Gabriel Ferreira, liderança indígena da juventude no Amajari (RR), foi encontrado morto em fevereiro deste ano. Uma das hipóteses da Polícia Civil é que ele morreu devido à um acidente de trânsito, seguido de ataque de formigas, mas movimento indígena contesta.

Comunidades indígenas de Roraima iniciaram, nesta segunda-feira (6), a 6ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) local, em Amajari, a 150 km de Boa Vista. Com o tema “Quem matou Gabriel? Mexeu com um, mexeu com todos”, a mobilização cobra que a morte do líder do povo Wapichana, Gabriel Ferreira, encontrado morto na rodovia RR-203, seja investigada na esfera federal. 

O corpo de Gabriel foi localizado por moradores da região em 10 de fevereiro, após 10 dias de desaparecimento, no mesmo município onde ocorre o ATL. Ele era coordenador regional da juventude de Amajari e atuava na luta por direitos territoriais, educação e saúde indígena.

No ATL, as lideranças indígenas cobram mais rigor na apuração do caso e contestam a condução pela Polícia Civil, que trabalha com duas hipóteses principais: morte acidental ou homicídio. 

Ao apresentar os laudos periciais ao Conselho Indígena de Roraima (CIR) e à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em março deste ano, a Polícia Civil indicou que os elementos analisados apontam maior compatibilidade com um acidente de trânsito, ocorrido na rodovia RR-203, seguido de um ataque de formigas tucandeiras, o que teria causado dor intensa, pânico e desorientação em Gabriel.

No entanto, oficialmente, a causa da morte foi classificada como indeterminada. A Polícia Civil também não encontrou indícios de ameaças no celular da vítima. Apesar disso, o caso segue em apuração, já que há elementos do caso que não foram resolvidos, como o sumiço dos anéis que Gabriel usava.

“O Acampamento Terra Livre vem especificamente reivindicar justiça pelo fato ocorrido […] A gente não concorda com o posicionamento da Polícia Civil que diz que Gabriel foi morto por acidente seguido por ataque de formiga e desorientação. Isso é inadmissível! No estado onde as lideranças são ameaçadas a todo momento, a gente não tem como concordar com isso”, disse o vice tuxaua geral do CIR, Paulo Ricardo, do povo Macuxi à InfoAmazonia.

A gente não concorda com o posicionamento da Polícia Civil que diz que Gabriel foi morto por acidente seguido por ataque de formiga e desorientação. Isso é inadmissível! No estado onde as lideranças são ameaçadas a todo momento, a gente não tem como concordar com isso.

Paulo Ricardo, vice tuaxaua do Conselho Indígena de Roraima.
Paulo Ricardo, do povo Macuxi, vice tuxaua geral do Conselho Indígena de Roraima. Foto: CIR/Divulgação

Com os laudos apresentados pela Polícia Civil, o CIR pediu à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal (MPF) para atuarem no caso e também deve realizar uma análise independente. Lideranças argumentam que o líder da juventude foi assassinado. À InfoAmazonia, o MPF disse que o caso é acompanhado pelo Ministério Público do Estado de Roraima (MPRR), mas que deve solicitar o inquérito do caso à Polícia Civil.

“O acesso aos autos servirá para que o órgão possa analisar o caso e adotar as providências cabíveis dentro de sua esfera de atribuição. No âmbito federal, foi instaurado procedimento para monitorar a segurança e a proteção dos direitos coletivos das comunidades indígenas da região de Amajari”, completou.

De acordo com o diretor do Instituto de Criminalística, Sttefani Ribeiro, a investigação analisou diferentes hipóteses. “Os vestígios mais relevantes apontam para a possibilidade de acidente. Ainda assim, não é possível descartar de forma definitiva a hipótese de homicídio, que permanece, embora com menor grau de plausibilidade”, afirmou à Polícia Civil.

O movimento indígena detalha que o celular e a moto de Gabriel foram encontrados a cerca de 250 metros de distância do ponto em que o corpo foi localizado, já sem camisa, sem calça e sem calçados, trajando apenas cueca e meia. Por conta disso, eles pedem esclarecimentos completos do caso. 

Mobilização ocorre no município de Amajari, região em que Gabriel Ferreira morava e foi encontrado morto. Foto: CIR/Divulgação

O ATL reúne cerca de 800 pessoas, das regiões do Baixo Cotingo, Serra, Alto Cauamé,  Tabaio, Amajari, Wai Wai, Murupu, Serra da Lua, Raposa, Alto Miang e Itacutu, em Roraima. Em Uiramutã, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, comunidades também se mobilizam. A programação, que inclui debates, palestras, exposição de artesanatos e apresentações culturais, segue até o dia 12 de abril.

“Nosso movimento é um movimento pacífico e político do estado de Roraima, bancado e apoiado pelas comunidades indígenas, pelas regiões que se organizam da melhor forma possível”, explicou o vice tuxaua.

O ATL em Roraima ocorre em paralelo ao Acampamento Terra Livre em Brasília, maior mobilização indígena do país, que tem como tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”. Cerca de 30 lideranças indígenas de Roraima também estão na capital federal para a manifestação.


Imagem de abertura: ATL em Roraima reúne cerca de 800 pessoas, no município de Amajari. Foto: CIR/Divulgação

Sobre o autor
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Samantha Rufino

Jornalista roraimense formada pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e editora-assistente na InfoAmazonia. Atua em jornalismo ambiental, com experiência em reportagem e comunicação comunitária.

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