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Fogo avança em reserva de pesca esportiva no extremo sul do Pará

sex, 18 de setembro de 2020

O incêndio dura mais de três semanas, sem apoio do Estado no combate. Pousada mantida em 600 hectares preservados teve toda área florestal destruída. Foto de abertura: fogo e fumaça em floresta nativa às margens do rio São Benedito, registrados pelo documentarista João Paulo Krajewski, em 07 de setembro de 2020.

por Guilherme Guerreiro Neto, de Belém (PA)

Uma extensa área de floresta nativa às margens do rio São Benedito, em Jacareacanga, no extremo sul do Pará, está sendo consumida pelo fogo há mais de três semanas, sem presença do Corpo de Bombeiros, do Ibama, ou de qualquer órgão dos governos federal e estadual.

Localizada entre áreas militares e terras indígenas, a região é um famoso destino turístico de pescadores e abriga a Reserva Estadual de Pesca Esportiva Rio São Benedito/Rio Azul, criada em 2001, já atingida pelo incêndio. Parte das terras às margens do rio é mantida voluntariamente pelos proprietários, que preservam a biodiversidade e dão uso turístico aos ativos ambientais. Outros moradores da região, no entanto, seguem transformando florestas em pastagens, fazendo uso do fogo.

Segundo fontes da região entrevistadas pelo InfoAmazonia, a origem do incêndio seria uma fazenda próxima, já denunciada, por ter sido a partir de onde o fogo teria se espalhado.

Com base em análise de dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LASA/UFRJ), cientistas estimam que o incêndio já destruiu mais de 11 mil hectares próximos à divisa entre Pará e Mato Grosso, só na região próxima à pousada (sinalizada pelo quadrado vermelho abaixo) foram 5,7 mil hectares queimados até 16 de setembro. Também há áreas queimadas em parte da Terra Indígena Kayabi, nas proximidades dos rios São Benedito e Teles Pires.


Mapa das áreas queimadas nas proximidades do rio São Benedito – Fonte: Sistema Alarmes, Lasa/UFRJ. Clique sobre os polígonos laranjas para informações sobre área queimada e datas de cada ocorrência. Dê zoom out para ver outros lugares queimados na região.

Em uma das propriedades que mantinham a mata preservada, Sandro Paukoski tinha uma pousada que virou cinzas. O empresário já previa a destruição na semana passada: “A gente está começando a desocupar a pousada, porque a tendência é queimar tudo”, disse.

Na última segunda-feira (14), quando já estava fora do local, veio a confirmação: “Acabei de receber este vídeo. Eu estava há umas três horas sem conseguir falar lá na pousada. Aí, mais essa infeliz notícia: consumiu 100% de toda área agora”. O terreno da pousada São Benedito Lodge possui 600 hectares.


Em 14 de setembro, todos os 600 hectares de floresta da pousada São Benedito Lodge acabaram de ser destruídos pelo fogo (Vídeo: Leandro Luiz Paukoski)

O combate às queimadas é feito, ainda que de forma precária, por brigadistas amadores contratados, que preparam aceiros (aberturas de faixas de terra, com retirada da vegetação rasteira, para conter o fogo). “Estamos lá sozinhos. O combate está sendo feito por funcionários e pessoas contratadas por nós. A região toda ainda tem muitos focos de incêndio. Grande parte desses focos não estão sendo combatidos. É em mata fechada, de difícil acesso”, relata Paukoski.


Visão noturna da floresta incendiada nas proximidades do rio São Benedito, em 10 de setembro. Brigadistas amadores tentavam conter o fogo fazendo aceiros. (Vídeo: Leandro Luiz Paukoski)

 

Sem apoio no combate

Jacareacanga tem 53 mil km², área pouco maior que o estado do Rio de Janeiro, sendo boa parte terra indígena. Localizada às margens do rio São Benedito, a pousada fica distante cerca de 330 km da sede municipal, em linha reta, sem acesso por terra. A base do Corpo de Bombeiros que atende o município é a de Itaituba, distante mais de 500 km, ao norte, também em linha reta.

“Na cidade, nós não temos Corpo de Bombeiros. Nós temos a Defesa Civil, mas não temos uma brigada de incêndio”, pontua o coordenador da Defesa Civil municipal, José Cavalcante. Na semana passada, o Grupamento dos Bombeiros de Itaituba estava em uma operação de combate ao fogo em Novo Progresso, por isso não atuou em outras frentes.

A unidade do Corpo de Bombeiros mais próxima da área em chamas na bacia do São Benedito é o de Alta Floresta, em Mato Grosso. A equipe de lá, com quatro bombeiros, estava, na última semana, em missão na Usina Hidrelétrica de São Manoel, no rio Teles Pires, onde também havia ocorrência de incêndio florestal.

Questionado sobre por que não está apoiando o combate ao fogo nessa área, o Ibama informou que esse tipo de ação em terras privadas é responsabilidade do governo do estado. Em nota, o governo do Pará comunicou apenas que o Corpo de Bombeiros não foi acionado e que, se recebesse chamado, a guarnição de combate a incêndio florestal da Operação Fênix teria atuado junto com militares de Itaituba.

O rio São Benedito, que abriga a reserva estadual de pesca esportiva, possui, de um lado, as terras particulares preservadas que estão queimando. Na outra margem do rio, estão as terras do Campo de Provas Brigadeiro Velloso, base da Força Aérea Brasileira cuja extensão corresponde ao estado de Sergipe. Também não houve ação militar de combate aos focos vizinhos.

O projeto Onçafari, que atua no monitoramento e na conservação de onças-pintadas, mantém uma base nas terras de outra pousada, a Thaimaçu. Conselheiro e vice-presidente do Onçafari, Alexandre Bossi frequenta a região há 20 anos, tem terras preservadas na área e afirma nunca ter visto queimadas nessa proporção ali. 

“Nunca imaginamos que fosse acontecer o que está acontecendo. De fato, é uma tragédia. São áreas de floresta primária. O fogo está lambendo a margem do rio”, conta Bossi.

Biodiversidade perdida

Animais como macacos, pacas e cobras estão sendo mortos pelo incêndio. As consequências para essa área da reserva podem ser difíceis de reverter. “São perdas incalculáveis. Nós estamos dentro de uma área que é transição de Floresta Amazônica para Cerrado. A parte de Cerrado tem muita laje de pedra, é uma região muito arenosa, e a gente não sabe se vão crescer novas árvores ou se não vão”, comenta Paukoski, da São Benedito Lodge.

Paca encontrada em área afetada pelo fogo. Imagem: João Paulo Krajewski

Segundo a professora Marcela Vecchione, do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido, vinculado ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (PPGDSTU/NAEA/UFPA), e integrante do Grupo Carta de Belém, áreas de transição como a que existe entre a Amazônia e o Cerrado são algumas das mais ricas em biodiversidade e onde há a maior presença de espécies. O fogo cumulativo pode levar à degradação da floresta e afetar gravemente a biodiversidade local.

“A floresta existe como um coletivo. Se você começa a queimar uma parte, queimar outra parte, isso vai causando degradação, ou seja, tornando mais baixa a qualidade da conexão entre as espécies, que se reproduzem justamente por causa dessa conexão que se dá pela biodiversidade”, explica a professora.

“Isso é particularmente emergencial nas áreas de transição, onde essa conexão é tão rica, mas ao mesmo tempo é mais frágil, porque é onde esses encontros começam. Se você degrada essa área de transição, você compromete os dois biomas e as conexões que garantem a reprodução da biodiversidade”, conclui Vecchione. 

Nos últimos anos, a presença, principalmente da pecuária, mas também da soja, passou a pressionar a floresta nos arredores. “Antes, a gente voava 35 minutos, de Alta Floresta (MT) pra lá, sendo cinco minutos em fazenda e 30 minutos em área de selva. Hoje, é um minuto de área de selva e, o resto, tudo é fazenda. Você cruza o rio, você já vê mais floresta, mas vê gado e soja no meio da floresta”, descreve uma fonte que prefere não ser identificada.

No município de Jacareacanga, há ainda outras pressões sobre as terras dos povos indígenas Munduruku e Kayabi, como o garimpo ilegal e o complexo de hidrelétricas no rio Teles Pires. Além disso, essa região do Pará integra uma zona cada vez mais suscetível ao desmatamento.

“Não é à toa que esse bico Mato Grosso, sul do Amazonas e Pará está sendo denominado de novo arco do desmatamento. É por onde a fronteira está avançando”, lembra Marcela Vecchione, referindo-se à região de contato entre a vegetação nativa e as atividades predatórias.

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Esta reportagem faz parte do Amazônia Sufocada, projeto especial do InfoAmazonia com o apoio do Rainforest Journalism Fund/Pulitzer Center.

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