Associação indígena e Casa de Governo, órgão federal estruturado para combater o garimpo e a crise sanitária, confirmam a presença de invasores na comunidade Yarina, onde uma criança morreu da doença. Infectologista diz que não é possível estabelecer relação direta, mas que presença de garimpeiros favorece a disseminação de vírus respiratórios entre indígenas.

Garimpeiros estiveram na comunidade Yarima, na região de Surucucu, na Terra Indígena (TI) Yanomami, cerca de uma semana antes da confirmação dos primeiros casos de coqueluche. A informação é do presidente da Urihi Associação Yanomami, Waihiri Hekurari, e da Casa do Governo, órgão federal criado para centralizar as ações de combate ao garimpo e à crise sanitária no território.

“Nós temos informações de que garimpeiros chegaram uma semana antes das primeiras crianças serem resgatadas. A gente suspeita que seja por isso [os casos de coqueluche], porque essas comunidades são muito distantes e eles nem estão indo para Boa Vista. Essa comunidade fica pelo menos cinco dias andando do centro de Surucucu”, diz o líder indígena. Ele conta que agentes federais chegaram a ir ao local, mas os invasores conseguiram fugir.

A gente suspeita que seja por isso [os casos de coqueluche], porque essas comunidades são muito distantes e eles nem estão indo para Boa Vista. Essa comunidade fica pelo menos cinco dias andando do centro de Surucucu.

Waihiri Hekurari, presidente da Urihi Associação Yanomami.

Já a Casa de Governo confirmou à InfoAmazonia que uma operação foi realizada na comunidade em 11 de janeiro, quando foram destruídos materiais e estruturas usados no garimpo ilegal. 

O órgão também disse que as ações de combate à atividade ilegal são permanentes. Sobre a fuga dos invasores, argumentou que, “em áreas remotas da TIY, é comum que pessoas envolvidas na atividade ilegal abandonem ou se desloquem diante da aproximação das equipes de fiscalização”.

Até 28 de fevereiro, três crianças Yanomami haviam morrido em decorrência da doença. Uma delas era da comunidade onde foi relatada a presença de garimpeiros. Desde o início do ano, 20 crianças, incluindo bebês de um ano, foram diagnosticadas com a doença — 15 delas moram na TI Yanomami, segundo boletim epidemiológico obtido pela InfoAmazonia.

A maior parte dos registros ocorreu na região de Surucucu, no município de Alto Alegre (RR). Foram identificados 14 casos nas aldeias de Xiothu-U, Aracic, Watho-U, Yarima, Sétimo Bis, Hewethew e Napeta. Outro caso foi confirmado no município de Iracema (RR), na Aldeia Xahipiu. Todas as comunidades fazem parte da Terra Yanomami.

Os cinco casos restantes são de crianças de fora do território: três de Boa Vista, nos bairros Jóquei Clube e Mecejana, além de uma criança em situação de rua, e dois na região de Gran Sabana, na Venezuela. Ao todo, 18 dos 20 casos confirmados são entre indígenas, segundo a classificação por raça do levantamento. O boletim, no entanto, não detalha a qual povo pertencem os demais registros.

Os pacientes são atendidos no Hospital da Criança Santo Antônio (HCSA), em Boa Vista (RR), única unidade pública de saúde pediátrica de Roraima. Dos casos, 10 pacientes foram considerados curados e quatro receberam alta médica. A InfoAmazonia questionou a prefeitura de Boa Vista, responsável pela unidade, sobre a atualização dos casos, mas não obteve retorno.

“Desde que a gente soube, a gente já alertou o Ministério da Saúde, pressionamos por esses resgates e para mandar equipe de reforço, vacinação, fazer a campanha. A Funai [Fundação Nacional dos Povos Indígenas] foi. Mandaram helicópteros para vacinar todas essas comunidades. Por enquanto, dentro de Surucucu os Yanomami pararam de procurar o hospital. Então, acho que deu resultado”, explicou o líder indígena.

A InfoAmazonia também questionou o Ministério da Saúde para saber se há rastreamento para identificar como o surto começou, se existe possível relação com os invasores e pediu atualização do número de casos confirmados entre os Yanomami até terça-feira (9). Contudo, a pasta não respondeu até a última atualização da reportagem.

O Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI-YY) informou que estruturou um plano emergencial de vacinação contra a coqueluche, com a realização de uma força-tarefa para ampliar a cobertura vacinal nas comunidades, com apoio da Força Nacional de Segurança Pública. Na comunidade de Yarima, indígenas foram vacinados contra a coqueluche.

Garimpeiros, vacinação e infecção

A coqueluche é uma infecção respiratória causada por uma bactéria (Bordetella pertussis). A transmissão ocorre principalmente por gotículas respiratórias liberadas quando uma pessoa infectada tosse, espirra ou fala, especialmente em situações de contato próximo. Os sintomas incluem tosse seca, vômitos e dificuldades para respirar. A principal forma de prevenção é a vacinação.

Para Gerson Salvador, infectologista do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP), não é possível estabelecer uma relação direta entre o encontro da comunidade com os invasores e os casos de coqueluche. Ainda assim, ele avalia que o garimpo influencia “a disseminação de vírus respiratórios” entre os indígenas.

“O tempo de incubação da coqueluche é até de 21 dias, mas é muito difícil a gente afirmar [que os garimpeiros transmitiram a doença] e fazer uma linha direta. Com certeza a disseminação de vírus e bactérias de transmissão respiratória favorece quando há contato com agentes externos. Ainda mais no cenário em que a cobertura vacinal está baixa no Brasil como um todo”, destacou.

Ponto de garimpo ilegal a 15km de uma comunidade de povo indígena isolado, os Moxihatëtë thëpë. Crédito: Leo Otero / MPI

Outro fator importante, segundo o infectologista, é a baixa cobertura vacinal no território. De acordo com a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), até 2025, 57,8% das crianças da TI Yanomami com menos de um ano tinham o esquema vacinal completo, que inclui a imunização contra a doença. Em 2022, o percentual era de 29,8%. Salvador explica que o índice ainda está abaixo do ideal para garantir a imunidade de rebanho, que impede a circulação da doença. 

“É um território que está em risco. Se houver uma imunização de 95% da população, seja em território Yanomami ou em qualquer outro, sabe-se que a bactéria não vai circular. Mas, com 57,8% da população imunizada, a bactéria tende a circular e, infelizmente, pode causar casos fatais entre os mais vulneráveis, especialmente crianças pequenas.”

É um território que está em risco. Se houver uma imunização de 95% da população, seja em território Yanomami ou em qualquer outro, sabe-se que a bactéria não vai circular. Mas, com 57,8% da população imunizada, a bactéria tende a circular e, infelizmente, pode causar casos fatais entre os mais vulneráveis, especialmente crianças pequenas.

Gerson Salvador, infectologista do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP)

O boletim epidemiológico informa que a bactéria causadora da coqueluche foi identificada isoladamente em 11,8% dos casos. Em outros 27,5%, apareceu associada a vírus respiratórios, indicando que muitas crianças estavam com mais de uma infecção ao mesmo tempo. Os dados sugerem que diferentes agentes infecciosos podem estar circulando simultaneamente durante o surto, o que exige monitoramento constante e ampliação da testagem.

Em 5 de março, o secretário nacional de saúde indígena Weibe Tapeba esteve em Boa Vista para o lançamento da tafenoquina para crianças, um medicamento contra a malária que deve atender pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Em entrevista à InfoAmazonia, argumentou que um dos desafios da assistência à saúde, incluindo a vacinação no território Yanomami, é a dificuldade de acesso às comunidades.

“É uma complexidade envolvendo logística. Estamos falando de melhorar a capacidade assistencial, reabrir polos que estavam fechados, tem ainda cenário de insegurança em algumas comunidades, mas temos buscado realizar o que a gente chama de busca ativa nas comunidades indígenas e também olhando pelo lado da imunização”, disse.

É uma complexidade envolvendo logística. Estamos falando de melhorar a capacidade assistencial, reabrir polos que estavam fechados, tem ainda cenário de insegurança em algumas comunidades, mas temos buscado realizar o que a gente chama de busca ativa nas comunidades indígenas e também olhando pelo lado da imunização.

Weibe Tapeba, secretário nacional de saúde indígena.

Para o secretário, os casos confirmados de coqueluche mostram que as ações de saúde precisam “avançar cada vez mais”. De acordo com a pasta, 1.855 profissionais atuam atualmente na TI Yanomami, e outros 50 foram enviados após a confirmação dos casos para reforçar o atendimento. Durante a força-tarefa contra a doença, entre 13 de fevereiro e 4 de março, 1.247 indígenas foram imunizados.

“Nós dobramos a nossa capacidade de cobertura vacinal e mesmo assim teve a coqueluche. Nós precisamos ampliar ainda mais a vacinação e garantir que ela chegue no maior número de indígenas. Envolve também a contratação dos agentes de saúde indígena e intérpretes para facilitar nessa relação com as nossas equipes de saúde”, explicou Tapeba.

Além da vacinação, as medidas incluem a interrupção da transmissão por meio da busca ativa de casos, investigação e confirmação diagnóstica, coleta de material para análise clínica e oferta de quimioprofilaxia: uso preventivo de medicamentos para evitar que uma pessoa desenvolva uma doença após exposição a um agente infeccioso a pessoas que tiveram contato com infectados.

‘Falhou em planejar’

Tapeba também atribuiu a baixa cobertura vacinal em algumas áreas às “inseguranças” no território. Questionado sobre quais seriam, o secretário citou a presença de invasores e conflitos internos entre os indígenas: “é natural também que haja divergências, disputas, como acontece na sociedade, mas isso acaba também impactando um pouco a nossa estratégia da capacidade assistencial na Terra Indígena”.

No entanto, Waihiri rebateu a afirmação. O presidente da associação Urihi disse que nenhuma das comunidades com casos confirmados enfrenta conflitos internos. A Casa de Governo nega que comunidades tenham deixado de receber vacinação por problemas de segurança.

“Não tem uma explicação, não tem conflitos nessas comunidades. Os conflitos que têm são em outros lugares. Por exemplo, a minha comunidade fica a 300 metros da unidade de saúde e ainda tem pessoas que não foram vacinadas. Então, o próprio Ministério da Saúde falhou em planejar e fazer ações para ter vacinas nas comunidades”, disse o líder indígena.

Em fevereiro, a Urihi e a Hutukara Associação Yanomami (HAY) enviaram ofícios para os órgãos competentes para solicitar dados e medidas sanitárias adequadas para o combate da doença. Desde segunda-feira (9), o Centro de Operações Yanomami (COE-Y), estrutura da Sesai que coordena ações de saúde e envio de alimentos,  instituiu medida de controle temporário de acesso ao território, com isso fica autorizada apenas a entrada de equipes de saúde, segurança e da Funai “desde que observados os protocolos de triagem sanitária vigentes”.

“A gente tem observado algumas movimentações, como a mobilização da Força Nacional do SUS atuando na região. Só que se trata de uma população muito vulnerável, e as medidas ainda não foram suficientes. Não quer dizer que não houve avanços em relação à situação anterior, que era de completo abandono e de indicadores muito desesperadores. Mas, ainda assim, as medidas adotadas não chegaram a um patamar de eficiência”, disse Salvador.

Maior terra indígena do Brasil, o território Yanomami fica entre os estados do Amazonas e Roraima e abriga cerca de 33,8 mil pessoas dos povos Yanomami, Ye’kwana, Xiriana, Xirixana e Sanumá. Eles são considerados indígenas de recente contato. Na última década, enfrentaram o aumento desenfreado do garimpo ilegal, que causou aumento de casos de malária e desnutrição, principalmente entre crianças e idosos. Em 2023, o governo federal declarou emergência sanitária no território e, desde então, realizou uma série de ações de combate ao garimpo e de assistência à saúde.


Imagem de abertura: Casos de coqueluche foram confirmados em crianças com até 12 anos de idade. Foto: Jerônimo Gonzalez/Ministério da Saúde

Sobre o autor
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Samantha Rufino

Jornalista roraimense formada pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e editora-assistente na InfoAmazonia. Atua em jornalismo ambiental, com experiência em reportagem e comunicação comunitária.

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