: Cientistas se unem a comunidades em rede de pesquisa colaborativa

Cientistas se unem a comunidades em rede de pesquisa colaborativa

Mon, 07 de May de 2018

Reunião do projeto Ciência Cidadã para a Amazônia em Iquitos, Peru, faz o primeiro teste de aplicativo para monitoramento de peixes migratórios. InfoAmazonia vai acompanhar os resultados de projetos-piloto nos próximos meses

por Thadeu Melo, de Iquitos (Peru)

Fazer pesquisa na escala amazônica é um desafio constante para cientistas. Para facilitar o acesso ao bioma e a coleta de dados confiáveis, diversos estudiosos apostam em uma nova abordagem: a Ciência Cidadã. Na bacia do rio Amazonas, uma rede de cientistas e comunidades vai colaborar em pesquisas para conservação de peixes migratórios.

O registro dos peixes no app ICTIO pode ser feito após a pescaria, podendo conter fotos, além da quantidade de peixes e peso total, por espécie. Fotos: Thadeu Melo/Infoamazonia

Liderado pela Wildlife Conservation Society (WCS), o projeto Ciência Cidadã para a Amazônia está focando esforços nos peixes que circulam no Amazonas e seus afluentes em cinco países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador e Peru.  Nesta etapa piloto, foram priorizadas as 20 espécies migratórias que circulam entre a foz, no Atlântico, e as cabeceiras, na Cordilheira dos Andes, sendo as mais abundantes nos registros de desembarque pesqueiro.

Em articulação com universidades, ONGs, governos, ribeirinhos e indígenas, a iniciativa começa no próximo mês de julho. Por meio de um aplicativo de celular,  a pesca de douradas, jaús, surubins, piramutabas, tambaquis, curimatãs, jaraquis e matrinxãs será monitorada em 29 locais. A apresentação da versão de teste do app ocorreu no segundo encontro de parceiros do projeto, entre os dias 24 e 26 de abril, em Iquitos, na Amazônia peruana.

Uma rede de monitoramento de parâmetros físico-químicos da água e de dados meteorológicos complementa o trabalho de campo para compreender que fatores ambientais influenciam a migração dos peixes. Dispositivos serão instalados em pontos-chave da bacia, em parceria com a Universidade Internacional da Flórida, e a Conservify, ONG americana que produz sensores de baixo custo para coleta de dados ambientais.

O aplicativo de monitoramento dos peixes, batizado de Ictio, foi desenhado para investigar para onde e quando migram os peixes na bacia amazônica. A interface é simples e permite a indicação de quantidade de peixes capturados e o peso total de cada espécie.  Ao abrir o app, o usuário tem a opção de escolher se está indo pescar ou se vai registrar peixes já capturados. No primeiro caso, é possível georreferenciar todo o trajeto percorrido e ir alimentando com as capturas assim que elas ocorrem. Caso deseje, nos dois casos, o pescador pode também incluir fotos, o que ajudará a equipe de análise de dados a confirmar se o registro equivale mesmo à espécie indicada.

O app está sendo desenvolvido pelo Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell (EUA), o mesmo que desenvolveu o eBird . Com mais de 100 milhões de colaborações a cada ano, o aplicativo é reconhecido como a maior plataforma de Ciência Cidadã existente, tendo fomentado tanto pesquisas sobre migração de aves quanto o estabelecimento de políticas públicas para conservação.

Reprodução das telas do aplicativo Ictio onde pescadores podem incluir dados sobre peixes migradores

Veja mapa com a localização dos projetos-piloto e sedes dos parceiros da iniciativa Ciência Cidadã

Baixo Amazonas e Tapajós

A ex-secretária de Pesca e Aquicultura do estado do Pará, Socorro Pena, aposta no potencial do aplicativo Ictio . “É muito importante o estabelecimento dessa rede porque nós comungamos dos mesmos sonhos, dos mesmos desafios, e enfrentamos os mesmos problemas quanto à política pesqueira dos países amazônicos”, comenta Socorro, que é professora de Gestão da Pesca na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e vice-presidente da Sapopema (Sociedade para a Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente), de Santarém (PA).

“Este é um momento muito importante, porque a utilização deste aplicativo vai ajudar os próprios pescadores a tomarem conhecimento técnico e científico para dialogar com instâncias governamentais e não-governamentais para a gestão pesqueira local”, prevê Socorro Pena.

Ela conta que as iniciativas de monitoramento que conduziu em nível estadual, entre 2007 e 2010, foram descontinuadas nas administrações que a sucederam. Atualmente, o estado do Pará, segundo maior produtor de pescado do Brasil, se baseia justamente em esforços comunitários para estimar a atividade pesqueira.

A Sapopema será a organização responsável por conduzir a iniciativa piloto mais à jusante da bacia, uma vez que a organização acompanha a atividade de pescadores na região de várzea do baixo Amazonas, em parceria com a Colônia de Pescadores Z-20, que vai adotar e divulgar o aplicativo Ictio. Com o apoio do Projeto Saúde & Alegria, outro local de piloto será estabelecido próximo à foz do rio Tapajós.

O primeiro teste de campo do aplicativo ICTIO foi realizado nas proximidades de Iquitos, onde mais de 70 parceiros do projeto Ciência Cidadã para a Amazônia se reuniram no final de abril.

Médio Amazonas e baixo Negro

Amazonas a cima, como fazem os grandes peixes migratórios para cumprir sua missão reprodutiva, é possível encontrar outros quatro projetos-piloto que irão adotar Ictio no Brasil, todos no estado do Amazonas: a Reserva Mamirauá, no rio Solimões, o Parque Nacional de Anavilhanas e as reservas estaduais de Desenvolvimento Sustentável Puranga-Conquista e Rio Negro.

A WCS Brasil é a responsável pela condução dos pilotos no baixo rio Negro, estabelecendo bases nas duas margens do leito para captar variações significativas que ocorrem na região de Novo Airão e Manaus (AM).

“A bacia do rio Negro tem uma grande importância na manutenção dos processos migratórios de espécies de grande uso comercial e alimentar, principalmente jaraqui e matrinxã”, explica Guillermo Estupiñán, especialista em recursos pesqueiros da WCS Brasil.

“Conhecer melhor o estado atual dessas migrações é um tema que interessa aos pescadores e pode contribuir para as discussões de medidas de manejo local e, regionalmente, valorizar a importância do Negro nos processos migratórios de peixes na Amazônia”, comenta o especialista, que contará com a parceria da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Pescadores de comunidades tradicionais e indígenas serão os principais agentes da pesquisa que pretende decifrar a dinâmica de 20 espécies de peixes migratórios da Amazônia.

Já adiantado no processo de mobilização para a implantação do aplicativo, o Instituto Mamirauá buscou respostas a algumas das principais dúvidas da fase de desenvolvimento do app. Os moradores da região usam celular? Usam redes sociais? Usam aplicativos? A conclusão a que chegaram é que sim, existe potencial para adoção da tecnologia e as expectativas de sucesso são boas. Segundo o levantamento inicial por amostragem de 27 grupos-alvo, 60% têm smartphone e 80,6% usam internet pelo celular (nas sedes dos municípios), ao passo que 67,3% não usam email.

Os principais grupos convidados a participar da iniciativa na região são os pescadores organizados e comunitários, turistas e adeptos da pesca esportiva, além de alunos de escolas locais, das reservas Mamirauá e Amanã. “A gente vai ter uma estratégia de divulgação do aplicativo voltada aos pais, mas também vamos abordar os jovens para que eles levem para casa conteúdos sobre a importância da bacia e da ciência cidadã para essas comunidades”, conta Vanessa Eyng, responsável pela implantação do piloto pelo Instituto Mamirauá.

A partir de perguntas simples para os pescadores, como, ´você já viu uma dourada ovada?´ ou ´você já viu uma dourada do tamanho da minha mão?´, Vanessa já começou a conversa com as comunidades locais. “A gente começa a entender o processo de migração por meio de um conhecimento que eles já têm e de informações complementares dessa troca em rede”, diz Vanessa.

“Estamos aprendendo muito com eles. Por exemplo, que a dourada não passa encardumada. Então, quando você pesca uma dourada, você consegue pegar cerca de cinco ou seis (na região de Mamirauá)”, conta. “As douradas, quando são do tamanho da minha mão, não estão aqui no médio Amazonas, estão nas cabeceiras dos rios no Peru ou na Colômbia”, explica.

Veja o vídeo A Dourada – um peixe viajante.

Putumayo

Seguindo o caminho rumo às cabeceiras dos principais rios amazônicos, ao norte, encontram-se os projetos-piloto em território colombiano. Caberá ao Instituto de Pesquisas Científicas da Amazônia da Colômbia (Sinchi) liderar a implantação do aplicativo em articulação com comunidades locais, superando dificuldades técnicas comuns a todos os países.

Segundo César Augusto Bonilla, pesquisador do Sinchi, “estão sendo instaladas torres por toda Amazônia para substituir a comunicação via satélite por um sistema via microondas, sendo possível a outros operadores que entrem com uma tecnologia mais eficiente” nas regiões remotas. “Os smartphones estão em várias localidades, mas quem mais opera são os jovens, não os pescadores tradicionais”, comenta César, que acompanha o monitoramento local de pesca realizado ainda a caneta e papel, como na maior parte da Amazônia.

Além dos pilotos na bacia do Amazonas, o instituto colombiano já planeja utilizar o aplicativo em outras regiões do país, como em comunidades da bacia do rio Orinoco, que não é tributário do Amazonas.

Napo-Marañon

Três pilotos serão implantados no Equador, envolvendo comunidades que vivem nos rios Pastaza-Palora e Napo, com a participação do laboratório de Ecologia Aquática da Universidade San Francisco de Quito. Especializada em ecologia de rios, a pesquisadora Andrea Encalada é a diretora do laboratório que aporta conhecimento científico à iniciativa na porção equatoriana.

“Com o aplicativo, poderemos coletar dados que programamos e mandamos em tempo real para nossos computadores, para realizar processos complexos que antes eram difíceis, porque tínhamos que ir ao campo o tempo todo”, comenta Andrea, que também vê no projeto uma oportunidade para ter mais contato direto com os pescadores da região em que atua pela conservação dos rios amazônicos, em altitudes que ultrapassam os 1000 metros acima do nível do mar.

Com celulares e peixes nas mãos, pesquisadores de cinco países testaram o aplicativo ICTIO, que deve estar disponível a partir de julho.

Também na calha do Marañon, e já no leito do rio batizado de Amazonas, mas na porção peruana de seu traçado, a implantação de dois pilotos estará a cargo da WCS Peru. Comunidades próximas à Reserva Nacional Pacaya-Samiria e na Área de Conservação Regional Tamshiyacu Tahuayo serão os parceiras locais que coletarão os dados para rastrear a movimentação das espécies migratórias na região. A articulação local, baseada em Iquitos, conta com o Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP, na sigla em espanhol).

Já na fronteira com a Colômbia, nas ilhas Ampiyacu, as comunidades locais terão a liderança do Instituto Bien Común (IBC), que tem sede em Lima e atua nas zonas rurais do país, apoiando a gestão dos bens comuns naturais de povos tradicionais e indígenas. A aliança na região é fortalecida pela participação da Diretoria Regional de Produção do departamento de Loreto (Direpro), entidade estatal que monitora a produção pesqueira no país.

Segundo o representante da Direpro Loreto, Aldo Alva Vela, “o aplicativo pode ajudar a ter principalmente um controle de registro em lugares onde não temos acesso”. A instituição coleta diariamente informações dos desembarques pesqueiros, mas não realiza o registro das zonas distantes, próximas às fronteiras e cabeceiras de bacia, que são de difícil acesso.

“O aplicativo pode nos permitir alcançar essa população e poder saber como está o recurso pesqueiro e como ele se está mantendo nessa zona”, conta Aldo.

Ucayali
Está também a cargo do IBC, no vale do rio Pichis, na região de Puerto Bermudez, já nos contrafortes dos Andes, um dos projetos-piloto em cabeceiras, na área de reprodução dos peixes migratórios. No alto Ucayali, rio que forma o Amazonas ao se unir ao Marañon, comunidades indígenas ashaninkas já foram apresentadas à tecnologia dos smartphones e deverão passar a registrar seus resultados de pesca com o Ictio.

Onze comunidades, incluindo indígenas machiguengas que vivem no rio Baixo Urubamba, completam os projetos-piloto na bacia do Ucayali. Com o apoio da Fundação Peruana para a Conservação da Natureza (Pronaturaleza), as comunidades locais têm implantado outras iniciativas de monitoramento participativo de qualidade do ar, água e solo de seus territórios há mais de 10 anos, com recursos de exploração de jazidas de gás natural da região.

“Todo tipo de pesquisa, capacitação, tudo isso é grandioso para eles, para que possam ser parte desse processo recíproco que leva a ciência até eles e para que eles possam fazer ciência também”, comenta Bruno Vasquez, especialista do programa de monitoramento ambiental comunitário do Baixo Urubamba, conduzido pela Pronaturaleza. “Isso é grandioso para todos eles, e também para os cientistas, para que o conhecimento não fique apenas nos trabalhos acadêmicos, mas que volte diretamente para os locais e as populações possam ser protagonistas desse processo genial”, avalia Bruno.

Veja o vídeo Institucional do Programa de Monitoramento Ambiental Comunitário do Baixo Urubamba.

Madeira

Maior bacia tributária do Amazonas, a do rio Madeira é a que concentra o maior número de projetos-piloto do Ciência Cidadã: quatro no Peru, dois na Bolívia e dois no Brasil. Quase 20% da bacia hidrográfica do Amazonas são águas que fluem para o Madeira, um dos primeiros grandes rios da região a serem impactados com a implantação de usinas hidroelétricas de grande porte.

Instaladas no Brasil nos últimos anos, as hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau já impactam o fluxo dos peixes migratórios, segundo os cientistas que estudam as espécies acima e abaixo das barragens das usinas, antes e depois de sua construção. Os dados a serem coletados com o Ictio deverão comprovar que não estão funcionando as estratégias de passagem física dos peixes pelas barragens, para que cumpram o ciclo ao longo dos mais de 4 mil quilômetros que separam o local de nascimento, nas cabeceiras, da foz, no oceano Atlântico, onde passam parte de sua vida.


Reunidos em círculo às margens do rio Amazonas, os parceiros do projeto Ciência Cidadã para a Amazônia fazem uma breve rodada de apresentação.

Carlos Cañas, pesquisador da WCS que coordena a Iniciativa Águas Amazônicas no Peru, trabalha para destacar os serviços ambientais oferecidos pelos ambientes aquáticos da região. “Pelo contato informal que tenho com pescadores das cabeceiras, consigo saber, por exemplo, quando chegam para desovar as primeiras douradas, a cada ano, na região de Madre de Dios”, conta Carlos, que já desenvolveu estudos sobre o impacto das barragens nos fluxos migratórios.

Segundo o pesquisador, os pescadores têm sinalizado que agora compreendem a importância dos estudos realizados antes da construção das barragens brasileiras. “Eles sabiam que os peixes migravam para o Brasil, mas não tinham clareza que era até o estuário e que mudanças realizadas a milhares de quilômetros estão impactando diretamente os estoques pesqueiros em toda a bacia do Madeira”, comenta.

Os projetos piloto de Ciência Cidadã na porção peruana da bacia do Madeira terão a liderança da Estação Biológica SDZ – Cocha Cashu, gerida pela San Diego Zoo Global – Peru, da empresa de ecoturismo peruana Rainforest Expeditions e do Centro de Inovação Científica Amazônica (CINCIA), além da WCS Peru.

Em território boliviano, as atividades serão conduzidas pela WCS Bolívia, que atua no Parque Nacional Madidi e em Rurrenabaque. “Há um fascínio pela tecnologia, por isso, é importante vincular esse interesse pela tecnologia com o conteúdo e a utilidade do monitoramento dos peixes migratórios, em função das necessidades e perguntas que as próprias pessoas têm, para que possam fazer uso efetivo do instrumento”, prevê Zulema Lehm, especialista em temas sociais da WCS Bolívia. “A tecnologia, como instrumento, pode coadjuvar de maneira importante para recuperarmos a preocupação sobre a importância da agenda ambiental”, destaca a socióloga.

Completando a porção lusófona da rede, a organização não-governamental Ecoporé e a Universidade Federal de Rondônia farão parcerias com as colônias de pescadores de Porto Velho e de Guajará-Mirim, no médio Madeira, para implantação de dois projetos-piloto.

A iniciativa, financiada pela Fundação Gordon e Betty Moore, conta ainda com o apoio e participação de dezenas de outras instituições de pesquisa, ciência e tecnologia, mobilizadas há mais de dois anos pela WCS.

“Eu creio que um projeto tão ambicioso, complexo e grande foi possível porque conseguimos identificar e conseguir o apoio e o interesse de organizações e pessoas que realmente sabem o que estão fazendo, cada uma em seu campo”, comemora Mariana Varese, diretora de paisagens amazônicas da WCS e diretora do projeto Ciência Cidadã para a Amazônia. “Quando surge uma pergunta, ainda que não saibamos a resposta, sabemos que os líderes saberão construí-la”, diz.

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