: Com drones, pesquisadores querem conhecer melhor os botos da Amazônia

Com drones, pesquisadores querem conhecer melhor os botos da Amazônia

Thu, 01 de June de 2017

Por Gustavo Faleiros, de Tefé (AM)

Os botos são alguns dos animais mais icônicos da Amazônia. Tanto o Tucuxi (Sotalia fluviatilis) – a espécie de coloração cinzenta – quanto aquela conhecida como boto cor-de-rosa (Inia geoffrensis), há muito fazem parte da cultura dos povos indígenas e dos ribeirinhos. Os índios Kokama, por exemplo, têm uma ampla coleção de contos e fábulas onde o homem-boto pinta e borda nos vilarejos à beira dos rios.

Ainda que importantes na cultura amazônica, as quatro diferentes espécies que habitam a região são um verdadeiro mistério. Não existem estimativas confiáveis da quantidade de botos existentes e não se sabe muito de seu comportamento. Na lista vermelha da União Mundial para Conservação da Natureza – referência na avaliação das ameaças a biodiversidade – os botos aparecem como grupo com dados insuficientes.

Desde o ano passado, pesquisadores estão empregando uma nova tecnologia para mudar o quadro de falta de informação: aeronaves não tripuladas. A investigação, uma parceria entre o Instituto Mamirauá e a organização não governamental WWF, utiliza os drones na contagem de botos nas calhas do rios da Amazônia brasileira. A iniciativa faz parte do projeto Ecodrones, que já vem aplicando a metodologia em outras partes do planeta, mas pela primeira o fez no monitoramento de vida silvestre na floresta tropical.

Uma primeira expedição realizada em novembro de 2016 captou a imagem de 791 botos através de 54 filmagens de dez minutos realizadas a 20 metros de altura no Rio Juruá, no oeste do estado do Amazonas. O esforço de captação de vídeos ocorreu ao longo de uma viagem de 9 dias de 400 km neste grande afluente da bacia amazônica.

Veja abaixo vídeo da expedição Ecodrones – Botos da Amazônia

Daqui duas semanas, entre os dias 15 e 20 de junho, uma nova expedição será realizada no Rio Juruá. A ideia é confirmar a capacidade do drone de realizar pelo menos 50% do trabalho que hoje é feito por pesquisadores embarcados. Nos primeiros testes, o drone percorreu apenas uma faixa de 100 metros marginal ao barco de pesquisa, enquanto os cientistas dividem-se em três, cada um de um lado e outro e à frente, para anotarem os avistamentos de botos.

O avistamento de botos é feito por pesquisadores na proa do navio Foto: Amanda Lelis/Inst. Mamirauá

“O resultado até agora é muito bom considerando que, com apenas 100 metros e voos de 10 minutos, foi possível obter 50% dos avistamentos pelos pesquisadores, que enxergam até 300 metros”, explica o Marcelo Oliveira, coordenador do projeto pelo WWF. “O próximo teste é tentar equiparar estes avistamentos e, para isso, teremos que buscar equipamentos com câmeras melhores e maior autonomia”, diz.

Os pesquisadores estão utilizando os modelos Phanton 3 e 4, considerados acessíveis e fáceis de pilotar. O custo de uma aeronave como esta é de aproximadamente 12 mil reais, enquanto alguns drones de maior porte chegam a 200 mil reais.

A bióloga do programa de Mamíferos Aquáticos do Instituto Mamirauá Daiane Rosa pondera que uma dos principais vantagens na utilização dos drones será a eventual redução dos custos nas expedições: “Estamos tentando desenvolver um método específico para a contagem com o drone, que não envolveria pessoas, ou envolveria bem menos”.

Atualmente, a bióloga relata, uma expedição como a feita no Rio Juruá envolve 20 pessoas no barco. O plano para o futuro seria tentar fazer expedição com apenas duas pessoas em uma voadeira equipada com baterias solares para a recarga dos drones. Além disso, os sobrevoos poderiam ter rotas automatizadas e autonomia de 40 minutos.

Os pesquisadores Daiane da Rosa (Inst. Mamirauá) e Marcelo Oliveira (WWF) Foto: Amanda Lelis (Inst. Mamirauá)

A automatização das análises também podem ser um passo importante para melhorar as estimativas populacionais. Todos os 54 vídeos gerados foram assistidos por quatro pessoas para realizar a contagem. Este esforço foi relatado à empresa Conservation Drones, que está desenvolvendo um algoritmo que permitiria o cálculo dos botos em cada filmagem aérea.

A esperança de Marcelo Oliveira, da WWF, é que o uso de inteligência artificial no estudo das espécies de botos da Amazônia possa finalmente suprir os dados hoje insuficientes: “Vamos tentar chegar ao número completo da população”, afirma.

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