Segundo Lago, essa proposta não foi perdida, mas será apresentada à parte pelo Brasil, que deve ser trabalhada nos próximos meses, em paralelo. 

Em entrevista exclusiva ao Amazônia Vox, o presidente da COP30 André Corrêa do Lago adiantou que o mapa do caminho para longe dos combustíveis fósseis, pedido por Lula ainda na Cúpula dos Líderes e endossado por mais de 80 países, ficou de fora do documento final da COP30. Segundo Lago, essa proposta não foi perdida, mas será apresentada à parte pelo Brasil, que deve ser trabalhada nos próximos meses, em paralelo. 

Texto final deve ser apresentado neste sábado (22). Foto: Márcio Nagano/ Amazônia Vox

Após horas de negociação, por volta das 8h20 da manhã do sábado (22), depois de uma madrugada inteira em reuniões com delegações, André deixou a sala do secretariado da presidência da COP com semblante feliz. Na exclusiva, ele relatou:

“O que entra, por outro lado, é financiamento e adaptação, outros tópicos-chave desta conferência. Após uma noite e madrugada intensa de negociações, os resultados devem ser apresentados em plenária a partir das 10h30 do sábado (22). Eu acho que a gente vai ter aprovação de muitos documentos por volta das 10h30. Agora são 8h10 da manhã e estamos na sala desde madrugada, mas eu acho que um resultado, se conseguir 195 países concordarem com a quantidade de documento que a gente aprovou, eu acho que vamos demorar para explicar tudo o que foi feito, mas eu acho que foi muito bom e os países colaboraram muitíssimo. O Roadmap nós vamos anunciar, vai ser uma iniciativa da presidência brasileira, e ainda temos onze meses para tocar” [entrevista exclusiva ao diretor executivo do Amazônia Vox, Daniel Nardin].

Evans Davie Njewa, delegado do Malawi, revelou ainda que foi fechado um “pacote neutro”, ressaltando o compromisso de enviar financiamento para operações até 2035 e a necessidade de colaboração para aumentar a ambição da mediação, visando alcançar a estabilidade de 1,5%. Além disso, de acordo com ele, concordaram em melhorar a cooperação em questões comerciais relacionadas ao processo, incluindo as medidas levantadas pelos Estados Unidos e outros países.

Foto: Daniel Nardin/Amazônia Vox

Expectativas para o texto final

Na versão anterior dos textos, o mapa do caminho (roadmap) para longe dos combustíveis fósseis já havia sumido, assim como outro “roteiro” requisitado por Lula para o fim do desmatamento. Esse apagamento das pautas provocou reações de cientistas, negociadores e ambientalistas.

Países como a Colômbia, Panamá e membros da União Europeia (UE) reagiram ao “esvaziamento” dessas pautas. Segundo Daisy Dunne, editora associada do Carbon Brief, 92 países estão  apoiando o pedido por um roteiro de desmatamento nesta COP, incluindo a UE e um grupo de mais de 50 nações de floresta tropical, a “Coalizão das Nações com Florestas Tropicais” (CFRN). Se confirmada a informação, o número seria maior até mesmo que a lista de 82 países que expressaram apoio ao roteiro de combustíveis fósseis no início desta semana. Para Carolina Pasquali, diretora executiva do Greenpeace Brasil, o mais importante não era ter um resultado rápido, mas ambicioso: “Ainda há tempo. Hoje, não deveríamos nos apressar para finalizar a COP, mas sim para fazer o que for preciso para que ela seja bem sucedida”, declarou na sexta-feira.

O que entrou nesse rascunho de sexta (21), por outro lado, foram os indicadores de adaptação – em linhas gerais, são métricas para acompanhar o progresso de ações para reduzir a vulnerabilidade aos impactos das mudanças climáticas. O pacote de documentos do rascunho apresentava 59 indicadores. “A gente esperava muito que os indicadores viessem nesta COP e veio à tona. Esse foi um dos grandes entraves dentro das negociações”, contextualiza Lygia Nassar, diretora adjunta e gestora de sustentabilidade e projetos do Laboratório da Cidade.

Para ela, sob a perspectiva de um país em desenvolvimento, ter esses indicadores é fundamental para ter capacidade técnica para implementar as ações de adaptação climática. “No texto, a gente tem vinculado que os países desenvolvidos irão ter esse repasse de recursos financeiros para os países em desenvolvimento, além do repasse de capacidade técnica e a transferência de tecnologia. Isso está sinalizado no texto, precisamos aguardar para entender se vai se manter ou não”, analisa Lygia, que também participa do Comitê COP30.

Segundo a gestora do Laboratório da Cidade, o grande objetivo da adaptação é a redução da vulnerabilidade, entendendo os contextos nacionais e as características demográficas socioeconômicas – o que está incorporado na proposta atual. “Ainda não conseguimos fazer uma avaliação muito profunda de cada indicador, mas eles parecem estar muito amplos, não tem tanta profundidade dentro deles, então o que se propõe é haja um ciclo de dois anos para ter um refinamento dentro das metas globais da adaptação”, aponta. Agora, resta esperar novidades das negociações para saber o que exatamente entrará ou não no documento final – e como.


Esta reportagem foi produzida por Amazônia Vox, por meio da Cobertura Colaborativa Socioambiental da COP 30. Leia a reportagem original aqui.

Ainda não há comentários. Deixe um comentário!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gift this article