Com base em 43 indicadores sociais sobre temas como saúde, educação, sustentabilidade e liberdade, a ONG Imazon construiu o Índice de Progresso Social (IPS) de cada um dos 772 municípios da Amazônia brasileira. Ao contrário de outras métricas – como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que também buscam verificar o desenvolvimento social –, o IPS deixa de lado variáveis econômicas para sua composição. “Progresso social não é a mesma coisa que crescimento econômico. Eles andam juntos, mas não há uma correlação”, explica o pesquisador Adalberto Veríssimo, responsável pelo estudo.

O IPS, usado pelo Imazon, foi criado pelo economista Michael Green, diretor executivo da Social Progress Imperative. O índice é hoje aplicado em todo o mundo pela organização e seus parceiros. Para entender melhor a estruturação da medição, assista esta palestra de 15 minutos com o economista (legendas disponíveis em português).

Confira abaixo o mapa com os dados e os principais trechos da entrevista que Adalberto Veríssimo concedeu ao InfoAmazonia.


InfoAmazonia entrevista: Adalberto Veríssimo, pesquisador do Imazon

Olhando para estas três dimensões do IPS – acesso a oportunidades, fundações do bem-estar e necessidades básicas humanas – me chamou atenção que, nessa dimensão de oportunidades, a diferença parece ser um pouco maior. É neste tema de oportunidades onde a Amazônia mais está atrás da média brasileira?

Adalberto Veríssimo, pesquisador do ImazonA Amazônia ainda tem, relativamente, menos universidades, menos pessoas matriculadas por habitante. Então não surpreende o fato de que o acesso à educação superior tenha uma performance abaixo do que seria desejável. É certo que uma das condições para a Amazônia, que todo mundo reconhece, é aumentar a densidade de conhecimento. É preciso gerar conhecimento aqui de qualidade. Assim que tivermos uma melhoria nessa área, esse componente vai melhorar.

No tema de direitos individuais, liberdade individual e escolha, a Amazônia tem um problema crítico que é a questão da gravidez na infância e adolescência. É um problema crônico e isso é um limitante. As mães precoces no interior da Amazônia têm tolhidas sua possibilidade de ascensão – estão em uma condição social de gravidez indesejada, precoce, são chefes de família e os maridos não estão presentes. Isso revela uma série de problemas que limitam a liberdade individual das mulheres.

Mas estes resultados não surpreendem. Aliás, eu diria que nenhum indicador negativo surpreende. A gente imaginava que a Amazônia estaria à parte do Brasil e isso se confirmou.

Se fosse possível balancear uma opinião entre o que está causando esta situação na Amazônia, você diria que é uma falta de governo ou é o modelo econômico? Qual seria uma causa para atacar primeiro?

No relatório a gente não trabalhou com causas para saber o que de fato leva a Amazônia a ter essa performance. A gente achou melhor que o relatório fosse o mais isento possível. Mas é possível tirar algumas conclusões. Primeiro que o IPS está muito relacionado com cidades. No geral, o IPS é maior nas capitais e nas cidades de médio porte. Esse é um fator que explica por que as pessoas estão mudando para a cidade, onde você tem um acesso aos elementos de maior desenvolvimento social, embora nas cidades as pessoas tenham o problema da segurança.

Também a gente observou que cidades de colonização mais antiga tendem a ter um IPS maior porque os serviços sociais já estão para uma população mais estável, são fronteiras consolidadas, não tem mais aquela violência por disputa da terra…

Outra coisa: Não tem um padrão que diga que o desmatamento ou a presença da floresta melhora o IPS. Ou seja, não há nenhuma prova de que, ao desmatar e fazer “do boom ao colapso, o boom faça as cidades melhorarem o seu IPS. A gente tem casos de municípios no Mato Grosso em que houve desmatamento e o IPS hoje é maior, mas a correlação é fraca, porque ela só se explica para alguns municípios.

A gente também fez uma análise sobre os municípios que fazem mais com menos. Santarém é um bom exemplo de município que está lá atrás em termos de renda per capita, mas consegue ter uma performance social melhor do que a renda per capita explicaria. Parauapebas, Canaã e Ourilândia, por exemplo, têm uma renda per capita relativamente maior que Santarém, mas o IPS destes municípios está lá atrás. Eles não estão conseguindo traduzir renda per capita em progresso social, mostrando que progresso social não é a mesma coisa que crescimento econômico. Eles andam juntos, mas não há uma correlação.

É preciso ter um cuidado ainda maior com essas regiões que têm muita floresta e baixo progresso social, porque haverá sempre uma tentação desses municípios de trocar a floresta por uma ilusão de que o desmatamento e as atividades ilegais vão trazer progresso social. A gente mostra que isso não acontece.

Vocês estão fazendo uma agenda de apresentações disso? Estão encontrando prefeitos, governantes e afins para discutir?

Pela primeira vez, os governantes têm na frente um mapa. É como se estivesse em uma aeronave e você sabe exatamente, no radar, onde estão seus pontos vermelhos, o que você precisa melhor em relação aos municípios que estão na mesma situação que a sua, de uma maneira muito amigável.

A gente apresentou no ano passado para o governo federal e outros governos – Acre, Mato Grosso, Maranhão e Pará. No caso do Pará, o governador reeleito, Simão Jatene, já em novembro chamou uma conversa dizendo que gostou bastante do IPS, considerava uma ferramenta extremamente poderosa do ponto de vista de gestão. Ele também disse que gostaria de adotar o IPS como uma ferramenta de gestão do Governo do Pará já em janeiro. De janeiro até abril, houve uma série de oficinas internas, em que o IPS foi apresentado os secretários das áreas sociais do governo. Eles estão usando o IPS para orientar os investimentos que eles vão fazer na área social nos próximos quatro anos. Isso está em curso já. Isso vai estar concretizado no projeto plurianual, que vai orientar os investimentos dos próximos quatro anos.

O grande experimento que está acontecendo é aqui no Pará. A gente já fez o IPS dos municípios da Amazônia – foi o primeiro relatório subnacional do mundo – e agora essa experiência do Pará saiu na frente. A Rede de Progresso Social no mundo está olhando com muita atenção essa experiência aqui.

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