Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace

O PIB brasileiro está à beira do abismo, mas a devastação da Amazônia cresce 94%. Em meio a pandemia, madeireiros, grileiros e garimpeiros prosperam.

por Gustavo Faleiros*

O Brasil, por conta da pandemia, deve sofrer a pior retração econômica em anos. As últimas projeções do Produto Interno Bruto (PIB) indicam uma queda de pelo menos 3,76 % em 2020 (de acordo com o boletim Focus do Banco Central).

Com a necessária quarentena, o consumo das famílias – motor da economia brasileira – foi duramente afetado, como revelou a deflação de 0,31% no mês de abril – a maior em 22 anos.

Existe, entretanto, um setor que não está sofrendo este revés econômico. Trata-se do ramo de apropriação de grilagem de terras e destruição da floresta amazônica.

Esta frente que emprega homens especializados em invasão de terras públicas e territórios indígenas, roubo de madeira, queimadas, limpeza de lotes com tratores e correntão, segue a todo vapor.

De acordo com os dados mais recentes do monitoramento por satélite do INPE, mesmo com a paralisia na economia, os alertas de desmatamento cresceram 63% em abril em relação ao mesmo período do ano passado.

O mais assustador no entanto é olhar o ciclo anual de desmatamento; a contagem que ocorre entre os meses de agosto e julho de cada ano.

Desde agosto de 2019 até o último mês de abril, o salto de alertas de desmatamento é de 94% ou 5666 km2, área equivalente a 3,7 vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Esse é a mais alta taxa para este período desde 2015, quando foi iniciada a série histórica.

O PIB e a taxa de devastação andaram quase sempre juntas. Quando o PIB cresce, o desmatamento costuma disparar O exemplo mais conhecido desta tendência é ano 1995, período pós Plano Real, em que o desmatamento chegou ao seu nível recorde, 29 mil km2.

Houve no entanto, entre 2005 e 2013 um ciclo virtuoso, em que o PIB crescia e o desmatamento caia. Os especialistas atribuem essa inversão ao forte combate ao crime ambiental no período.

Portanto, o descolamento radical entre a economia formal e o desmatamento, como o que estamos vendo agora, não é trivial.  É um indicador de que a atividade de desmatamento passa ao largo das contas nacionais. Ou seja, é no mínimo informal. Muito provavelmente, criminosa.

Este setor,  que não está classificado pelo IBGE, podemos chamá-lo de a “economia dos homens de bem”. Pois é assim que o trata com carinho o presidente Jair Bolsonaro.

Assim o faz quando, ele, o presidente da República, repreende os fiscais do Ibama que combatem os madeireiros e garimpeiros: são eles as pessoas de bem atacadas pelos maldosos fiscais.

Ricardo Salles, por exemplo, do Ministério do Meio Ambiente, seguiu o exemplo do chefe e assim justificou a visita a Guajará Mirim (RO) em julho do ano passado, quando prestou solidariedade aos madeireiros que se revoltaram contra “abusos” do Ibama.

Agora, o crescimento vigoroso de alertas de desmatamento durante a pandemia da Covid-19 mostra que as atividades ilegais, como a grilagem e os garimpos, dominaram geral.

O pesquisador Paulo Mountinho do Instituto de Pesquisas da Amazônia (IPAM), com quem conversei há poucos dias, afirma que existe um padrão de desmatamento que vem se mantendo desde o ano passado.

Há uma parcela significativa dos alertas que indicam abertura de áreas de grande extensão, de 500 hectares ou mais. Destas, há um percentual relevante (33%) que está ocorrendo dentro de terras públicas, segundo estudo publicado pela equipe do IPAM.

Tão rápida aceleração nas taxas de desmatamento expõe a inoperância do governo federal, com sua já notória desmobilização do Ibama. O tão falado Conselho da Amazônia, liderado pelo vice-presidente Hamilton Mourão tampouco mostrou a que veio.

Estamos chegando no período das queimadas. O alto indíce de derrubadas já registrados neste começo de 2020 nos conta que há um estoque de biomassa pronto para pegar fogo e enviar fumaça pelos ares.

Mais fumaça, mais problemas respiratórios. Na Amazônia, onde a cada dia cresce o impacto da Covid-19, queimadas sem controle devem trazer uma realidade ainda mais trágica.

*Gustavo Faleiros é editor do InfoAmazonia.