Em mais de duas décadas de história, a Hutukara Associação Yanomami (HAY), organização da Terra Indígena Yanomami, elegeu pela primeira vez três mulheres para a diretoria. O momento também foi marcado pela saída do xamã e líder indígena Davi Kopenawa da presidência da instituição, que será ocupada por seu filho, Dário Kopenawa, atual vice-presidente da entidade.
“A voz das mulheres Yanomami vai acontecer, no Brasil, fora do Brasil. A mulherada está começando a lutar.” A frase é de Ehuana Yaira Yanomami, uma das três mulheres que passam a integrar a diretoria da Hutukara Associação Yanomami (HAY), principal organização representativa da Terra Indígena (TI) Yanomami, que se estende por Roraima e Amazonas. Pela primeira vez em 22 anos de história, a organização terá uma diretoria que não é formada exclusivamente por homens, um avanço na participação feminina nos espaços de decisão do movimento indígena.
Essa conquista das mulheres coincide com um momento de renovação na Hutukara. Davi Kopenawa, de 70 anos, liderança reconhecida internacionalmente e xamã de seu povo, decidiu deixar o cargo de presidente, que ocupava desde a criação da associação, em 2004. Assim, os Yanomami viveram outro momento inédito: a realização de uma votação secreta para eleger a nova Presidência e a diretoria. Inspirado no modelo eleitoral não indígena, o processo contou com a formação de duas chapas, a apresentação de propostas e a votação por meio de cédulas depositadas em urna simbólica.
A voz das mulheres Yanomami vai acontecer, no Brasil, fora do Brasil. A mulherada está começando a lutar.
Ehuana Yaira Yanomami
O processo demorou cerca de dois dias, em junho. Em outras ocasiões, a Presidência era escolhida por aclamação, quando não há disputa nem votação formal, e a escolha ocorre pelo consenso ou manifestação coletiva de apoio, ou por meio de votações abertas. As chapas foram representadas pelas cores vermelho e verde, assim, os Yanomami que não são alfabetizados puderam participar. O processo envolveu uma comissão eleitoral formada pelos próprios Yanomami.
“Eu fiquei muito feliz. Não é fácil ainda para nós, porque é nova essa forma de eleger nossos representantes, mas pouco a pouco a gente está aprendendo. Foi muito bom. O mais importante é que essas lideranças que estão aqui entenderam o que é democracia. Então, democracia significa liberdade de cada um escolher”, diz Anselmo Yanomami, um dos integrantes da comissão eleitoral formada pelos próprios indígenas.

A chapa presidida por Dário Kopenawa, filho de Davi que acompanha a atuação política do pai desde a adolescência, recebeu 60 votos e foi eleita; a concorrente, do líder da região Missão Catrimani, Huti Yanomami, teve sete votos. Dário assume a Presidência a partir de 2027, nesse novo momento marcado pela ampliação da participação das mulheres em sua direção.
“Como Hutukara, nós somos uma instituição que denuncia violações de invasores na Terra Yanomami. Nós sofremos ameaças — eu, meu pai, meus colegas —, mas cutucamos as autoridades, direitos humanos, governo federal e jogamos na mídia. Isso [a Hutukara] é uma arma muito importante. Alguns diretores estão nos deixando, mas vamos continuar! Eu estou sofrendo e lutando e não quero largar a minha luta. Nos últimos quatro anos, nós fizemos isso, lutamos”, disse Dário durante a Assembleia.


O trabalho para proteger direitos
A presença de Ehuana na diretoria é mais um espaço na sua atuação. Artista, escritora e uma das principais lideranças Yanomami, ela segue os passos de Davi Kopenawa ao denunciar internacionalmente os impactos do garimpo ilegal sobre os povos Yanomami e Ye’kwana, especialmente na vida das mulheres. Apesar da barreira do idioma, em poucas palavras em português, ela contou à InfoAmazonia que as mulheres são contra o garimpo ilegal no território.
“Queria lutar principalmente para não acabar com os nossos direitos. Agora as mulheres aprenderam a lutar, para lutar junto com homem. Meu tio Davi luta faz tempo, mas ainda não acabaram os garimpeiros. Eles querem aprovar no Congresso Nacional um projeto de mineração”, diz.

Embora ainda poucas mulheres Yanomami falem a língua dos não indígenas, isso não é um empecilho para que Ehuana e outras líderes defendam o território. A artista viaja pelo mundo e conta na sua língua sobre o que acontece dentro da maior terra indígena do Brasil, lar de 34 mil indígenas e que foi assolada pela invasão de garimpeiros ilegais nos últimos anos. “O garimpo trouxe muita doença e nossos irmãos até hoje ficam preocupados. Nossa terra já está furada, estragada. Por isso, não queremos deixar os [garimpeiros] na nossa terra. Todas as mulheradas não querem”, completa.
A chegada de Ehuana e outras mulheres à diretoria é resultado de um processo iniciado há mais de duas décadas pelas próprias mulheres Yanomami. A busca por mais espaço começou a ganhar força antes ainda da criação da Hutukara, em 2002, quando cinco mulheres participaram de um encontro da Organização das Mulheres Indígenas de Roraima (OMIRR) e decidiram organizar um evento para reunir exclusivamente mulheres Yanomami da região do Catrimani, segundo o Instituto Socioambiental (ISA).
Desde então, o encontro se expandiu e agora ocorre anualmente em outras regiões do território para discutir sobre segurança, saúde, geração de renda e outras temáticas de interesse delas. Já em 2015, inspiradas nas discussões sobre participação feminina Yanomami da região do Amazonas, em Maturacá, elas decidiram fundar a Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK) para focar na cadeia produtiva do artesanato da região. Segundo Maria Marques Lopes Assis, secretária da organização, o processo de criação não foi simples, mas avançou com conscientização e articulação com outras associações do território.
“Só assim a gente pode se sentir livre, não é só o homem que leva a política. O que nos incentivou foi perceber que, antigamente, nós, mulheres, não ocupávamos posições de liderança. Ao observar a forma como os não indígenas faziam política, surgiu a ideia de criar a nossa própria associação. Agora, a gente vê o envolvimento das mulheres”, conta.

O que nos incentivou foi perceber que, antigamente, nós, mulheres, não ocupávamos posições de liderança. Ao observar a forma como os não indígenas faziam política, surgiu a ideia de criar a nossa própria associação.
Maria Marques Lopes Assis
Mas o protagonismo das mulheres vai além. Na assembleia que elegeu a nova diretoria neste ano, elas abriram a programação com cantos e danças tradicionais e também participaram das discussões sobre os rumos da associação e da Terra Indígena Yanomami. No dia a dia, estão na linha de frente das comunidades: cuidam da roça, das crianças e produzem artesanato.
Agora, além de ocuparem cargos na diretoria, elas passarão a contar com um Departamento de Mulheres na estrutura da Hutukara. As integrantes serão escolhidas durante o próximo Encontro de Mulheres Yanomami, que acontece até o final deste ano. Embora a associação já desenvolva iniciativas voltadas ao público feminino, esta será a primeira vez que contará com um setor permanente dedicado às suas demandas, como o fortalecimento do protagonismo feminino, a promoção da saúde das mulheres e a geração de renda por meio do artesanato.


“A gente não tinha essa noção de colocar uma mulher para ajudar dentro [da Hutukara] a fortalecer a política das mulheres, né? Então, a gente pensou muito sobre isso e tomou conhecimento disso. Nós sonhamos e pedimos permissão”, disse Dário Kopenawa. Na cosmovisão Yanomami, os sonhos são um importante canal de comunicação com espíritos protetores da floresta. “É importante! A mulher tem direito de participar das reuniões, encontro das mulheres e estar em outros estados para falar da violação das mulheres. Elas têm autonomia para falar”, enfatiza.
‘Tem uma flecha com meu filho‘
Davi Kopenawa é reconhecido internacionalmente pela defesa dos direitos indígenas, encabeçou a campanha pela demarcação da Terra Indígena Yanomami, em 1992, e, desde a criação da Hutukara, transformou a organização em uma das principais vozes de denúncia contra o garimpo ilegal e seus impactos sobre os povos Yanomami e Ye’kwana: Povo indígena que vive entre o Brasil e a Venezuela, com língua, cultura e organização social diferente dos Yanomami, apesar de habitarem o mesmo território..
Por essa bagagem única, ele ocupará uma posição simbólica na associação, a de presidente de honra, função que também foi votada durante a assembleia. Para Davi, a participação das mulheres fortalece a associação e a defesa do território. Ele afirma que a experiência será construída ao longo do caminho e diz que continuará apoiando esse processo. “Mulher tem direito de defender, mulher tem coragem de falar e mulher tem palavra forte, falam a verdade. Achei muito bonito e forte, vi, apoiei! Vou continuar dando apoio”, afirma.

Questionado sobre quais os planos após mais de duas décadas à frente da luta Yanomami, Kopenawa é direto: “tenho que trabalhar no meu roçado para ter comida na nossa comunidade, essa que é a minha ideia”, disse à InfoAmazonia. “Primeiro tem que abrir o roçado e plantar macaxeira, banana, cana, cará, tudo o que a gente come. Depois, se tiver algo muito importante, um convite para mim, eu venho”. Mas antes disso, deixou conselhos para quem vai continuar segurando o que ele chamou de “flecha” da luta.
“Eu não vou abandonar você [Dário], não. É muito difícil a briga entre políticos, nós não temos amigos políticos em Boa Vista e em nenhum lugar, então eles vão enfrentar muito, mas não vou deixar eles sofrer não. Tem uma flecha com meu filho e com meu sobrinho [Ênio Yanomami], o vice-presidente, são dois. Estão armados com a boca, armados para falar contra políticos, contra garimpeiros, contra mineração, marco temporal e outros invasores”, explicou.
Tem uma flecha com meu filho e com meu sobrinho [Ênio Yanomami], o vice-presidente, são dois. Estão armados com a boca, armados para falar contra políticos, contra garimpeiros, contra mineração, marco temporal e outros invasores.
Davi Kopenawa

‘Não queremos o projeto de mineração’
Se a eleição marcou uma nova etapa para a organização, ela também ocorreu em meio à atenção da comunidade internacional sobre a situação Yanomami. Durante a assembleia, representantes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH): Órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA) responsável por promover e proteger os direitos humanos nas Américas. dialogaram com lideranças indígenas e conheceram os desafios enfrentados pelo povo Yanomami diante do avanço do garimpo.
A CIDH esteve no Brasil para uma visita de trabalho para o processo de elaboração do Relatório Regional sobre Mineração Ilegal de Ouro na Amazônia e no Escudo Guianense. A delegação foi liderada pelo relator especial Javier Palummo, especialista em direitos humanos e vice-presidente do Comitê Consultivo do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Na ocasião, os Yanomami frisaram o posicionamento contra os projetos que tramitam no Congresso Nacional e no Senado a favor da mineração em terras indígenas.
“Nós todos, Yanomami aqui de Roraima, não queremos o projeto de mineração, porque isso faz o povo sofrer. Esses projetos que estão sendo feitos lá no Congresso Nacional são muito perigosos. Nas décadas passadas, muitos dos nossos anciãos morreram. Nós, Yanomami, não queremos que isso continue. Não queremos mais morrer. Queremos a nossa terra livre da mineração e dos garimpeiros”, diz Sumaya Yanomami, indígena de Palimiú, uma das regiões mais afetadas pelo garimpo ilegal.


Entre os Projetos de Lei está o PL nº 6050/2023, que trata sobre a permissão de atividades econômicas nos territórios, como exploração mineral e de petróleo. Atualmente, o PL de autoria do senador Márcio Bittar (União-AC) tramita na Comissão de Serviços de Infraestrutura.
As lideranças também denunciaram a persistência do garimpo ilegal no território, apesar da redução recente da atividade. Segundo relatório do Instituto Socioambiental lançado em maio deste ano, em parceria com o Monitoring of the Andes Amazon Program (MAAP), programa da Amazon Conservation que monitora o desmatamento e os incêndios na Amazônia por meio de imagens de satélite, a degradação provocada pelo garimpo caiu de cerca de 1.800 hectares em 2022, ano de maior impacto registrado, para 45,2 hectares em 2025.
O monitoramento é feito todos os meses com imagens de satélite analisadas por especialistas em geoprocessamento. A partir dessas imagens, eles identificam e delimitam as áreas degradadas pelo garimpo. Como denunciado pelas lideranças durante a assembleia, o documento indica que os invasores alteraram a forma de atuar devido ao aumento no número de operações contra o garimpo ilegal, lideradas pela Casa de Governo em Roraima, órgão criado pelo governo federal em fevereiro de 2024 para concentrar as ações de desintrusão da atividade no território.
Agora, eles se concentram em áreas próximas à fronteira com a Venezuela e em pontos mais dispersos no interior da floresta. Os Yanomami também questionam a impunidade dos garimpeiros presos em operações, mas que são soltos pela Justiça brasileira. A InfoAmazonia questionou o Ministério Público Federal sobre quantos processos resultaram em prisão preventiva, mas não obteve retorno.
“Isso é muito absurdo! Matam as crianças, matam os Yanomami. Por que não são presos?”, pergunta Dário Kopenawa. “A legislação é bem clara: invasores de terras indígenas que foram demarcadas não podem invadir, não podem pegar nenhuma madeira, vai ser preso legalmente. Eu não consigo entender.”
A sensação de impunidade relatada pelas lideranças Yanomami tem explicação na legislação brasileira. De acordo com o procurador da República do Ministério Público Federal (MPF) em Roraima, Alisson Marugal, os garimpeiros flagrados dentro da Terra Indígena Yanomami costumam responder por crimes ambientais e pelo crime de usurpação de bens da União, infrações que, na maioria dos casos, não resultam em prisão preventiva.
“O garimpeiro é preso em flagrante, levado à Polícia Federal, mas geralmente é solto na audiência de custódia. A legislação, como está hoje, dificilmente permite que ele permaneça preso apenas por ter sido identificado dentro do território indígena”, afirma. Segundo ele, embora a pena máxima prevista seja de cinco anos, ela costuma ser convertida apenas em medidas cautelares, como o comparecimento periódico à Justiça e uso de tornozeleira eletrônica para casos específicos.
A intenção dos relatos ao CIDH é que o Estado brasileiro seja responsabilizado pela omissão de socorro aos Yanomami, especialmente entre os anos de 2018 e 2022, quando houve aumento nos casos de malária e desnutrição entre os indígenas, levando ao decreto de saúde em emergência no território ocorrido em 20 de janeiro de 2023. Durante a assembleia, as reivindicações em relação à saúde, segurança e educação também foram apresentadas a representantes do governo federal, como Casa de Governo e Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Imagem de abertura: Mulheres Yanomami se apresentam durante 8ªAssembleia Ordinária da Hutukara Associação Yanomami. Foto: Samantha Rufino
Esta reportagem foi produzida com o apoio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), no âmbito do Programa de Mentoria para Mulheres Jornalistas da Amazônia Legal, e contou com mentoria de Cristina Serra, jornalista e apresentadora da TV Brasil.