: Histórias de uma Amazônia alagada

Histórias de uma Amazônia alagada

Família flutuando em bote durante cheia histórica de 2015 no Acre

Fri, 28 de April de 2017

Populações do Acre enfrentam enchentes extremas e se adaptam às mudanças climáticas

Por Maria Emília Coelho, de Rio Branco

 

Toda vez que nuvens cinzentas encobrem o céu onde Maria de Jesus Cristino da Silva mora, lembranças ruins atormentam sua cabeça. Em 2015, quando a última cheia histórica do Rio Acre atingiu em torno de 120 mil pessoas na cidade de Rio Branco, capital do Acre, a costureira e aposentada perdeu quase tudo: “Sofri muito, quase entrei em depressão”. Hoje, ainda traumatizada, vive a tensão dos períodos de inverno amazônico sonhando em reconstruir sua casa mais alta e no mesmo lugar onde vive há 30 anos: “Depois da alagação, decidi simplificar e não ter muitos móveis. Vivo assim aqui. Não tenho a intenção de mudar. Prefiro me adaptar à situação”.

Maria de Jesus: “Sofri muito, quase entrei em depressão” depois da última cheia

A história de Maria de Jesus, de 70 anos, assemelha-se às de tantas outras de quem se acostumou a viver cada vez mais vulnerável à beira dos rios na Amazônia. Quando as cheias rompem probabilidades, excedendo os limites dos seus leitos de inundação, estas populações sofrem, mas também encontram maneiras de sobreviver após as enchentes extremas.

 

O ex-marido e atual vizinho de Maria de Jesus, o senhor Otacílio Augusto de Oliveira, acredita que “todo mundo que mora em área de alagação deveria ter uma canoa e saber remar”. Para o aposentado, as mudanças no clima têm feito as pessoas não saberem mais o que esperar: “Pode chover a qualquer hora e alagar tudo. Antes, existia verão e inverno. Hoje bagunçou tudo. No ano passado não teve inverno. Não choveu quase nada por aqui”.

Seu Otacílio ainda trabalha como vendedor e recorda com detalhes como sobreviveu às três cheias históricas do Rio Acre – de 1997, 2012 e 2015 – no bairro Quinze: “A de 97 foi muito grande. Em 2012, não afetou muita coisa, não tirou a gente daqui. E em 2015, perdi livros e móveis. Ficamos mais de 20 dias na alagação. A água chegou a um metro e meio aqui em casa. Para trabalhar, tinha que sair de bota e levar a roupa na sacola para trocar lá na frente. Ela aconteceu fora de qualquer previsão”.

 

Seu Otacílio: “A água chegou a um metro e meio aqui em casa”

Secas e cheias mais fortes

“As pessoas acham que demora dez, 20 anos para acontecer uma inundação, mas não é assim. Aqui no Acre, tivemos enchentes históricas em um intervalo de apenas três anos”, afirma Foster Brown, pesquisador da Universidade Federal do Acre (Ufac) e do Centro de Pesquisa Woods Hole. Há mais de duas décadas, ele estuda as mudanças do clima na região da fronteira Brasil-Bolívia-Peru: “Não se pode prever tudo em eventos extremos. Queremos ter causas e efeitos óbvios, mas não temos.  Hoje, o que podemos afirmar é que [os eventos extremos] acontecerão com maior frequência e intensidade na Amazônia”.

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Bruce Forsberg, explica que ainda são poucas as estações que têm medidas de cota do rio, a altura do nível da água, com uma série histórica longa suficiente para analisar estatisticamente: “Em Porto Velho temos uma razoável, em Manaus também. Com elas foi possível mostrar uma tendência do aumento de eventos extemos, como cheias e secas severas na última década”.

Bruce integra o Programa de Grande Escala Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), uma cooperação científica internacional que estuda as interações entre a Amazônia e as condições atmosféricas e climáticas em escala regional e mundial. Em um artigo recente, o pesquisador do Inpa explica sobre as mudanças climáticas e seus efeitos no regime hidrológico da Bacia Amazônica, identificando as regiões que terão secas e enchentes mais fortes e fracas.

“No oeste da Amazônia, tudo ficará mais seco. No Acre, especialmente no Juruá e Purus, a tendência é ficar mais seco nos próximos 50 anos”, afirma Bruce Forsberg, prevendo variações muito grandes – tanto de temperatura do ar e secura da floresta na terra firme, como enchentes extremas. “Este já um efeito da mudança climática, que trará impactos muito grandes para a região amazônica”, diz.

“No Acre, a tendência é ficar mais seco nos próximos 50 anos”

Monitorando riscos

Rodeada de supercomputadores que sistematizam informações de satélites e plataformas telemétricas, a diretora técnica do Instituto de Mudanças Climáticas do Acre, Vera Reis, explica o trabalho da Unidade de Situação de Monitoramento Hidrometeorológico do Acre. Desde a seca extrema de 2005 na Amazônia, o governo se preocupa com a maior frequência e intensidade dos extremos de inundações e secas, e seus impactos sociais, econômicos e ambientais.

“Pela frequência atual de extremos climáticos, a tendência é que as situações para o futuro sejam piores”, acredita Vera, que é membro da Comissão de Gestão de Riscos Ambientes (CEGdRA), articulação multissetorial criada para enfrentar a situação implementando o Plano Estadual de Gestão de Risco de Desastres Ambientais como politica pública no estado do Acre.  “A gente monitora em tempo real a variação do nível dos rios. Temos 32 plataformas de coleta de dados que nos repassam novas informações a cada 15 minutos”.

“Pela frequência atual de extremos climáticos, a tendência é que as situações para o futuro sejam piores”

A diretora explica que estas informações geram relatórios e boletins diários sobre a concentração e a distribuição das chuvas nas bacias do estado, entre outros dados climatológicos. “A nossa sala trabalha diretamente a adaptação às mudanças climáticas, o que é produção de conhecimento, difusão da informação, e orientação à comunidade, gerando subsídio para o governo e a Defesa Civil na tomada de decisão”, avalia.

No início deste ano, a atenção da equipe da sala de situação, criada pelo governo do Acre após a cheia histórica de 2012, voltou-se para o Vale do Juruá. Em fevereiro, o rio marcou a sua cota máxima de 14,24 metros, superando a enchente histórica de 1995. Na cidade de Cruzeiro do Sul, foram atingidas mais de 3 mil pessoas. A preventiva aconteceu no dia 28 de novembro de 2016, quando a sala foi levada à segunda maior cidade do estado para mostrar a situação de alerta da bacia do Juruá aos representantes de instituições governamentais e da sociedade civil.

A cheia histórica de 2015

O fotógrafo Sérgio de Carvalho mostra, neste ensaio, as dificuldades pelas quais passaram as famílias atingidas pela alagação de 2015 no Acre

“O sedimento é tão importante quanto a água”

O professor Waldemir Lima dos Santos, que coordena o Laboratório de Geomorfologia e Sedimentologia da Ufac, acredita que o governo e as instituições de pesquisa do estado do Acre precisam dar um passo a mais e estudar, também, todos os aspectos fisiográficos das calhas dos rios: “Relevo, quantidade de sedimento transportado, velocidade, fluxo, gradiente. Variáveis que devem ser levadas em consideração quando analisamos uma inundação. As pessoas têm ligado muito para a água, mas não é só a água. O sedimento é tão importante quanto a água”.

Waldemir lamenta a ausência de equipamentos específicos para estudar o assoreamento – processo natural dos rios que a cada dia se intensifica pelas ações humanas e, sobretudo, pelo desmatamento às suas margens. “Se a gente teve uma enchente extrema, mas choveu a mesma quantidade que chove todo ano, o problema não é só a chuva. Tem um outro fator que contribui. Não pode ser o relevo fluvial ocasionado pelo acúmulo de sedimentos?”, questiona.

Doutor em Geografia Física, Waldemir explica que os rios acreanos e amazônicos, exceção dos rios de água escura, como o Negro e o Moa, costumam transportar muito sedimento em suspensão: “Mas, por serem rios de planície, que não têm força para carrear [os sedimentos], a tendência é que este material se acumule no fundo ou nas laterais”.

Para o professor da Ufac, os rios amazônicos têm mudado em razão da sua própria dinâmica, pois têm a tendência de migrar de um lado para o outro com uma velocidade maior que os rios do centro-oeste do Brasil:  “Rios que correm sobre leitos cristalinos demoram mais a se encaixar e migrar. Os nossos não. As pessoas não entendem quando tem uma inundação extrema. O rio só está querendo voltar para o lugar onde estava antes”.

Vida nova na Cidade do Povo

Em 2012, depois da cheia do Rio Acre, o governo do estado remanejou recursos para atender às famílias que estavam em uma situação de vulnerabilidade extrema na cidade de Rio Branco. Foi decidido que seriam integradas à Faixa 1 da Cidade do Povo, megaconjunto de moradias, criado com a proposta de sanar o déficit habitacional do estado, através do programa federal Minha Casa Minha Vida. Quando estiver com todas as unidades habitacionais prontas, o empreendimento deverá abrigar mais de 50 mil pessoas.

“A incidência das enchentes aumentou e os abrigos públicos não suportaram mais atender todos os desabrigados”, explica a assistente social Nayanne Braga, do Departamento Social da Secretaria de Estado de Habitação do Acre (Sehab). De lá para cá, 3.131 casas da Cidade do Povo foram entregues às famílias de baixa renda que moravam em áreas de risco ou alagadiças. A última entrega aconteceu no início deste ano, atendendo 127 famílias.

“A incidência das enchentes aumentou e os abrigos públicos não suportaram mais atender todos os desabrigados”

A família de Jessé Lima Manasfi, que morava em uma casa de madeira no bairro Cidade Nova, uma das áreas mais alagadiças da capital do Acre, foi uma das contempladas. Desempregado, e com 29 anos, faz bico de entregador de pizza para sustentar a esposa e seus dois filhos, sendo o mais novo portador de necessidades especiais.

“Fica difícil para a gente morar em área de risco. Tem muito rato, barata. Na cheia de 2012, ficamos com Antônio Davi [filho do casal] porque não tinha para onde ir. Em 2015 deu para sair já dentro d’água. Minha mulher levou as crianças para a casa da mãe e eu fiquei tomando conta das coisas e ajudando os vizinhos. Foi uma experiência ruim, sem energia e sem comida. É muito difícil. A gente morava lá porque é mais barato morar na beira do rio”.

Larissa da Silva Lima, a filha mais velha de uma família de sete pessoas, também está experimentando uma vida nova, desde o início do ano, quando deixou de viver a 20 metros da beira do Rio Acre para habitar uma casa de dois quartos, sala, banheiro e cozinha, na Cidade do Povo. Desde os 12 anos, cuida dos seus irmãos enquanto a mãe trabalha como empregada doméstica. Hoje, aos 20 anos de idade, trabalha como babá e também planeja estudar para ingressar numa universidade no próximo ano.

Da sua infância, ficaram as lembranças boas e ruins de quem cresceu brincando em praias de rio. “Era um barranco bonito.  A gente podia nadar. Agora não, é só lixo. Isso é realmente culpa nossa, das pessoas que jogam o lixo no barranco”. Na alagação de 2015, sua casa foi toda perdida. “Foi desesperador, a gente teve meia hora para sair quando a água veio. E, depois, não voltamos mais para casa. Tivemos que ficar no aluguel social até o começo deste ano, quando o maior sonho da minha família se realizou. Estamos em um lugar seguro agora”.

Mas o programa do governo acreano não agradou a todos. A Cidade do Povo fica a 12 quilômetros do centro de Rio Branco. Para ficar mais perto do centro da capital e da família, Francisco Aldeído Gomes, de 32 anos, desistiu de ir para lá durante o processo de avaliação do programa. Aposentado por invalidez após sofrer um acidente, tem dificuldades para andar no bairro Adalberto Aragão, onde vive desde os 12 anos. “Lá é muito longe e aqui é tranquilo. A gente se acostuma com a água. Antigamente, meus pais moravam no seringal buscando água na cabeça na beira do rio e se acostumaram”.

Em 2004, quando comprou o terreno em que mora, sua casa ficava próxima ao solo e não aconteciam alagações. Hoje, está localizada em uma das 11 áreas de risco de Rio Branco: “Na cheia de 2012, tive que suspender as coisas e ficar o tempo todo em cima da rede. Quando a água baixou, comprei madeiras para suspender a casa. Ela é levantada hoje já pensando nas enchentes”. Ainda assim, em 2015, a cheia desafiou mais uma vez a resiliência de Francisco, que teve que se socorrer em um abrigo por 20 dias.

Nayanne Braga, a assistente social da Sehab, explica que uma coisa é entrar em uma comunidade logo depois de uma enchente, e outra é abordar estas famílias após alguns meses da inundação: “Há diferença entre a aceitação. Tem famílias que aguardam uma casa nova desde 2013. Neste processo, criam-se situações subjetivas que precisam analisadas caso a caso”.

Francisco: depois da cheia de 2012, “comprei madeiras para suspender a casa”

Raimunda Nascimento e sua filha também não querem sair da casa onde vivem, que fica em um sítio em pleno centro de Rio Branco. O local está em área de risco de alagação e desbarrancamento no Bairro Preventório.

Raimunda há 30 anos cria galinhas no mesmo local: “Quando vamos encontrar outro lugar como esse?”

Para uma senhora de 72 anos, que cria galinhas há mais de 30 no mesmo terreno, é mais difícil se acostumar com a ideia de ter que um dia abandonar a sua casa no meio do mato. “Quando vamos encontrar outro lugar como esse na cidade?”, indaga sua filha, Gilda Oscarina Nascimento Ferreira. Dona Raimunda, responde: “Não vamos encontrar, ficaremos aqui até quando o governo deixar. Antes, a gente descia e subia o barranco deslizando no barro. Agora faz quase um ano que, graças a Deus, fizeram esta escada”.

Causa, efeito e futuro

A vulnerabilidade das populações ao possível aumento dos extremos climáticos – como inundações, secas severas e ondas de calor – traz discussões sobre a necessidade de definição de uma estratégia de adaptação e mitigação para a Amazônia e para todo o país. Bruce Forsberg, do Inpa, avalia que o Brasil precisa negociar fortemente com todos os países do mundo a redução das emissões de gases de efeito estufa, além de fazer a sua parte também:  “O que a gente fizer na Amazônia não vai resolver todo o problema. Não depende só da gente, depende da China, do Presidente Trump dos EUA”.

Para o pesquisador Foster Brow, os governos têm obviamente, um papel, porém essa é uma responsabilidade de toda a sociedade. “O governante não vai poder parar a água. Se algum desastre natural acontecer, toda a população paga”. Na cheia histórica de 2015, o prejuízo para a cidade de Rio Branco foi estimado entre 200 a 600 milhões de reais.

Bruce acredita que as populações que moram em áreas alagáveis da Amazônia já estão adaptadas à variação de inundação anual da região. Por isso, têm mais resiliência e capacidade de responder a estes eventos do que “nós da cidade”. “Para quem mora em uma casa flutuante, a beira está sempre mudando, e toda sua vida já é adaptada”, explica.

A adaptação é a resolução parcial em um processo inicial e com limitações. Após uma inundação, constrói-se uma casa mais alta, sem modificar o comportamento. “As enchentes continuam, mas sua vulnerabilidade foi reduzida. Já a mitigação atinge diretamente a causa, reduzindo o carbono da atmosfera e reflorestando a bacia. Adaptação é mais barato do que mitigação, mas temos que fazer as duas coisas”, recomenda Foster Brown, pesquisador da Ufac.

Para Seu Otacílio, o vendedor que sobreviveu às três últimas cheias históricas do Rio Acre, o futuro será pior porque “as pessoas estão destruindo o planeta, desmatando a Amazônia, e avançando para o lugar da água”. Ao menos ele está fazendo a sua parte, protegendo sua propriedade de sete hectares com nascente de água que abastece a cidade: “Daqui uns anos, pretendo transformar a área em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural. Tem muito fazendeiro meu vizinho destruindo a floresta. Mas falo para eles: em beira de rio e igarapé não se pode desmatar. Temos que cuidar dos nossos rios”.

×

Encontre a localização

Encontrar

Resultados:

Latitude:
Longitude:

Zoom:

Finalizar geocodificação

×

Envie um artigo

Você tem alguma notícia para compartilhar sobre a Amazônia? Contribua para este mapa enviando uma reportagem. Ajude a ampliar o entendimento do impacto global desta importante região.

Encontre localização no mapa

Encontre localização no mapa