Este ano – que teve início em agosto de 2014 e vai até julho de 2015 – já conta com 2765 km² em áreas apontadas pelos alertas de desmatamento do Deter, o Sistema de Detecção em Tempo Real de Alteração na Cobertura Florestal do Inpe.

por Stefano Wrobleski

A depender dos dados divulgados na última quinta-feira (28) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o ano-calendário de medição do desmatamento da Amazônia Legal de 2015 deve bater 2014 em áreas devastadas da floresta. Este ano – que teve início em agosto de 2014 e vai até julho de 2015 – já conta com 2765 km² em áreas apontadas pelos alertas de desmatamento do Deter, o Sistema de Detecção em Tempo Real de Alteração na Cobertura Florestal do Inpe. O número representa 90% dos 3036 km² de alertas verificados entre agosto de 2013 e julho de 2014.

Com a entressafra da soja se aproximando e a chegada do inverno (um período com baixa intensidade de chuvas) na maior parte da Amazônia Legal, a tendência é que os dados consolidados para 2015 mostrem um aumento do desmatamento em relação ao ano anterior, já que os meses de maio a julho costumam ser um período crítico para o corte raso. Para se ter uma ideia, metade da área de 3036 km² em alertas de desmatamento verificada pelo Deter entre agosto de 2013 e julho de 2014 ocorreu no período de maio a julho.

Os dados do Deter, no entanto, devem ser vistos como tendência, já que só detectam supressões de floresta em áreas com mais de 25 hectares (ou 0,25km²) e são limitados pela cobertura de nuvens, que dificultam a observação. Em março deste ano, por exemplo, 70% da Amazônia estava coberta quando o satélite do sistema sobrevoou sobre o bioma. Por conta destas limitações, desde 2005, foram duas as ocasiões em que os números de alertas do Deter subiram enquanto a taxa do Prodes – um balanço de desmatamento mais preciso que é publicado anualmente – sofreu redução em relação ao ano anterior.

Mato Grosso segue liderando desmatamento
Com a mudança do calendário de divulgação de alertas de desmatamento, em vigor desde novembro de 2014, os dados divulgados na última quinta-feira pelo Inpe contam somente com informações gerais da Amazônia até abril deste ano. Os detalhes, como os locais exatos onde houve devastação de floresta, foram publicados desta vez até janeiro de 2015.

Até então, no período de seis meses entre agosto de 2014 e janeiro de 2015, o Mato Grosso continuava sendo o estado campeão do desmatamento na Amazônia, respondendo por 909km² de florestas devastadas. A área equivale ao tamanho do município de São Luís do Maranhão e abarca 41% dos 2.215km² de alertas de desmatamento verificados até a data pelo Deter.

Quatro dos cinco principais municípios do estado com maior devastação da Amazônia (Colniza, União do Sul, Feliz Natal e Cláudia) seguem o eixo da BR-163. A estrada é um importante vetor de escoamento de soja, gado e madeira e corta o Brasil de norte a sul, ligando o Pará ao Rio Grande do Sul.

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Povo Xavante em risco
Apesar de ter sido homologada em 1998 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, a Terra Indígena Marãiwatsédé ainda é alvo de intrusões. Localizada no noroeste do Mato Grosso e no centro de uma nova fronteira do monocultivo de soja, os 1.650km² do território – uma área equivalente ao município do Rio de Janeiro – são cobiçados por fazendeiros, que continuam invadindo a terra do povo Xavante.

Em seis meses, povo Xavante perdeu mais 89km² de suas florestas em Marãiwatsédé (Foto: MPF)

Em seis meses, povo Xavante perdeu mais 89km² de suas florestas em Marãiwatsédé (Foto: MPF)

Em apenas seis meses, entre agosto de 2014 e janeiro de 2015, foram devastados 89km² de florestas dentro de Marãiwatsédé (ou 5,4% da área), fazendo desta terra indígena a que mais perdeu matas em toda a Amazônia no período, em números absolutos, de acordo com dados do Deter. As outras 17 terras indígenas que tiveram desmatamento detectado pelo sensor somam 24km² de perdas.

Os Xavante foram removidos forçadamente de sua terra em 1966, durante a ditadura militar, em um projeto do governo de colonização da região. Depois do período de exceção e após intensa pressão internacional, a Fundação Nacional do Índio (Funai) iniciou, em 1992, os estudos para demarcar a área.

Em 1995 o Ministério Público Federal já pedia, na Justiça, a desintrusão da área. Mas o processo só teve decisão final em 2012, quando a Força Nacional foi acionada para retirar os não-índios de Marãiwatsédé, que significa “mata fechada” no idioma dos Xavante. A mata, no entanto, continua sendo derrubada, com as repetidas invasões à terra.

Desde o início da série histórica, em maio de 2004, o Deter já detectou uma destruição de 840km² de florestas (ou quase metade de toda a terra indígena). Desta área, 196km² foram devastados somente depois de dezembro de 2012, quando já não deveria haver mais nenhum branco em Marãiwatsédé.

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