Postado emVisualização de dados / COP em Mapas

O petróleo é nosso? Empresas americanas dominaram último leilão de blocos na margem equatorial brasileira 

Em julho, 19 blocos de exploração de petróleo foram arrematados na costa da Amazônia; todos têm participação de empresas dos Estados Unidos e, mais da metade, da China.

O fotógrafo Victor Moriyama retratou, junto ao repórter Fábio Bispo, a presença dominante da ExxonMobil na Guiana. A reportagem da série especial “Até a Última Gota” mostra como a exploração de petróleo naquela parte da margem equatorial amazônica não trouxe o desenvolvimento prometido aos guianenses, mas criou uma dependência do Estado em relação ao dinheiro da petroleira americana. No cotidiano, a influência da empresa é onipresente em bonés e óculos com a marca, enquanto são bombardeados por sua publicidade a todo o momento. 

Não é exagero afirmar que esse capítulo recente da Guiana influenciou o leilão realizado na parte brasileira da margem equatorial. Em julho, a mesma petroleira ExxonMobil arrematou, junto com a também americana Chevron, 19 blocos para exploração na Amazônia brasileira. A operação dessas áreas será sempre dividida com a estatal chinesa CNPC ou com a Petrobras.

O principal argumento pró-petróleo no Brasil é, claro, o desenvolvimento da região em que acontece a exploração. O exemplo da Guiana mostrou um aumento de mais de 60% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022, três anos após o início da extração do petróleo. O dado isolado gerou boas manchetes sobre a Guiana, sendo citada como o “país que mais cresce no mundo”, mesmo que isso não tenha reverberado na criação de empregos para a população local. A taxa de desemprego permaneceu praticamente a mesma na região.

Enquanto isso, no Brasil, a vontade de explorar petróleo é um elefante na sala — ou melhor: à mesa de negociação da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). Em seu discurso na 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, no final de setembro, o presidente Lula (PT) defendeu que a “corrida por minerais críticos, essenciais para a transição energética, não pode reproduzir a lógica predatória que marcou os últimos séculos”. 

COP EM MAPAS

Este é um dos episódios da série COP em Mapas da InfoAmazonia, que traz dados sobre a COP30. Veja mais mapas que explicam o clima e a COP aqui.

Mas a menção de Lula à transição energética ficou por aí. O mesmo vale para a “lógica predatória”, que, para o presidente, parece se aplicar apenas aos minerais críticos — e não às empresas estrangeiras que devem extrair petróleo em uma das áreas mais sensíveis da Amazônia, próxima a manguezais e ao Grande Sistema de Recifes Amazônicos. 

Enquanto isso, a equipe do governo federal mantém o tema dos combustíveis fósseis em banho-maria. A colaboradora da InfoAmazonia, Tais Gadea Lara, chegou a conversar com o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, sobre o tema. Ele reconheceu o assunto como um dos mais importantes da agenda de ação, mas atribuiu o mesmo peso de temas como “as florestas, a agricultura, as cidades e o financiamento”. Vale lembrar que as emissões da queima de combustíveis fósseis são o principal fator de liberação de gases de efeito estufa no planeta

Lago chegou, inclusive, a questionar o motivo de se retomar o tema na conferência:

“Alguns países queriam que a questão dos combustíveis fósseis fosse retomada na negociação. Por quê? Isso já foi aprovado universalmente. Todos nós já decidimos que vamos fazer a transição para longe dos combustíveis fósseis”, afirmou o presidente da COP30.

Alguns países queriam que a questão dos combustíveis fósseis fosse retomada na negociação. Por quê? Isso já foi aprovado universalmente. Todos nós já decidimos que vamos fazer a transição para longe dos combustíveis fósseis.

André Corrêa do Lago, presidente da COP30

Ele até ponderou que a COP30 poderia apresentar um cronograma, avançar um pouco mais: “o que pode ocorrer na negociação é, por exemplo, definir um cronograma ou regras sobre como essa transição será feita — se será por tipo de país, por qual combustível virá primeiro, etc”.

Mas, encerrou dizendo: “não podemos manter o mundo esperando por negociações para seguir em frente. Não é verdade que dependemos disso”. 

Por enquanto, tudo indica que a exploração de petróleo segue uma prioridade para o Brasil e, principalmente, das empresas estrangeiras.

Sobre o autor
Avatar photo

Carolina Dantas

Carolina Dantas é editora da InfoAmazonia e jornalista ambiental desde 2015. Anteriormente, trabalhou na Folha de S.Paulo, Globo e Grupo RBS. Em 2022, recebeu o título de alumni do Departamento de Estado...

Avatar photo

Carolina Passos

Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela USP, faz parte da Unidade de Geojornalismo da InfoAmazonia. Trabalha com análise de dados geoespaciais, experimentações cartográficas e visuais em projetos...

Avatar photo

Renata Hirota

Jornalista e estatística, faz parte da Unidade de Geojornalismo da InfoAmazonia. Trabalha com jornalismo de dados desde 2017, analisando dados ambientais, sobre política e tecnologia.


10 comentários encontrados. Ver comentários
Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

10 comments

  1. Esse é o governo do amor e do bem! Põe em risco meio ambiente, mas com amor! Mente sempre, em todos aspectos, mas é com amor! Vai falir a Petrobrás novamente, mas é com amor! Está implantando uma ditadura brutal, mas com amor! Viva o amor! Parabéns a todos inocentes incautos que fizeram o L!

  2. Esse é o governo do amor e do bem! Põe em risco meio ambiente, mente sempre, em todos aspectos, vai falir a Petrobrás novamente, mas é tudo com amor! Está implantando uma ditadura brutal, mas com amor! Viva o amor! Parabéns a todos inocentes incautos que fizeram o L!

  3. 19 blocos vendidos(ou tomados) pelos EUA; 10 à Petrobras e 9 à China…
    E imbecís brasileiros, traidores da Pátria, não conseguem sequer imaginar a pressão e ameaças que levaram a isto!

  4. O petróleo retirado é brasileiro não importando q empresa vai retirá-lo. Além do mais, a Petrobrás nao consegue retirar tudo sozinha, daí os leilões com as demais multinacionais interessadas.

  5. Em todo business, quem morde a maior fatia do bolo são as empresas com maior recurso e essas empresas são estrangeiras devido a organização dos países de origem devido a incrntivos, equilibrio financeiro, politicas de incentivos etc. Você já parou pra entender por quê não temos uma empresa brasileira fazendo parte do cenário de Oleo & Gas? A resposta é simples, a política econômica do Brasil não entende que o incentivo ao empreendedor é lucro pra União e lucro pra sociedade. Pra União, vai gerar impostos e taxas para sustentar a máquina pública, para a sociedade vão gerar empregos e pesquisas de novas tecnologias. Simples não é? Mas hoje só temos a Petrobras que realiza um trabalho de excelência, ela entrega lucros para o Governo Federal e é aí que mora o perigo. Pra onde vai esse lucro? Como é gerido esses trilhões de dólares que a Petrobras entrega anualmente à União? Pois é, a administração pública que envolve politica e interesses é que nos faz tropeçar e ver o trem passar nesse momento em que poderíamos ter a maior fatua desse bolo. Vejam os CORREIOS, será que é um mal negócio? Por que fecha no negativo? Por que o Governo vai pegar empréstimo nos bancos privados? Então, antes de falar de o estrangeiro é malvadão, tente entender um pouco os bastidores, eles apenas estão mais organizados do que nós, pobres tupiniquins do amor.

  6. O PAÍS PRECISA DESSE DINHEIRO. TODOS SABEM QUE EXISTE ESSA RIQUEZA LÁ. MAS A PETROBRÁS TEM QUE ENTRAR COMO SÓCIA E NÃO DEVE LEILOAR AS ÁREAS. PQ, VAI ACONTECER COMO A MAIOR PARTE DO PRÉ-SAL, PEGA O DINHEIRO DOS LEILÕES E O PAÍS NÃO PARCIPA DESSES LUCROS , COMO ACONTECE , POR EXEMPLO COM A BP EM SANTOS . COMPROU E SÓ PAGARÁ 5%, DEPOIS QUE TIRAR TODAS AS DESPESAS PARA ADQUIRIR E PERFURAR.

  7. Bom pelo menos agora as ONG e o Ibame já começaram a Liberar as Licenças de exploração, porque seus patrões os EUA , já tiveram o tempo de se posicionar estrategicamente comprando os Blocos , e jogando a Petrobras para segundo plano ,

  8. Felizmente o recurso.natural será usado para o bem comum. De.que adianta ficar sentado num barril de ouro pedindo esmola. A Engenharia Ambiental já desenvolveu métodos seguros de exoracão das riquezas naturais agredindo minimamente o meio ambiente. E ninguém criticando a agressão à natureza na producão dos carros elétricos.

  9. Não se esqueçam que a Petrobrás já deteve blocos de exploração de petróleo na Venezuela, Argentina, Bolívia, Colômbia, São Tomé e Príncipe, Angola, Namíbia e África do Sul
    As operações brasileiras na Venezuela foram abandonadas por falta de licença da OFAC Office of Foreing Assets Control (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros) do departamento de tesouro norte-americano que administra sanções
    O interessante é que apenas a petroleira norte-americana Chevron ainda tem uma licença ativa

Deixe um comentário

Gift this article