Um grupo de 12 meios da América Latina publica um editorial conjunto no primeiro dia deste ano de 2019 para fazer um chamado para reforçar o compromisso do jornalismo com a cobertura e a investigação de questões relacionadas à sustentabilidade.

Onde quer que olhemos hoje no mundo, há sinais de desastre ambiental. Na atmosfera, depositamos milhões de toneladas de CO2 que estão gerando um aquecimento da temperatura média global que poderia ultrapassar o limite de 2 graus celsius no final deste século. Nos oceanos, esse excesso de dióxido de carbono aumenta a acidez das águas e destrói os recifes de corais, colocando em risco a sua existência. Nestes mesmos mares, uma ilha de plástico três vezes maior que a França flutua para nossa vergonha, e também deles a indústria pesqueira extrai toneladas de espécies marinhas todos os dias.

O impacto do homem e a extração de recursos continua em terra firme. As florestas as estamos destruindo em um ritmo acelerado e ao fazê-lo liberamos mais CO2 na atmosfera do planeta. Alteramos os padrões de chuva, reduzimos a biodiversidade, encurralamos povos indígenas que habitam esses territórios durante séculos, e, ao mesmo tempo, conseguimos eliminar para sempre espécies de plantas e animais que a ciência não teve tempo para observar e conhecer. Na Amazônia, as máfias criminosas envenenam os rios com toneladas de mercúrio para extrair o ouro que acaba alimentando as refinarias da Europa, Ásia e Estados Unidos.

Nossa espécie está destruindo árvores e animais antes que possamos descobri-los e nos maravilhar com eles. Insetos, o começo da cadeia alimentar de todos os seres vivos, estão desaparecendo com terríveis conseqüências.

Segundo a Agência Internacional de Energia, desde 1990 o uso de combustíveis fósseis aumentou. Embora a produção de petróleo tenha crescido em um ritmo mais lento entre 1990 e 2017, a produção de carvão dobrou no mesmo período, especialmente na China. Mesmo investimentos em energia limpa foram feitos com uma racionalidade puramente econômica e sob um manto de corrupção. Um estudo publicado em 2017 na revista científica Plos One, prevê que a construção de apenas seis represas poderá alterar o ciclo de vida dos rios amazônicos. Estamos provocando um apocalipse a partir do qual, mais cedo ou mais tarde, seremos vítimas.

O naturalista britânico David Attenborough (Inglaterra, 1926) resume esta situação claramente, tem dito e repetido o mais claramente possível: “Neste momento, estamos diante de um desastre de escala global produzido pelo homem. Nossa maior ameaça em milhares de anos é a mudança climática, se não agirmos, o colapso de nossas civilizações e a extinção de uma grande parte do mundo natural está no horizonte.”

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicado há pouco nos adverte que o desastre é iminente se não fizermos algo hoje. O documento preparado por um grupo de cientistas referência em todo mundo têm mensagens para todos, de governantes até o último cidadão comum: cada pequena elevação da temperatura importa, cada ano que passa é crucial, cada decisão que tomamos terá consequências no futuro próximo. Temos menos de 10 anos para interromper a intensidade com a qual emitimos gases para a atmosfera.

Os diagnósticos não são mais válidos. Mesmo de números e relatórios, saturamos o planeta. É hora de agir.

Todo ser humano no planeta também tem uma responsabilidade. Enquanto um jovem holandês inventou um método para coletar o plástico do oceano, dezenas de ambientalistas e líderes indígenas dão suas vidas todos os anos pela proteção de florestas e outros recursos naturais em todo o mundo. Alguns empresários renovam a esperança subvertendo a maneira tradicional de fazer negócios para integrar a natureza em suas contas e balanços. Nos laboratórios, reinventam-se as formas de produzir energia, desde a fusão nuclear que imita a energia do sol até os painéis solares de última geração, os motores a hidrogênio. Também vemos o renascimento de costumes simples e perdidos, como o uso de fibras naturais para substituir materiais não biodegradáveis.

O jornalismo não é um setor isolado frente a esta responsabilidade. Os jornalistas de todo o continente têm um profundo compromisso de entender que todo o planeta deve avançar para um modelo diferente de crescimento e desenvolvimento. Uma mudança que, sem dúvida, será atravessada por conflitos, mas também por novas esperanças e oportunidades. Por trás das migrações em massa que aparecem todos os dias nas nossas páginas e telas, por trás dos protestos dos coletes amarelos em Paris e o negacionismo bombástico de alguns líderes globais parece estar o mesmo fenômeno: a sociedade global decantando seu maior desafio desde que os primeiros homens deixaram a África há 200 mil anos.

O compromisso do jornalismo com este momento é histórico, é necessário questionar a nós mesmos e nos perguntar se realmente estamos fazendo o suficiente. Como nunca antes na história, temos as melhores ferramentas para comunicar informações em escala global e em velocidades tão rápidas quanto um raio de luz. Chegou a hora de agir, e o jornalismo deve ser capaz de fazer com que ações necessárias para interromper a catástrofe de que já fomos avisados aconteçam. O tempo está se esgotando.

Meios que assinam
Ojo-Público (Perú), InfoAmazonia (Brasil), Mongabay Latam, El Espectador (Colombia), Semana Sostenible, Cuestión Pública (Colombia), Distintas Latitudes, Lado B (México), El Surtidor (Paraguay), El Deber (Bolivia), Correo del Caroní (Venezuela), GK (Ecuador), La Mula (Perú), El Desconcierto (Chile), Onda Local (Nicaragua), Actualidad Ambiental (Perú), Wayka (Perú), Red de periodistas de a pie (México), Zona Docs (México), Trinchera de Guerrero (México), Raíchali (México)