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Pecuária torna área protegida no Xingu campeã das queimadas

sex, 04 de setembro de 2020

Unidade de Conservação campeã de queimadas em todo o Brasil, APA Triunfo do Xingu fica em município com o maior rebanho bovino do país, com mais de dois milhões de cabeças de gado. O fogo também avança sobre estação ecológica vizinha. Imagem de abertura: queimada no dia 1º de setembro dentro da área da APA, onde o terreno dificulta combate ao fogo. Foto: Joel Silva/GCIF Bombeiros.

por Guilherme Guerreiro Neto, de Belém (PA)

A Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, localizada nos municípios de São Félix do Xingu e Altamira, no Pará, foi a unidade de conservação da Amazônia que mais queimou em agosto, com 49,60% do total de focos entre todas as unidades federais e estaduais, no bioma. E o fogo continua em setembro, mantendo a APA no topo do ranking de quantidade de incêndios em unidades de conservação no país.

“Nós estamos combatendo todos os dias focos de incêndio aqui. A maioria dessas queimadas está acontecendo em pastagem. Aí, da pastagem sobe a serra e vai queimando. As serras aqui são um desafio muito grande pro Corpo de Bombeiros, devido nós não estarmos operando com helicóptero, somente por terra. A subida (do terreno) com o equipamento pesado dificulta muito”, relata o subtenente Joel Silva, que comanda a Guarnição de Combate a Incêndios Florestais (GCIF) em São Félix do Xingu, dentro da Operação Fênix do Corpo de Bombeiros.

A relação do fogo com as pastagens não é à toa. São Félix do Xingu é o município com o maior rebanho bovino do Brasil, tendo quase 2,3 milhões de cabeças de gado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Enquanto a média do país apresenta uma proporção de pouco mais de uma cabeça de gado, por habitante, em São Félix do Xingu, a equivalência é de cerca de 17 bovinos, para cada pessoa.


No mapa, passe o mouse sobre as área para ver gráfico com a evolução desde 2004 da pecuária em cada município – São Félix do Xingu está à direita, em marrom escuro. Clique sobre os ícones para obter informação sobre os frigoríficos em atividade na Amazônia.


A Pesquisa da Pecuária Municipal 2018, lançada no ano passado, aponta que, enquanto o rebanho havia diminuído 0,7% no país, em São Félix, seguia crescendo.

Essa pressão da pecuária também ocorre dentro da área de proteção ambiental. O fogo, nesse caso, é usado tanto para limpar e renovar pastagens, quanto para expandir áreas e abrir novos pastos para o gado.

Raimundo Freire, presidente da Cooperativa Alternativa Mista dos Pequenos Produtores do Alto Xingu (Camppax), já viu as queimadas chegarem no entorno de sua produção de cacau, que fica na APA. Precisou se mobilizar para evitar que o fogo invadisse.

“As nossas lavouras aqui estão muito ameaçadas. Quem tem cacau não quer saber de fogo, quem produz castanha, também. Quem mexe com pecuária extensiva que é mais propício ao fogo”, conta Freire.

Zona de amortecimento

A APA Triunfo do Xingu é uma unidade de conservação estadual com 1,6 milhões de hectares que existe há 14 anos. Integra o mosaico de áreas protegidas da Terra do Meio, criado após pressão gerada pelo assassinato da missionária Dorothy Stang, em fevereiro de 2005, em Anapu.

O mosaico envolve 10 áreas protegidas, entre unidades de conservação de proteção integral, unidades de conservação de uso sustentável e terras indígenas.

“O propósito mais significativo naquele momento era tentar amenizar a violência. E, como o desmatamento estava chegando em locais onde a biodiversidade era muito grande, criaram o mosaico. Só que existia um pedaço de alto conflito, que é a APA Triunfo do Xingu. A APA serviu como zona de amortecimento pras unidades de conservação mais restritivas do mosaico da Terra do Meio”, explica Dilson Lopes, gerente da região administrativa do Xingu do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-bio).


Play: os limites da APA Triunfo do Xingu  ficam cada vez mais evidentes, observando-se a mudança da cobertura florestal nos últimos 35 anos, em contraste com a área de floresta conservada nas unidades de proteção integral e terras indígenas do entorno. Localizada à direita da imagem, a APA é desmatada, ano a ano, avançando sentido oeste, por estradas não oficiais que vão ao encontro de caminhos estabelecidos na região de Novo Progresso. Imagem: Google Earth Timelapse

 

Do ponto de vista da gestão de conflitos sociais, Lopes considera que a APA tem avançado bastante. Mesmo assim, o medo da violência ainda é real, o que muitas vezes impede que haja denúncias sobre os responsáveis por queimadas e desmatamento ilegal.

“Aqui é um pouco complicado até de se fazer uma denúncia. É muito perigoso. Você não tem nenhuma proteção, não tem nada. Fazer denúncia aqui é a mesma coisa que você botar sua vida em jogo”, revela Raimundo Freire.

Os incêndios não se restringem à área de proteção ambiental, que é uma das categorias menos restritivas de unidades de conservação brasileiras, podendo acomodar uma gama ampla de atividades socioeconômicas, desde que obedeça um plano de manejo. As queimadas também são identificadas com frequência no interior da Estação Ecológica (Esec) da Terra do Meio, unidade de conservação de proteção integral, que deveria ser de acesso controlado e restrito, localizada no centro do mosaico.

Estação Ecológica da Terra do Meio

A proximidade com a APA acaba sendo um fator de pressão sobre a Esec. Em agosto deste ano, a estação ecológica foi a segunda colocada em número de focos, entre as UC de proteção integral, em todos os biomas brasileiros (com 904 focos, segundo o satélite S-NPP/VIIRS).Na comparação com agosto do ano passado houve um aumento de cerca de 3% no número de focos.

“A gente mapeia junto com o pessoal da Secretaria de Meio Ambiente e vê que existem focos demais nessa área. A gente tá avançando. Mas, infelizmente, não tem avançado muito lá pra dentro, devido ter muitos focos aqui também próximo da cidade”, diz o subtenente Silva.

Há três anos o Instituto Socioambiental (ISA) faz o monitoramento da Bacia do Xingu. Segundo Ricardo Abad, analista de geoprocessamento do Programa Xingu do ISA, existem áreas abertas há algum tempo e frentes novas avançando sobre a Esec da Terra do Meio. Lá aparecem pequenos desmatamentos, depois vem o fogo, que tem relação com grilagem e também com a pecuária.

A pressão envolve alguns ramais que invadem a estação ecológica, em direção ao rio Iriri e à Floresta Estadual do Iriri. Há interesses por estabelecer ligação por terra até a BR-163, o que ameaçaria ainda mais as áreas preservadas. 

Esec da Terra do Meio: área queimada (imagens Sentinel 2) e desmatamento (SIRAD X). Imagens: Instituto Socioambiental, 2020

“A intenção desse pessoal é se conectar com Novo Progresso. Seria a tal da Transgarimpeira, que sai de Novo Progresso e tem um lado que vai pra Floresta Nacional do Jamanxim e outro lado que vai pra Floresta Estadual do Iriri e pra Esec, até chegar na APA. Esse pessoal está querendo fazer essa ligação com a BR-163 e, se isso acontecer, vai ser uma tragédia, porque vai quebrar a conectividade do corredor ecológico, que vem desde as terras indígenas do Xingu, no Mato Grosso, até a Volta Grande do Xingu”, explica Abad.

Fortalecer proteção ambiental

Até hoje, a APA Triunfo do Xingu não tem plano de manejo, documento que toda unidade de conservação deveria ter para definir zonas com diferentes graus de proteção e regras de uso. Segundo Dilson Lopes, só recentemente foi enviado o termo de referência para contratação de empresa para elaborar o plano. O Ideflor-bio mantém na APA ações de recomposição de áreas desmatadas com sistemas agroflorestais, além de construção de viveiros.

Lopes indica passos fundamentais para fortalecer a proteção ambiental na unidade: “Se a gente conseguir regularização fundiária, regularização ambiental, recomposição de áreas que já foram degradadas e incentivo a cadeias menos degradantes, a gente teria, nos próximos cinco anos, o início de um processo de diminuição do desmatamento na APA Triunfo do Xingu”.

Brigadistas combatem incêndio na área da APA Triunfo do Xingu. Foto: Joel Silva/GCIF Bombeiros

Além dos danos ao meio ambiente, as queimadas na APA e no município de São Félix, como um todo, atingem a saúde das pessoas. “A fumaça é muito intensa. Todo cidadão aqui de São Félix do Xingu tá respirando fumaça”, diz o produtor de cacau Freire.

Calamidade pública

A incidência de problemas respiratórios por conta do fogo adiciona uma dificuldade no combate local à pandemia do novo coronavírus.

“Tá tendo muito isso. Casos de problemas respiratórios que não são Covid. Devido a queimadas, devido a mudanças do clima, porque aqui é muita poeira e agora começou um pouco de chuva. A gente tá observando muitos casos de crianças que vão pra atendimento como caso suspeito e é descartado como Covid”, conta a coordenadora de vigilância em saúde de São Félix do Xingu, Eliene Medeiros.

Até 3 de setembro, o município contabilizava 1.693 casos de Covid-19 e 16 mortes. Na semana passada, foi declarado estado de calamidade pública em São Félix do Xingu por conta da pandemia. De acordo com o Departamento de Expediente da Assembleia Legislativa do Pará, já são 99 municípios paraenses em estado de calamidade.

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Esta reportagem faz parte do Amazônia Sufocada, projeto especial do InfoAmazonia com o apoio do Rainforest Journalism Fund/Pulitzer Center.

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