? Para entender o ciclo de absorção da substância química na natureza, o InfoAmazonia visitou a TI Sawré Muybu e conversou com diversos especialistas.

Na atividade garimpeira, o mercúrio é utilizado em sua forma metálica para separar  minúsculos grãos de ouro de outros sedimentos. O mercúrio tem a capacidade de, quando derretido, se unir a outros metais e formar amálgamas. Essas amálgamas são então queimadas, o mercúrio evapora e o ouro puro é obtido.

Com esse processo, a parte do mercúrio gasoso é liberada para a atmosfera e parte do mercúrio líquido acaba sendo despejada no ambiente. Em contato com a água, o metal sofre transformações químicas e tende a ficar preso na matéria orgânica do rio, sendo absorvido pelas partículas e depositado no leito do rio.

Leonardo Milano
Criança Munduruku mergulha no rio Tapajós

É no fundo dos rios que o mercúrio é transformado por bactérias em sua forma orgânica, o metilmercúrio. Essa forma, segundo Ana Claudia Santiago de Vasconcellos, pesquisadora em saúde pública da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fiocruz, é a “mais perigosa para a saúde humana”. 

A partir de então, ele começa a ser absorvido pela cadeia alimentar. Primeiro sendo consumido por microalgas, larvas de peixes e insetos, além de outros animais aquáticos, como camarões e caranguejos. Esses organismos menores servem de alimento para animais maiores e o metilmercúrio vai se bioacumulando: Bioacumulação é o termo geral que descreve um processo pelo qual substâncias (ou compostos químicos) são absorvidas pelos organismos e biomagnificando: Biomagnificação é um fenômeno que ocorre quando há acúmulo progressivo de substâncias de um nível trófico para outro ao longo na cadeia alimentar ao longo da cadeia. Em outras palavras, sua concentração fica mais elevada em animais no topo da cadeia alimentar. 

“Os peixes maiores e carnívoros, que ocupam o topo da cadeia trófica, têm concentrações maiores de metilmercúrio nos músculos do que os peixes que ficam na base da cadeia trófica, que são os herbívoros que se alimentam de sementes, frutas, folhas”, explica Vasconcellos. Por esse motivo, ela orienta as comunidades do rio Tapajós que evitem o consumo de peixes carnívoros. 

Os peixes maiores e carnívoros, que ocupam o topo da cadeia trófica, têm concentrações maiores de metilmercúrio.

Ana Claudia Santiago de Vasconcellos, pesquisadora em saúde pública da Fiocruz

Entre os peixes carnívoros mais consumidos pelos Munduruku estão a piranha preta, o tucunaré e o filhote, nome dado ao filhote da espécie piraíba.

Ilustração: Ana Clara Moscatelli
Ciclo do mercúrio do garimpo à pesca

Embora, hoje, muitos garimpos utilizem o mercúrio metálico em câmaras fechadas, outros aspectos da atividade garimpeira contribuem para que o mercúrio em sua forma orgânica contamine os leitos dos rios. São os casos dos garimpos de barranco: garimpagem que desmata e destrói camadas do solo que depois de alagadas levam metais pesados para o leito do rio e da garimpagem por balsas: garimpagem em que a sucção de sedimentos por dragas  contribui com a erosão de componentes químicos, facilitando sua absorção pela cadeia alimentar.

Diante dos altos índices de concentração de mercúrio entre os Munduruku que participaram da pesquisa da Fiocruz, Vasconcellos desenvolveu um projeto de livro didático para explicar esse ciclo de absorção. O material é focado em estudantes do sexto ao nono ano das escolas indígenas e está sendo traduzido para as línguas Munduruku e Yanomami, dois dos povos mais afetados pelo garimpo ilegal. 

“A gente quer que as pessoas falem sobre isso nas escolas. O livro pretende criar um senso crítico, sensibilizar os jovens”, afirma a pesquisadora.

A tradução do livro para o Munduruku está sendo feita por Honésio Dacê Munduruku, representante dos professores do Médio Tapajós na Educação Escolar Indígena. Ele considera o projeto essencial para que todos  tenham acesso às orientações sobre o mercúrio. “Com o livro didático ficará mais fácil para as aldeias entenderem”. 

Segundo Honésio, a tradução tem sido difícil, porque o conteúdo é repleto de termos técnicos e científicos que não têm tradução para sua língua materna. As próprias palavras mercúrio, garimpo ou ouro não existem em Munduruku.

Honésio nasceu na aldeia Katõ, que fica no alto Tapajós. Sua família se mudou para a aldeia Praia do Mangue, em Itaituba, nos anos 2000. Segundo o professor, seus parentes ficaram admirados com o resultado da pesquisa da Fiocruz. “A gente não sabia, ficamos com medo”. Honésio conta que entre os peixes preferidos da sua família estão espécies carnívoras.

A difícil mudança de hábitos

A primeira vez que o cacique Juarez Saw Munduruku ouviu falar sobre a contaminação por mercúrio foi com o adoecimento do amigo ambientalista Cássio Beda, que integrou o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e auxiliou a população da Sawré Muybu na autodemarcação do território.

Leonardo Milano
Cacique Juarez Saw Munduruku, aldeia Sawré Muybu

Cássio foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença degenerativa que progrediu rapidamente a partir de 2017. Ele faleceu em 4 de abril de 2021. Durante seus últimos anos de vida, o ambientalista foi alertado da suspeita de que o desenvolvimento da doença poderia estar relacionado à contaminação por mercúrio. 

Em um vídeo gravado por Beda em 2018, ele chegou a afirmar que seus sintomas eram semelhantes aos da doença de Minamata, síndrome neurológica causada pelo envenenamento por mercúrio. 

O nome da doença faz referência à contaminação em massa dos moradores do município japonês de Minamata, onde, entre 1932 e 1968, mais de 5 mil pessoas foram contaminadas gravemente com dejetos de mercúrio descartados por uma indústria da corporação Chisso. O desastre, que provocou a morte de cerca de 700 pessoas, levou à construção da convenção de Minamata, promulgada em 2018. O tratado ambiental, do qual o Brasil é signatário, tem como objetivo proteger a saúde humana e o meio ambiente dos efeitos adversos do metal tóxico.

A gente tenta se adaptar, mas se não tiver outros peixes a gente tem que comer o que pescamos.

Juarez Saw, Cacique Munduruku

Foi a partir do adoecimento de Beda que as lideranças Munduruku solicitaram que os níveis de mercúrio fossem testados. No entanto, apesar dos resultados, cacique Juarez revela preocupação em relação às mudanças de hábitos alimentares. “A gente tenta se adaptar, mas se não tiver outros peixes a gente tem que comer o que pescamos”, afirma. Os peixes são a principal fonte de proteínas dos Munduruku e a maior apreensão do cacique é com o futuro. “Essa geração de crianças não pode continuar comendo peixe contaminado”.

Segundo Juarez, no inverno Amazônico, temporada de cheia dos rios, é difícil selecionar os peixes consumidos. Nessa época, os peixes nadam mais fundo e os Munduruku pescam com varas, conseguindo um peixe por vez. Na seca, com os peixes concentrados no raso, os indígenas pescam com redes deixadas por horas entre árvores. “No verão até dá para escolher o peixe que a gente quer, dá pegar curimatã, jaraqui, pacu”, resume o cacique, citando alguns peixes herbívoros.

Algumas espécies de peixes carnívoros são mais fáceis de serem pescadas por habitarem as superfícies do rio, alimentando-se de peixes menores e outros animais aquáticos, explica Ana Claudia Vasconcellos. "Quando a gente falou para o cacique que a piranha preta era um peixe muito contaminado com mercúrio ele lamentou, porque eles comem muito por ser mais fácil de pegar", lembra. 

Desde o resultado da pesquisa da Fiocruz, a importância da mudança nos hábitos de consumo tem sido tratada nas reuniões do médio Tapajós. Uma funcionária indígena da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) que atua na região e preferiu não se identificar, relata dificuldades para convencer os Munduruku a seguirem as orientações. "A gente se reúne, explica, mas é difícil".  

Julia Dolce
Mulheres Munduruku limpam porcão caçado para a festa do dia do índio na aldeia Sawré Muybu

A reportagem visitou a casa de diferentes famílias Mundurukus na aldeia Sawré Muybu e ouviu, em unanimidade, a dificuldade em adequar o consumo de peixes. A técnica em enfermagem Luciene Saw Munduruku foi uma das servidoras do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Tapajós, da Sesai, que participou de uma formação focada na vigilância e monitoramento de populações expostas ao mercúrio, ministrada pela Fiocruz no fim de 2021.

Luciene trabalha desde 2020 visitando famílias nas aldeias do médio Tapajós. Ela conta que nos territórios Munduruku do alto Tapajós a orientação de restrição do consumo de certas espécies de peixe é ainda mais desafiadora, uma vez que as aldeias ficam mais distantes da zona urbana e as famílias dificilmente conseguem completar a alimentação com alimentos comprados. "Eles têm fome,  falam que é a única comida que têm e não tem como evitar", afirma.

Um envenenamento silencioso e multifacetado

A anemia e o baixo peso, especialmente entre crianças, estão entre os principais problemas de saúde observados pelo DSEI Tapajós. "Todas as aldeias que a gente visita têm crianças com baixo peso", explica Luciene. Multicausal, o quadro anêmico também pode estar relacionado ao mercúrio, uma vez que o atraso no desenvolvimento na primeira infância é um dos sintomas da contaminação apontados por especialistas. 

O neurologista Erik Jennings trabalha em conjunto com o DSEI Tapajós na saúde indígena da região do baixo Tapajós e Amazonas. Nos últimos anos, Jennings se tornou uma referência na identificação e tratamento da contaminação do metal tóxico. O neurologista destaca que existe uma relação direta entre a intoxicação mercurial e o quadro anêmico, por meio do impacto do metal nos sistemas metabólicos do organismo humano. No entanto, o médico aponta também uma relação indireta. 

Segundo Jennings, o mercúrio é um indicador importante de diferentes desequilíbrios. "Quando os níveis de mercúrio estão altos, é a ponta do iceberg. Por baixo daquilo existe uma alteração social, ambiental, cultural e econômica grave que repercute na segurança alimentar e no bem viver daquela população", afirma. 

Quando os níveis de mercúrio estão altos, é a ponta do iceberg. Por baixo daquilo existe uma alteração social, ambiental, cultural e econômica grave.

Erik Jennings, neurologista

Uma das soluções para o consumo de pescados contaminados que vem sendo pensada pelo povo Munduruku é a construção de poços artesianos para consumo de água potável e tanques para a criação de peixes. O professor do ensino indígena Jairo Saw Munduruku é uma das cabeças por trás do projeto, e vem cobrando da Sesai sua efetivação. 

"Precisamos de peixes que não tenham contato com o rio, que sejam saudáveis.  Talvez a piscicultura seja a única alternativa", reflete.

Leonardo Milano
Professor Jairo Saw Munduruku, viúvo de Irene Akay Munduruku, que faleceu em abril de 2022.

Jairo vive na aldeia Sawré Aboy, localizada próxima à foz do rio Jamanxim, afluente do Tapajós, e parte da TI Sawré Muybu. O Jamanxim é um dos rios mais impactados pela atividade garimpeira. Na sua cabeceira são localizados alguns dos maiores garimpos da região. Em janeiro deste ano, quando uma mudança significativa na cor das águas do Tapajós chamou a atenção, uma nota técnica da rede Mapbiomas analisou imagens de satélite e de sobrevoo ao longo do rio e apontou o Jamanxim como um dos maiores depositores de sedimentos de garimpos no Tapajós.

No último 5 de abril, Jairo perdeu sua esposa, Irene Akay Munduruku. Liderança entre as mulheres, Irene tinha 39 anos e faleceu no hospital regional de Santarém, onde tratava há dois anos de um câncer que teve origem no seu fígado e em um dos seus pulmões. 

A aldeia onde a família de Irene vive apresentou a maior porcentagem de pessoas com altos níveis de mercúrio na pesquisa da Fiocruz: 87.5% dos participantes estavam contaminados. Segundo o viúvo, o resultado do exame de Irene foi um dos mais elevados. O artigo publicado pela Fiocruz revela que o indíce mais alto de mercúrio encontrado na aldeia entre mulheres adultas foi de 20.2 µg/g.

Leonardo Milano
Prontuário médico da internação de Irene Akay Munduruku no Hospital Regional de Santarém.

Segundo o médico Erik Jennings, que participou do tratamento de Irene, a relação entre o desenvolvimento de seu câncer e a contaminação por mercúrio não é direta, mas é possível que seja feita. "Toda neoplasia: Massa de tecido anormal que surge em diferentes partes do corpo. Tumores que surgem pelo crescimento do número de células são neoplasias, e podem ser benignos ou malignos (câncer) é uma consequência de uma pressão inflamatória ou química na célula. Pode ser fumo, agrotóxico, ou mercúrio. Ele causa um estresse químico nas células. Então não dá para dizer que foi o mercúrio que causou, nem dá para descartar", explica. 

Marceline Munduruku, mãe de Irene Akay, brinca com animal de estimação. Foto: Julia Dolce

Além dos sintomas causados pelo câncer, Jairo relata que Irene vinha sofrendo com a atrofia dos dedos de suas mãos, sintoma que acredita ser mais relacionado ao mercúrio. 

A família de Jairo e Irene foi expulsa da aldeia onde viviam, no alto Tapajós, em 2016, quando passaram a viver em Sawré Aboy. Segundo o professor, a expulsão foi motivada pela resistência de sua família contra a atividade garimpeira dentro do território. Irene também teve papel importante na luta contra a construção de três hidrelétricas no rio Tapajós. 

Jairo lembra que o sonho da esposa era criar uma aldeia cheia de plantações para sua mãe, Marceline Munduruku, seus cinco filhos e três netos. "Ela tinha um espírito comunitário, coletivo. Sinto constantemente a falta dela. Mas tenho que ser forte, pegar o legado do que ela sempre sonhou em fazer e continuar fazendo", afirma.

Leonardo Milano
Família de Irene Akai em frente a casa onde a liderança indígena morava, na aldeia Sawré Aboy.

O fígado é um dos órgãos utilizados no processo de metabolização do mercúrio, e por isso marcadores hepáticos costumam ser alterados em casos de contaminação. Porém, de acordo com Erik Jennings, os principais sintomas da contaminação que já podem ser observados entre a população adulta Munduruku são sintomas neurológicos. A alteração da atenção, redução da capacidade de concentração e queixas de adormecimento nas mãos e nos pés compõem os quadros clínicos. 

Além disso, um fenômeno que começou a ser observado nos últimos anos pelos profissionais do DSEI Tapajós, e que levanta suspeitas da relação com a contaminação por mercúrio, é o alto número de crianças nascendo com deformidades cerebrais e físicas. A situação foi notada diante do crescimento na demanda de cadeira de rodas entre as crianças Munduruku. O DSEI Tapajós é o distrito indígena com o maior número de cadeiras de rodas do país.

O medo de engravidar

O impacto da contaminação por mercúrio entre gestantes é uma das maiores preocupações dos profissionais da saúde e cientistas que pesquisam o tema. Isso porque a exposição ao metal tóxico no período pré-natal pode causar danos severos ao sistema nervoso central dos fetos. O metilmercúrio consegue atravessar a barreira da placenta afetando a formação do feto já nas primeiras semanas de gestação.

Nesses casos, o aborto espontâneo é uma resposta comum do organismo das gestantes. Quando a gestação segue, as crianças podem nascer com malformações ou apresentar perda de habilidade cognitiva e atraso no desenvolvimento psicomotor e mental, além de terem o sistema imunológico impactado. 

O médico Paulo Cesar Basta, um dos autores do estudo da Fiocruz, ressalta que nas áreas impactadas pelo garimpo na Amazônia, a população sofre com uma "exposição permanente". 

"As pessoas estão expostas desde sempre e para sempre. O mercúrio passa na corrente sanguínea da gestante e chega na criança, então se a gestante está comendo peixe contaminado, a criança está sendo contaminada. Depois, essa criança recebe mercúrio pelo leite materno. Aí ela cresce e continua comendo pescado contaminado", lista. 

O mercúrio passa na corrente sanguínea da gestante e chega na criança, então se a gestante está comendo peixe contaminado, a criança está sendo contaminada.

Paulo Cesar Basta, médico e autor do estudo da Fiocruz

Na visita à aldeia Sawré Muybu, a reportagem conversou com três jovens mães que vivem em casas vizinhas e perderam filhos nos últimos dois anos. Uma delas perdeu uma bebê, a outra perdeu gêmeas recém nascidas, e a terceira sofreu um aborto espontâneo de uma criança com malformação cerebral.

A primeira morte foi a da filha de Ciane Paigõ Munduruku, Jay'Um, que faleceu em 2020, aos onze meses. "Ela vivia muito doentinha e eu não sabia o que era", conta Ciene, que tem 23 anos. Fraqueza nas pernas, diarréia e febre foram alguns dos sintomas que acometeram a bebê. 

Falaram que o mercúrio tinha tomado conta dela.

Ciene Paigõ Munduruku, sobre a filha que faleceu em 2020, aos onze meses

Segundo Ciene, Jay'Um chegou a ter seu cabelo coletado para o exame da Fiocruz e, após o falecimento, ela afirma ter sido informada pelo cacique que os níveis de mercúrio da criança estavam bastante alterados. "Falaram que o mercúrio tinha tomado conta dela".

Leonardo Milano
Ciane Paigõ Munduruku e sua filha mais nova, na aldeia Sawré Muybu,

Por conta da pandemia, os pesquisadores da Fiocruz não conseguiram entregar os resultados diretamente aos indígenas na aldeia. Os dados foram repassados para o DSEI Tapajós e informados de forma geral aos caciques da Sawré Muybu.

Ciene conta que se alimentou de pescados durante toda a gestação da filha. "A gente não tem outra coisa pra comer", afirma. Ela lista que os principais peixes consumidos pela sua família são tucunaré, piranha preta, pacu e caratinga. As duas primeiras espécies são carnívoras. 

Um mês após a morte de Jay'Um, a vizinha de Ciene, Daiane Kurap Munduruku, que havia recém parido gêmeas aos sete meses de gestação, perdeu uma das bebês. A filha Karubiuay morreu na incubadora, com três dias de vida. Nove meses depois, a segunda bebê, Karubuiu, também faleceu. "Foi inteirando os meses e ela não crescia, era bem miudinha. Foi tão rápido, ela tinha pegado uma pneumonia, tava fraquinha, com o peito cansado", conta Daiane. 

Foi inteirando os meses e ela não crescia, era bem miudinha.

Daiane Kurap Munduruku, que perdeu as duas filhas gêmeas após o parto.

Já em 2021, outra vizinha de Ciane e Daiane, que preferiu não dar entrevista para a reportagem, sofreu um aborto espontâneo de uma gestação avançada. Uma das servidoras do DSEI Tapajós, que conversou com o InfoAmazonia mas também não quis se identificar, conta que acompanhou o caso após ter participado do curso de formação sobre contaminação por mercúrio da Fiocruz. "No curso mostraram fotos de fetos com malformação causada pelo envenenamento por mercúrio e eu pensei muito no caso dela, porque era muito parecido", conta. 
Depois da morte de Jau'Um, Ciene teve outra filha e diz que tentou não comer peixes carnívoros durante sua gestação. Agora, por medo, a indígena revela estar evitando engravidar. O receio é compartilhado por outras mulheres Munduruku ouvidas pelo InfoAmazonia.

Julia Dolce
Aldira Akai Munduruku mostra piranha preta, peixe carnívoro, que o marido pescou no dia anterior

Aldira Akai, mãe de quatro filhos e ativista do coletivo de comunicação Daje Kapap Eypi afirma ter receio de uma nova gravidez depois de sua última gestação ter sido de risco. "Já senti diferença, eu sentia dor de cabeça constante, fraqueza e um esquecimento muito grande", afirma. A filha, Bia, que tem hoje um ano de idade, nasceu com saúde. Aldira conta que também tentou evitar peixes carnívoros durante a gestação. "Tentei comer mais peixes do lago, aracu, pacu, caratinga". O aumento das gestações de risco também vem sendo observado entre as mulheres Munduruku. 

 Eu sentia dor de cabeça constante, fraqueza e um esquecimento muito grande.

Aldira Akai, mãe de quatro filhos e ativista do coletivo de comunicação
Leonardo Milano
Marcia Krixi e a filha Kritwoya, que nasceu de uma gravidez de risco, em sua casa na aldeia Sawré Muybu

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Márcia Krixi, que também vive na Sawré Muybu, teve uma gravidez de risco esperando sua terceira filha, em 2018. A criança, Kritwoya, munduruku para "vitória", acabou nascendo com saúde, mas ela tem observado sinais de dificuldade de aprendizagem nela e em seus outros três filhos. "Eles são desatentos, não entendem o que a gente diz. Eu tento acompanhar eles nas leituras, nos deveres da escola, mas eles têm uma dificuldade muito grande", afirma.

O atraso no desenvolvimento das crianças é um sintoma indicativo da contaminação por mercúrio e se manifesta também por meio de problemas no aprendizado, segundo Ana Claudia Vasconcellos, da Fiocruz. "Crianças que não costumam gostar da escola, têm dificuldade de acompanhar o conteúdo escolar, além de um atraso para começar a falar e andar, são sintomas que costumamos observar". 

O médico da Fiocruz Paulo Basta reitera que para se atribuir qualquer relação de causa e efeito da contaminação por mercúrio seria necessário realizar um estudo longitudinal, acompanhando a vida dos participantes com avaliações periódicas, no caso das crianças durante a gestação e a primeira infância, para constatar os indícios de quadros clínicos da contaminação. 

Embora os pesquisadores da Fiocruz tenham encontrados associações estatísticas que mostraram que quanto maior eram os níveis de contaminação por mercúrio no participante, maior a frequência de sinais e sintomas neurológicos, não é possível determinar a relação de causa e efeito. Isso porque, o estudo feito é do tipo transversal, uma fotografia datada no tempo e espaço que representa o momento da coleta de material do organismo dos participantes na única avaliação feita pelos pesquisadores.

“Em outras palavras, não sabemos se os sintomas são anteriores à contaminação por mercúrio, ou se os sintomas são efetivamente decorrentes da confirmação. Todo estudo transversal sofre da limitação da causalidade reversa, ou seja, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?“, explica Basta. 

Diante dos desafios em se identificar os quadros clínicos do envenenamento por mercúrio, foi inaugurado, em janeiro deste ano, um centro de referência no tratamento de contaminação pelo metal tóxico no Hospital Regional de Santarém. 

O projeto do centro foi pensado pelo médico Erik Jennings (ver entrevista), pela SESAI e por pesquisadores do Laboratório de Epidemiologia Molecular da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), a partir de debates com o povo Munduruku. 

"A intenção é reconhecer quem tem mercúrio elevado e quais são as repercussões que isto está causando e oferecer assistência e tratamento", explica Jennings. "Para os pacientes que já têm uma lesão instalada, como as crianças com graves alterações neurológicas, queremos oferecer fisioterapia e terapia ocupacional também, em uma assistência multidisciplinar", completa.

É a primeira iniciativa de centro de tratamento de contaminação por mercúrio no país e tem como público alvo a população Munduruku. Até agora o centro não tratou nenhum paciente, uma vez que a logística para a transferência de pacientes entre os territórios indígenas e a cidade de Santarém ainda está sendo estruturada.  

Recomendações de consumo de peixes da Fiocruz:

- Peixes carnívoros com risco muito alto (piranha preta, peixe cachorro, barbado e mandubé) - consumir no máximo uma vez ao mês. Gestantes devem evitar consumo durante toda a gravidez

- Peixes carnívoros com alto risco (tucunaré, surubim e crovina) - consumo não deve exceder 200 gramas por semana

- Peixes não carnívoros com médio e baixo risco (charuto, aracu, pacu branco, curimatã e branquina) - podem ser consumidos à vontade


Esta reportagem foi produzida em parceria com o documentário “Amazônia, a Nova Minamata?”, de Jorge Bodanzky, com apoio da Ocean Films, Films4Transparency (F4T) e Journalists 4 Transparency (J4T).

E também tem o apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.

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Julia Dolce

Repórter e fotógrafa do InfoAmazonia em parceria com o Report for the World, que aproxima redações locais com jornalistas para reportar assuntos pouco cobertos em todo o mundo. Atua na cobertura socioambiental...

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2 comments

  1. Belíssima reportagem. Rica em detalhes e ilustrações. Mas ao lado de uma matéria tão bem elaborada, fruto de tanta pesquisa, uma tragédia silenciosa, profunda, que contamina e mata. De um lado a ganância humana e a impunidade, do outro, a população indígena invadida em suas crenças e cultura sendo levada a mudar seus hábitos e costumes para manter viva a sua chama. Chama que clama por ações mais justas, que chora ao ver a contaminação acabando com nossas riquezas mais caras: a água, os peixes e o ser humano.
    Parabéns à Julia Dolce, a InfoAmazonia e o Report for the World.

  2. Parabéns pela matéria é realmente lucidando o perigo do mercúrio e do garimpo clandestino . Pois existe outras metodologias para separar o ouro

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