Mudanças climáticas terão efeitos diversos ao longo da Bacia Amazônica, indica previsão realizada com base em análises do IPCC

Por Vandré Fonseca (texto e fotos)

Flutuante serve de porto para canoas no interior do Amazonas. Mudanças nos rios podem causar impactos sobre comunidades ribeirinhas. Foto: Vandré Fonseca

Flutuante serve de porto para canoas no interior do Amazonas. Mudanças nos rios podem causar impactos sobre comunidades ribeirinhas

As mudanças climáticas vão causar efeitos diferentes e até opostos sobre o volume de águas ao longo da Bacia Amazônica. Apesar de divergências em resultados para regiões específicas, cenários construídos com base em análises do Painel Internacional para Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) apontam para uma quantidade maior de água nas parte ocidental da Amazônia, enquanto no leste a disponibilidade de água deve diminuir.

Estes resultados estão em um estudo publicado na revista Climate Change. O artigo faz parte da Iniciativa Águas Amazônicas, liderada pela Wildlife Conservation Society (WCS), que está preocupada com a manutenção da conectividade entre os sistemas aquáticos da região, importantes para a sobrevivência de comunidades e da vida silvestre. O estudo contou com a infraestrutura do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

“Percebemos um padrão de aumento de chuvas, vazões máximas e áreas inundadas nos rios que drenam a parte oeste da bacia. E por outro lado, uma projeção de menor disponibilidade hídrica no leste da bacia”, afirmou Rodrigo Cauduro Dias de Paiva, que deu entrevista via internet ao lado do colega Mino Sorribas, ambos da UFRGS, salientando que o estudo demonstrou ainda a existência de muitas incertezas nas projeções.

Conforme o estudo, com o aumento da descarga de grandes rios que drenam os Andes Orientais no noroeste da Amazônia, inundações em áreas úmidas do Peru e ao longo do rio Solimões, já em território brasileiro, devem ser mais extensas. Um cenário contrastante com a previsão para outras regiões da Amazônia, que deverão ficar mais secas.

De acordo com o artigo, a vazão dos rios – principalmente na estação seca – prevista para as bacias ocidentais, como Madeira e Tapajós, deve diminuir, reduzindo também a extensão das inundações nessas regiões. No Rio Branco, que banha Roraima no extremo norte da bacia, também há previsão de redução no volume de água.

Canoa navegando por rio da Amazônia

Mino Sorribas: “Grandes ecossistemas de águas doces, como a Bacia Amazônica, fornecem serviços essenciais a milhões de pessoas, incluindo água e comida, mas também regulam o clima e os pulsos de inundação”

Os pesquisadores destacam a importância do estudo para a região Amazônica, dependente de rios e áreas alagáveis. Eles lembram que águas, além de interferirem na subsistência de comunidades espalhadas ao longo das margens de rios e dependentes da pesca, afetam também sistemas de transporte e produção de energia. A isto tudo soma-se a vida silvestre e espécies da flora.

A Bacia Amazônica é responsável por aproximadamente 15% da água doce despejada nos oceanos no mundo. As águas são responsáveis por regular ciclos de nutrientes, carbono e metano na região. “Grandes ecossistemas de águas doces, como a Bacia Amazônica, fornecem serviços essenciais a milhões de pessoas, incluindo água e comida, mas também regulam o clima e os pulsos de inundação”, afirma Sorribas.

Os resultados foram obtidos por meio de simulações feitas em computador, com modelos hidrológicos capazes de representar vazões de rios e dinâmica das áreas de inundação da Bacia Amazônica. Para Rodrigo Paiva, as descobertas são coerentes com a ocorrência de cheias e secas mais extremas na região nas últimas décadas.

“Mas precisamos lembrar que esses resultados são apenas projeções”, ressalta Viana, que faz ainda um alerta: “Como as projeções são muito incertas, existe a necessidade de preparação da sociedade e atividades econômicas ligadas a água para um futuro mais incerto. Além disso, é necessário investimento em monitoramento ambiental e pesquisa para melhorar a capacidade preditiva de modelos hidroclimáticos e diminuir essa incerteza sobre o futuro”, conclui.

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