: A pandemia do Covid-19 em Iauareté no Alto Rio Negro

A pandemia do Covid-19 em Iauareté no Alto Rio Negro

qua, 05 de agosto de 2020

Disseminação do Covid-19 pelos agentes de saúde do DSEI e as formas locais de tratamento baseadas no bahsese (benzimentos) e em plantas medicinais.

por Gabriel Sodré Maia*

No noroeste da Amazônia brasileira, fronteira Brasil-Colombia, existe uma pequena mais importante “cidade indígena” chamada Yaiwa poeya (Cachoeira da Onça) ou Distrito de Iauareté. Esta é uma região de ocupação histórica e anciã dos povos Tukano, Tariano, Piratapuia, Dessano, Tuyuka, Arapasso, Uanano e Peorã, isto é, uma terra dos falantes da língua Tukano Oriental.

Embora a pandemia tenha surgido inicialmente na China, e só depois chegado ao Brasil, em pouco meses avançou no Estado do Amazonas e rapidamente no interior, e nas comunidades indígenas. Diante desse fenômeno, os velhos começaram a recordar dos tempos em que houve a pandemia avassaladora do sarampo e da coqueluche, em que houve muita mortes de seus entes queridos.

O senhor Moisés Maia, por exemplo, na companhia da sua esposa, e seus três filhos pequenos, naquela época, fizeram muito betise para não perder nenhum dos seus filhos. A lembrança dos mais velhos fizeram as autoridades indígenas locais tomarem as devidas providências no uso do bahsese e na administração de ervas medicinais.

Bahsese – Faço BAHSERIKO pra fazer bahsese . Quando me curei com um chá ou seja BAHSERIKO comecei fazer bahsese usando as folhas que tenho aqui no quintal…atendi muitas pessoas que procuram com sintoma da sequela de covid-19 …antes de algumas pessoas com sintoma vao me procurar aparece essa imagem dando alerta que vai chegar às pessoas doente…Esse pode ser uma simbologia de cura tradicionais desana …contra COVID 19. Imagem e depoimento de Jaime Diakara

Esses dois procedimentos (bahsese e ervas medicinais) foram decisivos também agora no controle do COVID 19. Não obstante, o surto começou aparecer explicitamente após o dia 10 de maio deste ano de 2020, e em menos de um mês já havia 100 suspeitos e cinco casos confirmados pelos testes rápidos e nenhum óbito.

Diante deste quadro alarmante, o médico responsável na comunidade ficou perplexo de tantos contaminados em poucos dias, porém, sem nenhuma morte. Com isso percebeu a eficiência dos bahsese e das ervas medicinais.

O governo federal por meio de Ministério da Saúde e do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) de São Gabriel da Cachoeira-AM, tinham enviado cinco novos aparelhos de entubação, porém não foi necessário seu uso. A equipe de saúde do pólo base de Iauareté orientou os indígenas (população local): aos sentirem os primeiros sintomas da doença a permanecerem em casa e que o seu tratamento pudesse ser feito com os conhecimentos tradicionais de bahsese e ervas medicinais e também sob acompanhamento do agente de saúde. Assim, a população atendeu a recomendação.

Para combater a pandemia do COVID 19 os indígenas de Yaiwapoewa usaram seriamente os conhecimentos tradicionais de bahsese e do manejo das ervas medicinais (cascas, folhas, raízes e cipós). Assim, as pessoas foram compartilhando quais as ervas mais eficiente no combate da doença.

As mais procuradas e indicadas foram;
– sakudáa
– Ʉhsodáa
– Wehti kahseri
– Irimãũ
– oapũrĩ
– biapũrirõ
– omôkahseri
– yãbu pũrĩ
– pakarũ kahsero
– ohpe e sĩkata (os dois materiais de multiúso, serve para a defumação após o bahsese)

No Distrito de Iauareté, o alcance do COVID 19 foi por meio da equipe de do Polo Básico no mês de Abril de 2020. A exigência era tanto com a população, para prevenir o alcance da pandemia, até uma viajem simples ao município categoricamente estava proibido. Mas, a fragilidade e a incompetência foram demonstrados pelos agentes de saúde, isto é, a falta de ética profissional (aqui não citarei nomes por questão de ética) com os povos nativos deste Distrito de Yaiwapoewa.

A equipe que deveria proteger a saúde indígena, foi a protagonista pela disseminação do COVID 19, além do mais omitiu com a verdade sobre a doença, alegando que o profissional estava com uma forte gripe. Isso ocorreu no início do mês de abril. Tanto que a doença intensificou no mês de maio. Reconhecendo a intensificação da doença, a equipe de saúde fez visitas domiciliares, orientando a recomendação do Ministério da Saúde (de lavar as mãos com água e sabão, uso de máscara, evitar aglomeração e praticar o distanciamento social), para o acompanhamento dos suspeitos.

Para os indígenas, esta pandemia é uma doença de dohkesekease ou ʉmʉhko pũrirõ (doença do mundo), por isso que a maior parte dos pacientes sente a dʉhpoa pũrĩrõ (dor de cabeça), wʉhake (febre), wãmʉta pũrĩrõ (dor de garganta), e a herimi mahsĩtiro (dificuldade de respirar), tanto que o bahsegʉ (especialista indígena) usa o bahsese com a fórmula de dohkesekease bahsero. Para os velhos e especialistas tukano, a ʉmʉhko pũrirõ é o resultado da revolta dos demiurgos para com os humanos, contra suas ambições e ganâncias, pelo desrespeito aos seres invisíveis guardiões da Natureza.

Só no mês de junho a equipe médica do Exército Brasileiro, vinda de Brasília, esteve em Iauareté, para os primeiros testes do COVID 19 com a população indígena da localidade, isto é, depois de passados meses da existência da pandemia no Brasil. A população de Iauareté estava relativamente tranquila, porque a primeira fase da doença já tinha passado e superado, e ate lá nenhuma morte… tendo os indígenas se precavidos com os conhecimentos tradicionais como o bahsese e ervas medicinais.

Nesta visita dos dias 10 e 11 de junho, feita pelo Exército Brasileiro, o efeito do exame do COVID 19 deu resultado positivo para mais de 500 pessoas, o que logo foi questionado pela população, isto é, muitos que sofreram com os mesmos sintomas, o exame deu-se negativo e alguns que se encontravam com febre alta, para estes o exame deu negativo.

Assim, nem todos ficaram satisfeito com esse trabalho relâmpago. O mais curioso foi quando o médico do Exército pediu encarecidamente que a população continuasse tomando os chás caseiros de sakuda (saracura) durante o tempo que persistisse a pandemia, o que significa que os conhecimentos indígenas estão e continuam na vanguarda. Lamentavelmente os noticiários mostravam o aclive continuo dos contaminados e das mortes cotidianamente. Enquanto isso os indígenas do Distrito de Iauareté enfrentam o COVID 19 com seus conhecimentos tradicionais de bahsese e ervas medicinais.

Desde outrora o conhecimento tradicional do uso de bahsese e ervas medicinais foram pertinentes na vida dos indígenas do alto Rio Negro, porque naquele tempo não havia medicamentos industrializados. Para tanto, o essencial de tudo é que os povos indígenas são guardiões da natureza, sempre respeitando a floresta, os rios, os animais aquáticos, animais aéreos e os animais terrestres.

Por outro lado, muitos representantes dos poderes públicos, pela ignorância peculiar, afirmam que no Brasil os indígenas são “indolentes”. Lamentável! Por outro lado, a sabedoria dos indígenas continua a valorizar e a preservar o bahsese e o uso de ervas medicinais. Esses dois fatores contribuem ativamente para a existência e a resistência dos povos nativos ao longo dos tempos. Preservando nossos bahsese e nossas ervas medicinais continuaremos salvando vidas. Espero cada vez mais que a ciência busque diálogos mais simétricos com os conhecimentos indígenas.

*Mestre e Doutorando em Antropologia Social/UFAM Membro do Colegiado Indígena, PPGAS/UFAM Pesquisador do Núcleo do Estudo da Amazônia Indígena/NEAI/PPGAS/UFAM Bolsista CAPES

Pandemias na Amazônia é um mapeamento colaborativo das narrativas e relatos sobre os modos de pensamentos e as estratégias dos povos indígenas e comunidades tradicionais em torno das crises epidêmicas e ambientais na Amazônia.

O projeto desenvolvido pelo NEAI/UFAM (Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena) com o InfoAmazonia permite às comunidades e/ou seus mediadores inserir em uma plataforma digital conteúdo de texto, áudio e vídeo

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