: “Brasil não sabe quanto está pescando na Amazônia”

“Brasil não sabe quanto está pescando na Amazônia”

Thu, 08 de August de 2019

Um dos mais renomados especialistas em peixes da Amazônia, o pesquisador Ronaldo Barthem aponta caminhos para o país retomar o controle de seus estoques pesqueiros. Foto acima: Mercado Ver-o-Peso em Belém do Pará. (Flavio Forner)

Entrevista por Thadeu Melo

Foi em 1978 que o pesquisador carioca Ronaldo Barthem migrou para a região Norte para estudar a ecologia de peixes amazônicos. Primeiro, em Manaus (AM), afiliado ao Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA), depois em Belém (PA), no Museu Emílio Goeldi,  acumulou nestes anos experiências por toda a Amazônia. Ainda jovem, percebeu que as pesquisas existentes não seriam capazes de explicar a complexidade ecológica de espécies que habitam a maior bacia hidrográfica do planeta. É dele, em parceria com Michael Goulding, a importante teoria da migração da dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), que explica toda a dinâmica continental de reprodução e o ciclo de vida dessa espécie e de outros bagres de grande importância para a alimentação e o comércio de países como o Brasil, a Bolívia e o Peru.

“Comecei a perceber que é melhor entender o peixe na pesca, porque o pescador dá mais informações sobre o peixe do que eu teria na vida inteira”, conta. Assim, o pesquisador fez de seu ofício uma pescaria, para entender como os peixes amazônicos se movimentam desde as nascentes, no sopé da Cordilheira dos Andes, até o estuário, no Oceano Atlântico, nadando milhares de quilômetros.

“Parece que a palavra pesquisa tem a ver com a pesca, ainda mais para mim, que trabalho com pesca e pescador: pegar conhecimento é quase uma pescaria”, reflete. “Às vezes, eu vou e não pego nada. Tá bom!”, completa, dizendo que, pessoalmente, não gosta de pescar.

Apreciador da culinária amazônica, Barthem desenvolveu, ao longo de 40 anos a mesma habilidade que os nortistas têm de distinguir os sabores da biodiversidade aquática local. “As pessoas têm orgulho de ter essa vida baseada no peixe. Eles falam um monte de nome de peixe que a maioria das pessoas nunca ouviu falar, nem sabem que existe”, comenta. “Esse paladar, essa capacidade de distinguir o gosto, experimentar muitos sabores, é uma coisa que o pessoal aqui gosta, tem orgulho”, diz.

Nesta entrevista, concedida ao InfoAmazonia em fevereiro de 2019, ele fala sobre seu trabalho de pesquisa e constrói o histórico e o esforço para o levantamento estatístico da pesca na região. Também explica porque o IBGE não apresenta dados sobre a atividade pesqueira no país desde 1990, quando o Ibama começou a assumir essa responsabilidade com resultados cada vez mais completos e confiáveis. Em 2008, a tarefa passou para outras pastas do governo federal e acabou gerando dados de qualidade questionada por especialistas e pesquisadores.

Veja também “A Dourada: Majestade Amazônica”

Experimente uma pesquisa rápida da combinações das palavras ‘pesca’ e ‘IBGE’ no Google. Verás resultados poucos esclarecedores ou, ainda, recentes. Para poupar o esforço de quem lê o InfoAmazonia, o fato é que não são produzidas estatísticas de pesca confiáveis no Brasil desde 2007, quando o Ibama coordenou, pela última vez, ao lado de mais de 60 parceiros, o levantamento dos dados em nível nacional, tanto da pesca comercial quanto extrativista.

Os dados eram coletados desde 1971, quando foi iniciada a série histórica de estatística da pesca no IBGE. Mas foi entre 2004 e 2007, o período que os pesquisadores consideram terem sido gerados os dados mais confiáveis. Para tentar construir o panorama dos esforços de vários setores, optamos por deixar os buscadores de lado e pesquisar diretamente com uma das fontes mais confiáveis sobre o assunto, especialmente na bacia amazônica.

Se o senhor fosse pintar o quadro do conhecimento sobre a ecologia, a dinâmica ou mesmo comércio de peixes na Amazônia, como estaria esse quadro? Quanto dele estaria completo ou incompleto?

Ronaldo Barthem: Não está ruim. Em termos de pesca, nós temos um quadro bom, uma boa informação sobre isso. Nós temos as principais áreas de pesca, os principais recursos pesqueiros, quem pesca mais… Nós já temos esse quadro pintado. O quê nós não temos é o monitoramento anual. A gente pintou um quadro, mas já faz 10 anos. E agora, como está? A gente não tem isso, não tem o acompanhamento da mudança. Nós não temos um filme, só temos uma foto. O quadro está se modificando e a gente não está acompanhando, não sabe mais para onde está indo. O caso do tambaqui é emblemático. Nós não temos estatística de pesca, não sabemos quanto tambaqui estamos pescando, mas o pessoal que trabalha com larvas de tambaqui, larvas de peixe, em geral, que monitora no encontro das águas do Solimões com o Negro, ele  sempre viram larvas de tambaqui e não estão vendo mais larva de tambaqui descendo. É um péssimo sinal de que o estoque está com problemas graves.

O que se sabe sobre as estatísticas pesqueiras na bacia amazônica?

RB: Nós temos três formas de estimar quanto que se tira de recurso pesqueiro da região. Uma, é fazendo uma projeção: pegando uma área (determinada), estimando quanto se tira dela, e projetando para a Amazônia inteira. Isso foi feito na década de 70 e 80 e estimaram em torno 260 mil a 540 mil toneladas de captura potencial anual. Mas é uma estimativa. A outra forma é você fazer pelo consumo das pessoas. Essa forma era interessante porque, na década de 80, foi feita uma pesquisa no entorno de Manaus que mostrou que o consumo da população que vivia na beira do rio era maior que o consumo em Manaus, indicando um consumo muito grande que não era desembarcado nos portos pesqueiros. Essa situação mudou muito porque houve esse êxodo rural, as pessoas foram do campo para as cidades, que incharam. Então, a situação pode ser diferente agora. O outro número estimado de consumo foi feito pela Esac [Grupo de Estudos Ambientais Costeiros], em 2011, que estimou mais ou menos 575 mil toneladas de pescado consumidas por ano, na bacia amazônica. Mas são tudo estimativas.

Depois, temos os dados da pesca comercial, que é a possível tragédia que encabeça esta entrevista. A Amazônia inteira tem problemas de desembarque, então, a gente fez um estudo pegando 66 cidades com dados de desembarque e estimamos o potencial máximo que foi desembarcado, chegando a uma estimativa de captura de 173 mil toneladas, ou seja, bem menor do que foi estimado antes. Isso dá uma idéia de que a gente pode até capturar muito, mas, o que a gente registra não é tanto, não. E os dados históricos do Ibama, do [extinto] Ministério da Pesca, que eu já compilei, dizem que, só nos estados da região Norte, onde, basicamente o Pará e o Amazonas sãos os fortes, os principais, capturou-se 150 mil toneladas, no ano de 2016, incluindo a pesca costeira. Foi o ano que teve o maior registro.

Barthem em palestra no encontro internacional sobre a bacia amazônica, realizado em Manaus, 2016 (Foto: Águas Amazônicas)

Esses números são bem diferentes das primeiras estimativas.

RB: Bem menos do que se falava, anteriormente. Isso, quando a gente pega os dados concretos, em campo. Essa pesca gerou, mais ou menos, 286 milhões de reais, para você ter idéia. Os dados são poucos, mas tem muito dinheiro envolvido nisso. Mas não tem impostos nessa história. Então, boa parte dessa produção não gera imposto sobre a atividade. Gera depois, na comercialização, nos mercados. Mas a atividade não. E se você comparar a atividade da pesca em relação a outras atividades da Amazônia, se você pegar as exportações, no Pará e Amazonas, a pesca, que envolve peixes ornamentais, lagosta, tudo que é pesca, a nossa exportação é 0,37%, em relação a tudo. Desse quadro que você vê que o pessoal não presta muita atenção no peixe, porque não gera muitos dividendos para o Estado. O primeiro item de exportação são produtos minerais, que é 84%, depois, produtos de pecuária, 3,4%, depois fica assim: soja, 2,8%, indústrias, 2%, madeira, quase 2%, pimenta, 1%, dendê, 0,4%, aí depois vem o pescado com 0,37%. O forte aqui é minério mesmo.

Nós temos uma pesca extremamente difusa. Muita gente sobrevive comendo peixe. Tem um valor inerente a isso, mas o Estado, os gestores, eles não conseguem taxar essa atividade, aí começa a virar uma atividade fantasma.

 

Dados na Bacia Amazônica

E como é feito o controle das estatísticas de pesca nos outros países da bacia?

RB: Quem eu vi controlando a pesca foi Colômbia e Peru. O Peru tem histórico de pesca, graças à pesca marinha, eles já têm uma gestão pesqueira, uma estrutura para gerenciar esse recurso. Eles não têm nenhum problema legal sobre quem vai gerenciar a pesca. Eles já têm isso muito claro na gestão deles, então, eles têm um controle muito bom na costa, mas, na parte da Amazônia, era meio precário. A Amazônia peruana é muito grande, ela pega tanto a cabeceira do Madeira quanto a cabeceira do Ucayali e do Marañon, e a parte baixa, onde fica Loreto. Loreto é o estado que tem o melhor controle dessa estatística, mas Ucayali também tem. São praticamente os dois estados que mais pescam, e eles têm boas estatísticas, de décadas, há muitos anos, desde a década de 90. Só que eram muito desorganizados os dados, muito confusos, se perdiam.

Aí, trabalhando lá em Loreto, com a WCS [Wildlife Conservation Society], a gente ajudou o estado, a Direpro [Dirección Regional de la Producción], a organizar a estatística e colocar tudo em ordem, organizadinho, no banco de dados. E agora eles apertam um botão e saem as informações, tudo pronto. Os algoritmos já estão definidos, é só apertar um botão e já sai a resposta do relatório deles. E eles estão muito contentes com isso. A Colômbia trabalha mais com o que eles chamam de ‘quartos frios’, que são pequenas empresas de processamento de pescado, onde eles congelam o peixe e mandam para Bogotá. Então, eles praticamente controlam a produção desses frigoríficos, que são bem pequenos, e é praticamente isso que eles fazem, sem muito controle do esforço [de pesca]. E o Equador e a Bolívia não têm quase nada de controle. Eles têm pesca, mas não têm quase nada de controle.

E sobre o estoque de pescado na Amazônia, existem estimativas ou é algo incomensurável?

RB: As pessoas não estimam o tamanho do estoque. O que se estima é o estado de explotação que o estoque está, se ele está subexplorado ou sobreexplotado, pescado demais, com sobrepesca. Essas são as avaliações que nós temos. A maioria dos estoque estão ou no limite da sobrepesca ou já sobrepescados. Quer dizer, nós estamos em uma situação de borda. Na minha opinião, quem controla a pesca é o próprio estoque. Se começa a diminuir o estoque, o pessoal para de pescar, se volta a crescer, voltam a pescar de novo. Não tem uma governança sobre isso. Nossa governança é muito limitada. A gente pode falar o que for, mas, se tem muito peixe, o pessoal vai pescar. Não tem quem controle eles, os pescadores.

Então a gente pode afirmar que os estoques de peixes comerciais amazônicos estão no limite da captura?

RB: São vários estoques. Não vou dizer todos, nem em toda a região. Mas, por exemplo, o tambaqui, que é um ícone nosso, ele está em estado de sobrepesca grave. A piramutaba está entre sobrepescado e no limite. Está no limite. Várias espécies estão no limite e temos estatística sobre isso. Mas o ícone nosso é o tambaqui. Se a gente manejar o tambaqui, ele vai bem, mas o estoque está em colapso agora. Na piscicultura, não tem problema. Mas o tambaqui da natureza está entrando em colapso. A pesca aqui na região é hiper diversa. Nós temos peixe para vários gostos. Por exemplo, o pessoal aqui de Belém não gosta de peixe com muita espinha. Então, vários peixes que o pessoal de Manaus gosta, o pessoal de Belém gosta de outros, que não têm tanta espinha, como os bagres em geral, dourada, piramutaba, gurijuba. E o pessoal de Manaus não gosta muito de bagre. Então, existe esse gosto que faz com que a pressão pesqueira vá atender essa demanda. Você vai ter áreas com mais problemas, e outras sem tantos problemas assim.

A dourada chegando ao porto pesqueiro de Belém. Foto Flávio Forner

Ciência Cidadã

Como iniciativas de ciência cidadã e a tecnologia digital podem ajudar no estabelecimento de um monitoramento de pesca abrangente na bacia?

RB: Esse novo sistema de ciência cidadã, o Ictio, ele veio ajudar a resolver problemas para manusear o dado, manipular e estocar o dado, o que é um gargalo em alguns lugares. Facilita muito, a entrada é amigável, os jovens pegam rapidamente. A molecada pega rápido, então, para as novas gerações, isso vai ser o caminho, uma ferramenta hiper fácil. No momento, ele ajuda a produzir dados qualitativos, indicando qual região pega qual tipo de peixe. Uma das coisas iniciais desse projeto era para ver até onde a dourada migra, então, você vê que foi pescada dourada lá no alto dos Andes. São dados qualitativos muito interessantes. É possível que chegue a colaborar com dados quantitativos, o que depende de outras etapas que têm que ser feitas.

Eles estão fazendo projetos na Bolívia e em Rondônia para fazer esse experimento. Na verdade, é o mesmo problema de controlar o desembarque, mas, em vez de você colocar em uma prancheta, você vai colocar no celular. É uma vantagem, o sinal da tecnologia chegando. Tem esses dois prognósticos. As informações do pescador são qualitativas, por exemplo, se o peixe está comendo fruta, alguma informação dessas sobre o bicho. A mesma coisa serve para pesca esportiva: dizer que pegou tal tucunaré em tal lugar… São informações que ajudam a caracterizar o que acontece em uma região ou com um determinado peixe.

Para mim, a Ciência Cidadã é uma contribuição muito grande, e estamos nessa fase de ter o uso do aplicativo como uma ferramenta de educação ambiental, para interação de pessoas que trabalham com a pesca, e temos que fazer um salto para que ele entre dentro dos órgãos oficiais que trabalham com pesca, para que dêem dados mais confiáveis e consistentes para manejo pesqueiro.

ACESSE! Biblioteca InfoAmazonia de estatística pesqueira no Brasil

Veja como era feito o controle pelo IBGE entre 1971 e 1989

 

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