Declaração dada ao New York Times nesta terça-feira, 22, contraria tudo o que o presidente eleito dos Estados Unidos falou durante a campanha sobre o clima

Por Vandré Fonseca

O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, finalmente falou sobre o Acordo de Paris. É a primeira vez que toca no assunto desde que foi eleito, em 8 de novembro. “Eu estou olhando de muito perto. Eu tenho uma mente aberta para isto”, afirmou durante uma conversa com editores e repórteres do New York Times, na tarde desta terça-feira.

Presidente eleito dos EUA tem "mente aberta" para Acordo de Paris. Foto: Gage Skidmore/Flickr

Presidente eleito dos EUA tem “mente aberta” para Acordo de Paris. Foto: Gage Skidmore/Flickr

Embora as duas frases não esclareçam muita coisa, já soam melhor do que a promessa feita algumas horas antes, em pronunciamento divulgado no YouTube, em que fala de planos para os 100 primeiros dias de governo. No vídeo, o futuro presidente americano afirmou que vai suspender restrições à produção de energia por queima de carvão ou gás de xisto para gerar empregos “bem remunerados” para os americanos.

O argumento de que o excesso de regulação aos combustíveis fósseis tem contribuído com o desemprego nos EUA é, aliás, contraditório, já que a queda no preço desses combustíveis é o que tem sido apontada como responsável pelo corte de empregos no setor no país.

Com a promessa, Trump aumentou as expectativas de que as metas de Barack Obama em reduzir as emissões americanas em 30% até 2025, como parte do Acordo de Paris, estão indo para além da estratosfera.

E não se trata de nenhuma novidade. A eleição de Trump já havia provocado apreensão na Conferência da ONU sobre mudanças climáticas (COP22), realizada no Marrocos neste ano, devido a declarações dadas antes e durante a campanha eleitoral. Em 2012, por exemplo, o presidente eleito dos EUA chegou a dizer que o aquecimento global seria um “mito”, uma invenção para prejudicar a economia americana. “O conceito de aquecimento global foi criado por e para os chineses, para que a indústria manufatureira americana não seja competitiva”, escreveu em seu Twitter.

Em outra oportunidade, afirmou: “Nova York está congelante, está nevando. Nós precisamos do aquecimento global!”.

A agência Reuters chegou a publicar uma notícia, sem identificar a fonte, de que a equipe de transição já estudava uma maneira de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris. Mas pouco se tinha ouvido da boca do próprio Trump sobre o assunto. Infelizmente, ele demonstrou em poucas palavras que está disposto a sacrificar acordos internacionais em nome de “bons empregos” para os americanos.

Em uma projeção feita antes da eleição pela Lux Research, uma empresa de pesquisas e desenvolvimento de estratégias que se apresenta como independente, uma eventual vitória de Trump reverteria a tendência atual de redução de emissões de gases de efeito estufa pelos Estados Unidos, o segundo maior emissor do mundo, atrás apenas da China.

Eles estimam que a vantagem de Trump sobre Hillary Clinton e uma possível reeleição dele representaria um aumento de 16% nas emissões de gases de efeito estufa, resultando no equivalente a 3,4 bilhões de toneladas de carbono a mais na atmosfera ao final de 8 anos. Mas a Lux Research considera que, a despeito da resistência de Trump, algumas tendências devem ser mantidas.

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O carvão deverá se manter em segundo plano em relação ao gás natural obtido a partir do folhelho. Com a retirada de restrições ao fracking, o preço do gás natural vai se manter mais competitivo do que o carvão, segundo a avaliação da empresa. Para a Lux Research, a inovação é um fator importante, que não seria afetado pela escolha nas urnas. A indústria está interessada em reduzir as emissões para manter margens operacionais competitivas em níveis globais.

No discurso publicado no YouTube ou na entrevista ao New York Times, Trump não falou nada sobre promessas de deixar o Acordo de Paris – um dos compromissos de campanha. Há quem pondere as dificuldades que ele vai enfrentar, devido a prazos e exigências para quebrar o Acordo de Paris. A torcida é para que ter a “mente aberta” signifique ouvir o que praticamente todos os cientistas afirmam e aceitar a necessidade de combater o aquecimento do planeta.